Palco, Picadeiro, Púlpito, Palanque e Política – Eleições 2010.

O processo de sucessão eleitoral, pelo qual estamos passando, nos trouxe inusitadas, e, bizarras “novidades”. Se por um lado contemplamos, certa, participação mais diversificada de integrantes dos mais variados segmentos sociais, por outro, notamos a confusão instaurada, quanto ao papel da política no seio de nossa sociedade, e, mais da própria função daquele que a exerce com fins determinados àquilo que, poderíamos chamar, sua vocação!

  • Política.

Política não é uma palavra simples de se definir, a palavra é de origem grega, politikhè, segundo Abbagnano, ao menos, quatro coisas são designadas por essa palavra: 1ª.a doutrina do direito e da moral; 2ª a teoria do Estado; 3ª a arte ou ciência do governo; 4ª o estudo dos comportamentos intersubjetivos. Porém, interessa-nos para presente reflexão uma definição menos ambiciosa, menos ampla, aquela que figura na perspectiva de Weber (1864-1920) que, num de seus mais famosos ensaios, compreende […] a politica apenas como a liderança, ou a influência sobre a liderança, de uma associação política, e, daí hoje, de um Estado. Nesta perspectiva ela tem um papel imprescindível, tanto no contexto do Estado, quanto das associações políticas, ou seja, aquelas que se estabelecem voluntariamente entre as pessoas para a consolidação de uma determinada configuração de forças. Neste sentido, a política tem como objeto primeiro, o poder; e, se pensarmos como os gregos, o poder que tenciona garantir que os membros da comunidade (política) possam alcançar o seu fim comum: o bem da maioria, da démou, ou de muitos (da politia), ou do povo, o bem da polis. Em Weber, esse fim não é explícito, talvez nem mesmo implícito, mas, é justificável na concepção originária da política, entre os gregos. Todavia, essa concepção impõe uma reflexão mais aguda da relação entre a moral e a política, reflexão que se faz presente nos textos dos grandes filósofos, a partir do pensamento clássico grego, até o ápice da Ilustração.

  • Nuanças da Participação Política.

A participação política é um dispositivo importante para que a comunidade alcance seu fim determinado, para que todos possam influenciar, de certa forma, no rumo que seguirá o desenvolvimento da sociedade e no próprio papel individual que cada um desempenhará na configuração social. Por outro lado, a não participação política, no seio da sociedade, é um problema que acarreta drásticas consequências. Certa vez, contemplamos num muro, na cidade de São Paulo, a seguinte frase: “O pior castigo para aqueles que não se interessam por política é que eles serão governados por aqueles que se interessam!” Descontando a inferência negativa, aquela que faz supor, implicitamente, que aqueles interessados por política são, necessariamente, manipuladores, essa frase tem certo quê de verdade e expressa apenas um dos resultados da não participação política. Assistir o horário reservado à propaganda eleitoral, acompanhar os noticiários, ler os jornais, e, prestar atenção aos veículos de propaganda dos vários candidatos à sucessão eleitoral, faz-nos ter a impressão que a apatia política está sendo banida do cenário contemporâneo. Afinal, além, dos já conhecidos “…cabelereiro’, “…da farmácia”, “…da padaria” e, etc, vislumbramos, cada vez mais, celebridades da TV, dos esportes e religiosos, empenhados na busca à obtenção de um cargo, de uma função no cenário da política brasileira. É uma prerrogativa das sociedades democráticas garantir a liberdade e participação política a todos os que por ela se interessam e estão civilmente habilitados para exercê-la, em diferentes níveis e status. Todavia, a situação presente têm um caráter nefasto que é bem dissimulado através dos veículos de comunicação e de técnicas arrojadas de Marketing.

  • Poder.

