Oswaldo Pessoa – Aula 2 – Definição de Conhecimento 3/3

3. Definição Prototípica de Ciência

Se a ciência for considerada uma forma de “conhecimento”, no sentido da definição tripartida, então mesmo a física newtoniana não poderia ser considerada ciência, já que ela é falsa. Uma saída seria trabalhar com uma noção de “verdade aproximada”. Outra saída seria dizer que a ciência é uma atividade que almeja o conhecimento (nesse sentido estrito).

Mesmo sem nos preocuparmos com uma definição estrita de conhecimento, tolerando uma definição mais intuitiva, fica claro que há formas de conhecimento que não são científicas, como o chamado “conhecimento pessoal”. Sei que quando a galinha cacareja, ela está botando ovo, mas tal conhecimento não é considerado científico. Por outro lado, se colocarmos um certo “fator de crescimento” no bico de um embrião de galinha, ela nascerá com dentes, revelando que seus antepassados (dinossauros) tinham dentes e que essa capacidade genética encontra-se latente nos pássaros9. Tal conhecimento é claramente científico, pois ele não é óbvio nem imediato, e foi o resultado de muito trabalho metódico e da concatenação de observações e teorias.

Assim, de maneira simplificada, podemos dizer que a ciência é uma forma de conhecimento não-imediata, e que por isso requer um método específico, mais sofisticado do que as simples observações e inferências que empregamos em nosso dia-a-dia. Além disso, o conhecimento científico que é obtido por um pesquisador deve ser verificável por outras pessoas , de forma que a ciência seja considerada “objetiva”.

Não precisamos nos preocupar com uma definição exata, “conjuntista”, de ciência, que estipularia precisamente as características necessárias e suficientes para que uma atividade seja considerada científica (associada a nomes como Aristóteles e Frege). Pelo contrário, podemos nos inspirar em um estilo de definição que podemos chamar de prototípico (inspirado na “semelhança de família” de Wittgenstein e no trabalho da psicóloga Eleonor Rosch, e descrito também pela lógica difusa ou fuzzy). Pesquisas em psicologia indicam que nossa mente não trabalha com conceitos definidos de maneira exata, mas sim com “protótipos”10. Temos um protótipo do que seja “cadeira”, um objeto que satisfaz um conjunto de propriedades: tem quatro pernas, um assento, um encosto, tem um tamanho compatível com o ser humano, pode ser usado para sentar, foi feito com a finalidade de que um ser humano nele sentasse, é rígido, etc. Se retirarmos uma dessas propriedades, continua sendo, claramente, “cadeira”. Mas se retirarmos duas, três, começaremos a ficar em dúvida. A definição prototípica incorpora a existência de zonas de transição entre diferentes protótipos, e não procura estipular de maneira arbitrária e convencional (como faria tipicamente uma “filosofia analítica” de inspiração conjuntista) uma linha de demarcação clara.

Falando em galináceos, poderíamos relembrar o infame “problema do ovo e da galinha”: quem veio primeiro? Uma estratégia conjuntista definiria de maneira exata o que seria um Gallus gallus, por exemplo a partir de uma especificação detalhada das seqüências de DNA que caracterizariam uma galinha, e das seqüências que não a caracterizam. Desta forma, na linhagem das galinhas, teria havido uma primeira galinha que nasceu de um ovo que foi posto por uma não-galinha: assim, o ovo (de galinha) teria vindo antes da primeira galinha. Por outro lado, segundo uma definição prototípica, o problema não teria solução, pois a transição da proto-galinha para a galinha é suave, sem cortes.

Busquemos então, para finalizar essa discussão, levantar uma lista de características que marcaram o surgimento da ciência, segundo o relato feito na seção anterior. Faremos isso  considerando que, para estudarmos a ciência, devemos dividir suas características em três grandes classes: teoria, experimento e social. Assim, a ciência é uma forma de teorização que se baseia na experiência e que é sustentada por uma organização social. Dos traços práticos (experimentais) mencionados neste capítulo, podemos desatacar: a observação, a construção de artefatos, e a realização de experimentos (o que envolve um método). Dos traços teóricos, há o fornecimento de explicações, e especialmente as explicações naturalistas (sem o envolvimento de deuses); entre os babilônios, havia o registro sistemático (de observações) e a realização de previsões; com os pré-socraticos, vê-se claramente a busca de generalizações (do universal, acima do particular, como por exemplo: “tudo é água”). Por fim, dentre os traços sociais, mencionamos a prática do debate público, a difusão da educação e a importância da patronagem (financiamento da pesquisa).

 

9 Maiores detalhes em: COHEN, P., “Monsters in our Midst”, New Scientist 2300, 21 julho 2001, pp. 30-33.

10 LAKOFF, G. (1987), Women, Fire and Dangerous Things. What Categories Reveal about the Mind, U. Of Chicago Press. Em português, ver BARBOSA DE OLIVEIRA, M. (1999), Da Ciência Cognitiva à Dialética, Discurso Editorial, São Paulo, caps. 7-9.

 

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