Oswaldo Pessoa – Aula 2 – Definição de Conhecimento 1/3

Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência I – Osvaldo Pessoa Jr. – 2010

Capítulo II

DEFINIÇÃO DE CONHECIMENTO

1. Definição Tripartida de Conhecimento

Um exemplo de conhecimento adquirido nos primórdios da ciência é a atribuição de números que os pitagóricos fizeram aos sons produzidos por cordas vibrantes. Este é talvez o primeiro estudo empírico sistemático que resultou na elaboração de uma lei científica quantitativa. Estudaram a relação entre os tons musicais de uma corda vibrante e seu tamanho, encontrando que os intervalos de oitava, quarta e quinta poderiam ser expressos em termos de razões numéricas simples de comprimentos da corda, respectivamente 1:2, 2:3, 3:4. Estudaram também os sons gerados em jarros com diferentes níveis de água.

Mas o que é conhecimento? Uma definição, aceita ainda hoje, foi desenvolvida por Sócrates, e aparece em diferentes diálogos de Platão, como o Teeteto, o Mênon, a República e o Timeu. Segundo esta análise, chamada de definição tradicional ou “tripartida” do conhecimento, o conhecimento seria uma opinião verdadeira justificada. Nas palavras de Teeteto, “a opinião verdadeira acompanhada de razão é conhecimento, e, desprovida de razão, a opinião está fora da conhecimento”. No Mênon, Sócrates diz que “o conhecimento se distingue da opinião certa por seu encadeamento racional”.5

O pré-socrático Empédocles acreditava que o Cosmos tivesse sido criado em uma grande explosão (seção I.3); tal crença é verdadeira (segundo a concepção atual do big bang), mas ele não tinha justificação apropriada para tal crença (pois não tinha como observar o movimento das galáxias distantes, como Edwin Hubble faria em 1929). Assim, sua tese cosmogônica não seria conhecimento. Por outro lado, o médico helenista Erasístrato tinha justificativa para acreditar que as artérias continham ar (seção VIII.1), mas tal crença é falsa, portanto também não seria conhecimento.

Analisemos um pouco mais a fundo a definição tripartida de conhecimento. Primeiro, consideremos o gênero nesta definição, que é “opinião”. Na literatura anglofônica, prefere-se o termo “crença”, e diz-se que conhecimento implica crença (ou opinião). Alguns propõem outras alternativas: conhecimento implicaria “aceitação”, “convicção”, ou “certeza psicológica”. Outros autores, porém, argumentam que conhecimento e crença são separáveis, que um não implica o outro. Por exemplo: numa prova, chutei que a data do primeiro incêndio da biblioteca de Alexandria fora 48 a.C., mas não cria nisso; porém, de fato, eu relembrei um conhecimento que adquirira muitos anos antes.6

Em segundo lugar, consideremos a diferença do gênero: opinião “verdadeira”. O que é verdade? Platão e Aristóteles adotavam a concepção de verdade por correspondência, expressa sucintamente na frase de Aristóteles “Dizer do que é que é, e do que não é que não é, é dizer a verdade” (Metafísica, 1011b25). Deixaremos para discutir esta e outras noções de verdade na seção seguinte.

Em terceiro lugar, seria preciso discutir o que significa uma opinião ser “justificada” ou “acompanhada de razão”. Este ponto é bastante discutido por Platão, e o Teeteto termina de maneira “aporética”, sem chegar a uma conclusão sobre o que é conhecimento. Este ponto é o mais discutido pelos autores modernos: no que consiste a “evidência” em favor de uma opinião? Na ciência, um peso grande da evidência advém da observação, mas em outras formas de conhecimento, como o matemático, o critério de justificação não passa pela observação empírica. Não adentraremos aqui esta delicada questão epistemológica, mas estudaremos em nosso curso como o conhecimento científico é justificado.

A definição tripartida do conhecimento passou a ser alvo de críticas a partir de contra exemplos formulados pelo norte-americano Edmund Gettier em 1963.7 Uma ilustração de tal tipo de contra-exemplo seria o seguinte: “Alguém nesta sala de aula possui um automóvel da marca Gurgel”. Tenho esta opinião porque o aluno Diego me apresentou um certificado de registro atualizado de um Gurgel Tocantins em seu nome. Acontece, porém, que Diego estava mentindo para mim, e forjou o documento porque é um nacionalista convicto e sempre sonhou em ter um carro genuinamente brasileiro! Mesmo assim, o enunciado em questão é verdadeiro, porque há uma aluna na classe, Sueli, que de fato possui um Gurgel Carajás! Está claro que minha opinião não constituía conhecimento, mas era, sem dúvida, uma crença verdadeira e justificada.

 

 

5 PLATÃO (s/d), Teeteto ou Da Ciência, trad. F. Melro, Inquérito, Lisboa (orig.: c. 360-355 a.C.), p. 159 (201d).

PLATÃO (s/d), Mênon, in Diálogos I: Mênon, Banquete, Fedro, trad. J. Paleikat, Tecnoprint (Ediouro), Rio de

Janeiro, pp. 44-74 (orig. c. 387-380 a.C.), p. 72 (98a). Datas dos originais são estimativas apresentadas em BRICKHOUSE, T. & SMITH, N.D. (2006), “Plato”, The Internet Encyclopedia of Philosophy.

6 Uma boa introdução à análise padrão do conhecimento se encontra em CHISHOLM, R.M. (1969), Teoria do Conhecimento, trad. A. Cabral, Zahar, Rio de Janeiro (orig.: 1966). Porém, quando se lê “h está certo”, deve-se entender “é o caso que h”. Detalhes do debate epistemológico podem ser obtidos de: DANCY, J. & SOSA, E.

(orgs.) (1992), A Companion to Epistemology, Blackwell, Oxford, verbetes “knowledge and belief”, “propositional knowledge”, “Gettier problem”, etc.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s