A atividade política envolve o jogo de influências, os dispositivos de fama, capitalização de, muito, dinheiro, mudança ascensional de status, em suma, poder, e como, bem, teorizara Hobbes (1588-1679), que na Modernidade, multidão convertera-se em, povo, em “corpo político” (República), e, esta cede a um Soberano o direito à sua natureza, podemos dizer que isso é o poder. Pensemos no Estado, este necessita de um imenso e complexo aparelho, que lhe permite, não apenas, exercer, mas, também realizar a constante manutenção de seu poder sobre os cidadãos. Este aparelho, alguns dirão aparato, constituir-se-á num propagador, num disseminador de certa ideologia, da racionalização, dirá Weber, que visa, não apenas, justificar, mas, principalmente legitimar as pretensões do Estado, e, que é engendrada e articulada por uma eficaz burocracia. É certo, como pensa Weber, que o Estado, tem o direito exclusivo do usa da violência, da força coercitiva, e, que em última instância é nisso que se assenta o próprio conceito do Estado. Portanto, no interior do Estado, ou em relações interestaduais, o exercício político, implica na participação e (ou) distribuição de poder. Weber, chega a dizer:

Quem participa ativamente da política luta pelo poder, quer como um meio de servir a outros objetivos, ideais ou egoístas, quer como “poder pelo poder”, ou seja, a fim de desfrutar a sensação de prestígio atribuída pelo poder.

(WEBER, 1974, p. 98)

Neste ponto as inquirições acerca da legitimidade deste poder; dos reais motivos pelos quais os cidadãos se submetem, se tornam mais agudas, e Weber nos expõe aquelas, que a partir de então, se tornarão as famosas três justificações, ou legitimações básicas do domínio, da autoridade: 1ª a autoridade “tradicional”, aquela legada de tempos imemoriais; 2ª a autoridade “carismática”, do vocábulo grego charisma = graça, que Weber transpõe do domínio teológico para o sociológico, e que é exercido pelo profeta, pelo guerreiro eleito, pelo grande demagogo e pelo líder, e por fim, a 3ª autoridade “legal”, aquela que consiste na crença em regras racionalmente criadas para o gerenciamento do Estado com vistas ao bem comum, que, poderíamos dizer, tratar-se do modelo moderno no âmbito do poder estatal. Weber, se importa em explicar que estes três tipos “puros”, raramente se encontram, e que podemos, encontrá-los em muitas variantes, em múltiplas e complexas combinações. Porém, é de suma importância que estes domínios necessitem de organizações e bens materiais, de funcionários e de administradores; dos primeiros se requer eficacia e abundância, dos últimos obediência e reconhecimento de que administram o que não lhes pertence, esta classe, dos administradores , é o chamado domínio político. Neste domínio os seus integrantes sabem que os interesses pessoais de recompensa material e honraria social, são basicamente inerentes e encontram satisfação natural no decorrer de sua carreira política, todavia, o questionamento, que podemos colocar-lhes em face é se o seu exercício político têm como móbil exclusivo estes interesses. Podemos perguntar, aos envolvidos no domínio político, como eles “encaram” o exercício de sua vocação? Todavia, antes de nos determos, um pouco, na abordagem de Weber acerca deste problema, pensemos no panorama que se desenvolve ante nossos olhos no processo de sucessão eleitoral 2010, e, nas implicações a ele relacionadas.

  • A Síndrome dos “Ps”.

Há alguns anos, talvez na década de 80, no Brasil, surgiu um fenômeno de diversão entre a garotada, não era um novo tipo de brinquedo, nenhuma nova parafernália eletrônica ou computacional, nem desenhos animados, animes, mangás e etc. Antes, era um exercício linguístico, por vezes, até mesmo complexo, que crianças muito pequenas manuseavam, ou digamos pronunciavam, com maestria e que até os adolescentes aderiram desenvolvendo, inclusive, novas nuanças. Esse fenômeno era chamado de “Língua do P” e consistia em pronunciar palavras, frases e mesmo estabelecer um longo e divertido diálogo (e até entoar canções populares) colocando antes de cada sílaba, em algumas variantes, antes mesmo de cada letra, a letra P. Talvez, para a garotada do século XXI esta “brincadeira” não pareça tão atraente ou divertida, mas certamente o era em épocas passadas, e a tal ponto, que virou mania. Esta breve digressão, aparentemente despropositada e, mesmo banal, foi quem inspirou o título deste artigo, pois dispusemos suas palavras centrais, todas iniciadas pela letra P, intentando aludir, ao que poderíamos chamar de “Síndrome dos Ps”, ou seja, a confusão estabelecida no domínio político com a não distinção de competências e habilidades relativas às “vocações” alheias a este domínio, e, mesmo, atinentes a campos heurísticos totalmente diferentes, mas que com recurso de técnicas de Marketing e tecnologias Midiáticas são introjetadas nas consciências de milhares de eleitores com o slogans de solução, ou alternativa política .

