Oswaldo Pessoa – Aula 1 – Primórdios da Ciência Grega 2/3

2. Os Primeiros Filósofos-Cientistas e o Problema da Mudança

Os filósofos-cientistas teóricos de Mileto são lembrados pelas três cosmologias propostas. Tales (c. 624-546 a.C.) colocou a questão sobre qual é o princípio de tudo, e permanece o mesmo nas mudanças, e concluiu que é a água. Anaximandro (c. 610-546 a.C.) sugeriu que a primeira coisa não foi uma substância específica, mas algo indefinido, que chamou de “Ilimitado” (apeiron). No que é considerada a mais antiga sentença sobrevivente do pensamento ocidental, escreveu: “Aquilo de onde as coisas se engendram, para lá também devem desaparecer segundo a necessidade; pois elas se pagam umas às outras castigo e expiação pela sua criminalidade segundo o tempo fixado”.

Outra fonte apresentou a concepção de Anaximandro a respeito da origem do mundo da seguinte maneira: “No nascimento deste mundo, uma semente de quente e frio se separou do Ilimitado e a partir disto uma bola de fogo surgiu em torno do ar que circunda a Terra, como a casca de uma árvore.”2

Anaxímenes (c. 585-525 a.C.) sugeriu que o ar seria o princípio de tudo, que se transformaria em água através da condensação, e em fogo através da rarefação. O próximo grupo a se destacar no cenário filosófico-científico se concentrou em torno de Pitágoras (c. 572-490 a.C.) . Nascido na ilha de Samos, próximo de Mileto, mudou-se após a invasão persa para Crotona, na Magna Grécia (atual Itália), onde formou uma escola religiosa, filosófica e política. Aristóteles atribuiu aos milésios a busca pela “causa material” das coisas. Já os pitagóricos viam nos números os elementos básicos de tudo, o que pode ser considerado uma “causa formal” (na terminologia aristotélica). Para os pitagóricos, os números exprimiam mais do que aspectos formais dos fenômenos: as coisas seriam feitas de números. Desenvolveram também vários modelos astronômicos. Os pitagóricos também

foram importantes por terem desenvolvido métodos dedutivos na Matemática. O mais conhecido envolve a prova do “teorema de Pitágoras”, aplicável para os lados de um triângulo com ângulo reto: a² + b² = h², cujo enunciado já era conhecido dos babilônios.

O grande problema metafísico do início do séc. V a.C. era o problema da mudança: como é possível algo mudar, e deixar de ser o que era?

Heráclito de Éfeso (c. 535-475 a.C.) salientava que tudo estava sujeito a mudanças: “panta rhei” (tudo flui). Explorava exemplos, como o da corda tensionada, que indicava que por trás de um aparente repouso havia uma interação entre contrários, que finalmente podia levar ao movimento (no caso, quando a corda é solta).

Parmênides de Eléia (c. 510-450 a.C.) tomava uma posição oposta. Mais do que qualquer pensador antes dele, Parmênides duvidava da evidência dos sentidos, colocando a razão como única fonte confiável de conhecimento. Em seu famoso poema, salientou que “o que é não pode deixar de ser”, ou que “do não-ser não pode surgir o ser”. Em suma, a mudança é impossível. As mudanças que vemos à nossa volta são apenas aparentes, não são 2 reais. Após as conclusões de Parmênides, todos os filósofos gregos tinham que tomar uma posição em relação às suas teses.3 Anaxágoras de Clazômenas (c. 500-428 a.C.), tutor de Péricles em Atenas, era um que concordava que “nada pode vir a ser a partir do não-ser”, mas explicava a mudança a partir da mistura de todas as substâncias. Por exemplo, enfocando o nosso corpo, perguntava como era possível que um cabelo pudesse surgir a partir do “não-cabelo”. Sua resposta era de que o cabelo já existia em nosso alimento, sendo então incorporado ao nosso corpo e saindo de nossa pele na forma de cabelo. O cabelo, então, deve ter existido desde o começo, na mistura original de todas as coisas. Eis o sentido de seu enunciado de que “em tudo há uma porção de tudo”.

Empédocles de Agrigento (c. 490-430 a.C.), resolveu de maneira semelhante o paradoxo de Parmênidas. Concordava com as limitações do sentido, mas também argumentava que a razão era limitada. Concordando também que “nada pode vir a ser a partir do não-ser”, restaurava a noção de mudança postulando quatro elementos, terra, água, ar e fogo, que produzem mudanças ao se recombinarem e separarem. Para responder à questão de como apenas quatro “raízes” podiam levar a uma multiplicidade de diferentes substâncias, lançou a idéia de que os elementos se combinariam em diferentes proporções, dependendo da substância. Assim, por exemplo, o osso consistiria de fogo, água e terra na proporção 4:2:2, ao passo que o sangue consistiria dos quatro elementos em iguais proporções. Não efetuou, no entanto, nenhuma investigação empírica metódica para explorar sua idéia, que antecipou (de modo especulativo) a lei das proporções fixas da química moderna.

Outra abordagem para o problema da mudança foi o atomismo de Leucipo de Mileto (início do séc. V a.C.) e Demócrito de Abdera (c. 460-370 a.C.). Segundo esta visão, só têm realidade os átomos e o vazio. Qualquer diferença que observamos no mundo é devido a modificações na forma, arranjo e posição dos átomos. Haveria um número infinito de átomos espalhados no vazio infinito. Os átomos estariam em movimento contínuo, chocando-se freqüentemente uns com os outros. Nas colisões, os átomos poderiam rebater ou então se ligarem através de ganchos ou formas complementares. Os atomistas, assim, escapavam das conclusões eleáticas postulando uma infinitude de seres (os átomos) e também a existência do não-ser (o vácuo). Demócrito foi um escritor prolífero, redigindo tratados de física, astronomia, zoologia, botânica, medicina, agricultura, pintura e guerra. Aplicou em detalhe o  atomismo em sua doutrina das qualidades sensíveis.

Os pensadores do séc. V a.C. ocupavam-se com explicações sobre todo tipo de questão: Por que o mar é salgado? Por que o Nilo transborda? Como ocorre a diferenciação sexual em embriões?

 

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