Oswaldo Pessoa – Aula 4 – Método Científico Em Aristóteles (2/4)

2. Método Indutivo-Dedutivo de Aristóteles

Nos Analíticos Posteriores (ou Segundos Analíticos), Aristóteles desenvolveu sua concepção do método científico17. Segundo ele, a investigação científica começa com o conhecimento de que certos acontecimentos ocorrem ou que certas propriedades coexistem. Através do processo de “indução”, tais observações levam a um princípio explicativo. Uma vez estabelecido, este princípio pode levar, por dedução, de volta às observações particulares de onde se partiu ou a outras afirmações a respeito dos acontecimentos ou propriedades. Há assim, na explicação científica, um processo de “vai-e-vem”, partindo do fato, ascendendo para os princípios explicativos, e descendendo novamente para o fato (Fig. IV.1). O filósofoda ciência David Oldroyd18 chamou este vai-e-vem de “o arco do conhecimento”. Na Idade Média, este padrão indutivo-dedutivo seria chamado Método da Resolução (indução) e Composição (dedução), como veremos na seção XIII.1.

Tomemos o exemplo do eclipse lunar. Primeiro, observa-se o escurecimento da lua durante o eclipse. Para explicá-lo, é preciso encontrar os princípios explicativos, que Aristóteles identifica com as causas do fenômeno. Para isso, procede-se por indução a partir da observação do eclipse e de outros fenômenos também. Por exemplo, inspecionando as sombras de objetos formadas a partir da luz solar, conclui-se por indução que os raios de luz propagam-se de maneira retilínea, e que são os corpos opacos que geram a sombra. Então, num ato de “perspicácia”, chega-se à noção de que o eclipse é causado pela interceptação da luz solar pelo corpo opaco da Terra, de maneira que é a sombra projetada pela Terra na Lua que a faz escurecer. Por dedução, posso confirmar que tal disposição dos astros de fato provoca um escurecimento da Lua, como também posso deduzir outros aspectos do fenômeno, como o fato de que a sombra deve ter uma forma circular, já que surge da interceptação por um objeto esférico (a Terra).

 

17 ARISTÓTELES (2005), Analíticos Posteriores, in Órganon, trad. de E. Bini, Edipro, São Paulo (orig. c. 350 a.C.) Ver Livro I, § 34, p. 312 [89b10]. Usamos nesta seção: LOSEE, J. (1979), Introdução Histórica à Filosofia da Ciência, Itatiaia/EDUSP, pp. 15-25. 2a edição ampliada em inglês: 1980. Também foi consultado: CROMBIE, A.C. (1953), Robert Grosseteste and the Origins of Experimental Science 1100-1700, Clarendon, Oxford, pp. 24-29. Um estudo aprofundado é: PORCHAT PEREIRA, O. (2001), Ciência e Dialética em Aristóteles, Ed. Unesp, São Paulo.

18 OLDROYD (1986), op. cit. (nota 16).

 

Um comentário em “Oswaldo Pessoa – Aula 4 – Método Científico Em Aristóteles (2/4)

  1. Charles Feitosa de Souza disse:

    A despeito da concepção do método científico em Aristóteles,é bom lembrar que hoje a academia não dar o real valor desse princípio e que muitos acadêmicos se veem perdidos quando o assunto é a investigação científica.
    Muito interessante o artigo,pressumo que se muitos estudantes universitário o lessem,com certeza mudariam de opinião quanto ao quisito investigação científica, nos estudos nas universidades a carência com relação a pesquisa estar cada dia mais empobrecendo o conhecimento e muitas universidade nos dar uma imagem sinistra de que mais parecem instituíções perdidas na arrogância de que o saber,o conhecer,o investigar se resumem apenas na nota no fim do semestre…para os amantes da filosofia e da investigação científica isto é um tremendo sacrilégio.mais uma vez quero parabenizá-lo pela qualidade do conteúdo.

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