  • Palco.

O palco é o lugar onde se sobressaem os artistas, onde podemos apreciar , muitas vezes, quase hipnotizados atuação daqueles que cantam e encantam; que dançam e “flutuam”; que encarnam as mais variadas personas e nos envolvem em tramas transcendes que invadem nossa realidade. Principalmente, com o advento Modernidade, com a instauração da cultura de massas, os artistas se tornaram astros, são reconhecidos, venerados, adorados, seguidos e imitados. Se tornam modelo e inspiração para milhares, vezes até, para milhões. Mas, na relação do astro com o público, há uma ambiguidade, não apenas aquela do amor/ódio, mas, uma ambiguidade na dedicação que este se propõe com relação aos que o admiram. O patamar ao qual é alçado aquele que é alvo de toda atenção, muitas vezes lhe deforma o caráter, lhe proporciona a sensação de superioridade, de quem é seguido e imitado por milhares, e, isso significa ser influente, ter certo domínio, certo poder sobre outros. Nesta relação, ele tende a esforçar-se por superar as expectativas do público, pode fazê-lo por legítima realização pessoal, ou seja, porque ama a arte, e assim o reconhecimento virá consequentemente, ou pode fazê-lo com o objetivo apenas de realização profissional, ou seja, apenas para ter o reconhecimento, apenas porque sabe que dar-se significará receber mais, não apenas monetariamente, mas sobretudo, em prestígio em influência. Poderíamos estender esta reflexão, porém, é suficiente o que foi dito até aqui, já que pensamos num questionamento que se nos impõe: o que ocorre quando o exercício da arte já não proporciona , de modo eficiente, esse poder sobre os outros? Há algumas vias. Alguns têm procurado incentivar e apoiar novos talentos, aproveitando-se de habilidades exercitadas durante sua carreira ativa, o que em certo sentido, lhes proporciona grande realização pessoal, e por extensão, mantém sua carreira ativa. Percebe-se nesta atitude a sinceridade e as verdadeiras intenções do artista com relação , não apenas à arte, mas sobretudo com o público, para quem procura proporcionar novos prazeres. Outros, porém, não conseguem lidar com a perda da glória, da fama e do poder associado a ela, não distinguindo entre si e a persona construída, sentem necessidade em dispor suas habilidades e talentos numa empreitada em campos de atuação que não têm relação alguma com os mesmos. Devido as múltiplas possibilidades de poder intrínsecas à política, este é o campo em que mais têm investido diversos artistas, a crença, justificada, de que sua influência e o fascínio de que são portadores, no âmbito artístico, pode lhes proporcionar uma posição de destaque na área política, e, essa, por sua vez, lhes lhes conceder um novo e poderoso meio de domínio. Talvez, alguns argumentem que nem todos os artistas envolvidos em política estão em fase de declínio em seus campos de atuação, porém, se forem factuais os motivos, aqui tratados, então, essa empreitada é sintoma de uma ambição muito maior e mais sinistra, do que possamos avaliar. Não queremos supor, por meio desta, que não haja personalidades do meio artístico, que possuam vocação política, afinal não ignoramos que a política, já na Antiguidade era considerada uma ars, todavia, o não é essa arte sob a qual se estende a habilidade destes, o uso de seu prestígio e influência, enquanto artistas consagrados, para a obtenção de votos sob a promessa de “mudança no panorama político” com a inclusão de uma “alma verdadeiramente boa” em seu meio.

  • Picadeiro.

O picadeiro é um lugar repleto de magia e de encanto, onde nos emocionamos com a desenvoltura da malabarista, admiramos a coragem do domador, somos surpreendidos pela destreza do mágico, mas, acima de tudo rimos das palhaçadas do palhaço. Estas são algumas personagens tipicas do mundo circense, e, que povoam o imaginário de milhares de crianças no mundo inteiro. É certo, que nossos filhos não têm tanta familiaridade com o espetáculo circense, quanto nós tínhamos em nossas infâncias, exceto, talvez, em determinadas regiões do Brasil, onde ainda não há uma quantidade monstruosa de entretenimentos eletrônicos, digitais, e outros; onde até mesmo, por vezes, não há, sequer, energia elétrica! O domínio do picadeiro é o domínio da magia e do encanto, ele não se impõe, se conquista; ele nos impacta, porque nos apanha pela emoção, não pela razão, ele nos ensina que não podemos viver sem o lúdico, mesmo que sejamos adultos, pois, como disse, certa vez, o grande Nelson Rodrigues (1912-1980): “O adulto não existe, o homem é um menino perene!” Como meninos, procuramos um dispositivo que nos alivie das agruras da vida adulta, nos livre das mazelas de nossa alma fustigada pelo mundo adulto, por essa civilização que, de acordo com a teoria de Freud (1856-1939), foi construída por nós e isso contra nós mesmos. Talvez, a consciência latente desta realidade nos impulsione rumo à aventura, não de substituirmos nossa vivência política para uma vivência artística, mas, de buscar, ou antes, de aceitar, que se nos furtem a essência de nossos sonhos pueris e os transformem em proposta política. Sejamos, mais claros, reconhecendo a força do lúdico, em alijar as consciências para com relação a problemas prementes, indivíduos conhecedores do mecanismo interno da máquina política, recrutam daquele âmbito, personagens, que sabemos, em certo sentido, serem capazes nos fazer rir, mesmo de situações tristes ou nada fáceis de lidar. Esses indivíduos já nos conquistaram, nos fazem rir, mesmo quando discordamos de que sejam capazes de solucionar qualquer problema que aflija a sociedade. Mas, afinal, de que adianta pensar em solução se podemos rir dos problemas? Os romanos tinham o panem et circenses, e isso os alijava, os líderes desta nação se orgulham de já ter nos dado o panem só nos falta mesmo o circenses, não aquele em que os cidadãos se reconhecem palhaços, mas um novo, aquele em que os cidadãos poderão dizer, realmente, que riem dos políticos; não porque a política seja uma palhaçada, mas sim, porque há factualmente palhaços que interpretam políticos. Assim, podemos nos entreter, ficar um tanto adormecidos, de modo indolente, com essa “solução” provisória, que não atinge realmente seu fim último do exercício político.

  • Púlpito.

Local de proclamação, e, proclamação da Palavra, a Palavra de Deus! Assim, deveríamos definir, em poucas palavras, o púlpito, e isso, porque nada é mais importante na vida da Igreja do que a proclamação da Palavra e nenhum outro lugar é mais apropriado a essa função do que o púlpito. A ocupação central do ministro cristão é a proclamação da Palavra, seu ensino, sua explanação, sua interpretação e a consequente aplicação à vivência prática da comunidade. É certo que a Igreja, enquanto uma comunidade histórica tem outras funções, funções que poderíamos chamar sociais, tais como, em certos casos, a alfabetização de seus membros, e, em outros, a reabilitação social, mas, essas são funções adjacentes, corolários naturais e consequentes, de sua função e atividade natural: a proclamação da Palavra. A magma commissionem – a grande comissão – “Ide por tudo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (cf. Mc. 16.15) é seu encargo maior. O ministro cristão; pastor; reverendo; bispo ou sacerdote tem sobre a comunidade dos fiéis, a autoridade daquele que o chamou para conduzir sua ekklesia, tanto em direção ao alvo prometido (cf. Fp.3.14), quanto na obra de proclamação. Mas, sua autoridade se estabelece num plano diferente daquele que reconhecemos como horizontal, antes, ela é posta numa relação de verticalidade, o que é representado pelo rasgar do véu que separava o lugar santo do Santo dos Santos – ação essa que se deu de cima, para baixo (cf. Mt 27. 51) –, portanto, ela aponta para uma relação onde a configuração de poder, se planifica numa distribuição, de modo tal que aquele que mais recebe, na verdade, é o que mais deve servir (cf. Lc.12. 48 e 22. 24- 30), posto que, o chamamento para o interior do Reino de Deus, prefigurado e antecipado, de certo modo, pela Igreja, é sempre proveniente do alto, e isso, igualmente para todos os cristãos, embora , nem todos os cristãos tenham no seio da Igreja o mesmo ministério, todos têm a mesma importância, o que é justificado, por exemplo, na figura do corpo, usada por São Paulo para descrever a Igreja (cf. I Co.12.12-30). Daí que, qualquer uso desta autoridade, quer direta, quer indiretamente, com vistas a obtenção ou manutenção do poder político, não encontra respaldo nas palavras daquele que efetuou o chamado para o ministério cristão, pois quando indagado acerca de supostas pretensões políticas Jesus, simplesmente respondeu: “[…] Meu reino não é deste mundo […]” (cf. Jo. 18.36). E essa resposta é a antítese das pretensões políticas, daqueles que, supostamente, falam “da parte de Deus”, que este ou aquele candidato é a resposta de Deus para nação ou para outros cargos políticos, quer no Executivo, quer no Legislativo! Fazer uso da possível autoridade conferida para o ministério cristão, com estes objetivos representa uma deturpação plena do próprio ministério para o qual se é chamado, e uma traição do propósito original de Deus, segundo a perspectiva cristã, que advoga uma relação de cooperatividade da comunidade cristã com a comunidade civil, cooperação que visa alcançar o fim último da vivência em sociedade, conforme definido já no início deste escrito. Para Barth (1886-1968), por exemplo:

Ao se fazer corresponsável pela comunidade civil, a comunidade cristã não tem que representar teoria alguma que necessariamente fosse sua específica, frente às diversas formas e realidades políticas. Ela não está em condições de apresentar alguma doutrina como sendo a doutrina cristã por excelência do Estado legítimo. Ela tampouco está em condições de apontar para alguma concretização já havida do Estado perfeito ou de propor a criação de um Estado desses. Somente existe um corpo de Cristo, nascido da palavra de Deus ouvida na fé. Não existe, portanto, nenhum Estado cristão correspondente à igreja cristã, nenhuma réplica da igreja na esfera política. Pois, mesmo que o Estado seja efeito de disposição divina, mesmo que ele seja a forma em que se apresenta uma daquelas constantes da providência divina e da história do mundo por ela regida no reino de Cristo, isto não implica que Deus se revele, seja crido e reconhecido numa comunidade estatal em si. O efeito de disposição divina a se concretizar em sua existência está em que pessoas receberam em termos de fato (independentemente da revelação de Deus e de sua fé) a incumbência de cuidar do direito temporal e da paz temporal, da humanização exterior, relativa, provisória da existência humana, e isto “segundo critério do discernimento humano e da capacidade humana”.

(Barth, 1986, p. 296)

Esta visão é plenamente equilibrada, propõe uma cooperatividade com a comunidade civil sem uma transposição das prerrogativas e características da comunidade da fé sobre uma forma de Estado ou concepção política específica, afirma a direção, em última instância, da história rumo ao advento escatológico do Reino de Deus, mas, não o faz em detrimento do presente caráter humano das hodiernas formas de governo. Não revindica fé para nenhuma concepção política, reconhecendo que todas estas são construções humanas e ao mesmo tempo coloca todas as concepções políticas em questão, apelando não para as qualidades inerentes e exclusivas à comunidade de fé, mas antes, “segundo critério do discernimento humano e da capacidade humana”.

  • Palanque.

As grandes disputas políticas deveriam ser decididas nos palanques, local de valorização da retórica e da capacidade oratória, onde, em tese, os candidatos deveriam não apenas expor sua figura, mas, sobretudo suas ideias, suas propostas políticas, em suma, seus planos para o bem da sociedade; as urnas apenas culminariam aquilo que fora previamente definido nos palanques. Porém, essa função, na atualidade, parece ter se deslocado do palanque para o âmbito da mídia eletrônica e a ação decisiva parece ter se tornado dependente de como os partidos usam os melhores recursos de Marketing político. A TV e a Internet são os principais veículos de propagação das campanhas políticas e também os principais formadores das intenções de voto, somados a eles temos também a influência exercida pelas “pesquisas”. A sucessão eleitoral 2010 foi a mais paradigmática, quanto a essa perspectiva, não tivemos grandes comícios e as investidas corpo-a-corpo nem se compararam à algumas que já vistas em eleições passadas, todavia, a disputa eletrônica foi mais acirrada e as técnicas de Marketing político exploradas de modo mais incisivo. As campanhas atacaram mais diretamente nossos sentidos, visuais e auditivos, no âmbito da virtualidade e do tecnicamente produzido, do que no âmbito das relações humanas. Vimos um processo efetuado com distanciamento político que espelha realmente o mesmo grau de distanciamento estabelecido entre as pessoas, principalmente, nos grandes centros urbanos, o que pode indicar, e talvez realmente indique, que envolvimento político, mesmo que acentuado, não é autêntica participação política, e, tampouco a pressupõe. Numa atividade onde os envolvidos realmente não entendem, ou não aceitam, os pressupostos básicos que possibilitam a efetivação de seu exercício como legitimadores de uma hipotética vocação, no caso, a vocação política; como podemos levar a sério o processo de sucessão eleitoral e acreditar que o poder, atinente à política, realmente será exercido visando o bem da viver da maioria, noutras palavras do povo?

  • Algumas Considerações Adicionais e Conclusão.

E, enfim, retornamos à pergunta com a qual iniciamos esse texto, ou seja, àquela com a qual confrontamos a atitude dos atuais candidatos à sucessão eleitoral, acerca de sua relação com a política, e esta, enquanto vocação. Segundo Weber, há basicamente dois modos, pelos quais é possível fazer da política sua vocação: o viver “para” política e o viver “da” política. Em suas palavras, a distinção se dá da seguinte forma:

Quem vive “para” a política faz dela a sua vida, num sentido interior. Desfruta a posse pura e simples do poder que exerce., ou alimenta seu equilíbrio interior, seu sentimento íntimo, pela consciência de que sua vida tem sentido a serviço de uma “causa”. Nesse sentido interno, todo homem sincero que vive para a causa também vive dessa causa. A distinção no caso, refere-se a um aspecto muito mais substancial da questão, ou seja, o econômico. Quem luta para fazer da política uma fonte de renda permanente, vive “da” política como vocação, ao passo, que quem não age assim vive “para” a política .

(Weber, 1974, p. 105)

Não é fácil diagnosticar a relação de “político” com a política, enquanto vocação, pois o próprio Weber, admite que tanto na teoria, quanto na prática as duas formas de vocacionar-se como político, podem ser vividas concomitantemente. Porém, é possível, de posse de conhecimentos prévios acerca do histórico daquele que se candidata a um cargo político, e de um olhar crítico sobre suas propostas (ou sobre sua propaganda5) intuir se ele intenta viver para a política, abraçando uma causa maior que seus interesses pessoais, posto que, envolve interesses trans pessoais, sociais, ou, se ele intenta apenas satisfazer seus interesses pessoais, ou mesmo, de uma minoria (política, empresarial, religiosa e etc.) com a qual mantém algum vínculo. Algumas “almas boas” são usadas, ou (e) se deixam usar para alcançar interesses de certos grupos, sobretudo, mais elitizados e em posição socioeconômica mais destacada que à maioria da população, por este motivo, é comum em épocas de campanha eleitoral, notarmos a ascensão de certos ícones que supostamente representam , de modo caricaturesco, a maioria nação brasileira! A solução, proposta por Weber, para o problema de a vocação política ser vivida exclusivamente com objetivo de tornar-se “fonte de renda permanente”, está que o político deva ser economicamente independente, noutras palavras, rico, ou “ter uma posição pessoal na vida que lhe proporcione uma renda suficiente”. Não podemos transpor sua solução, elaborada na Alemanha no início do século XX (1918), para o Brasil do século XXI, as respectivas diferenças devem ser consideradas, e isso, nos mais variados sentidos e implicações! Todavia, ela nos instiga a pensar, que em cargos como, deputado federal, por exemplo, os rendimentos mensais, incluindo benefícios e despesas adicionais, podem chegar a aproximadamente R$ 100.000,00 (segundo fontes não oficiais), e que os privilégios para os integrantes do Três Poderes, talvez, estejam muito além, daquilo que reflete as próprias necessidades da nação, onde o índice de desigualdade social é alarmante! Não estaremos nós, armando o cenário para que as pessoas queiram, mais viver “da” política, do que “para” a política?

Bibliografia.

ABBAGNANNO, Nicola. Dicionário de Filosofia, Martins Fontes, São Paulo, 1999.

BARTH, Karl. Comunidade Cristã e Comunidade Civil. In: Dádiva e Louvor – Artigos Selecionados. Editora Sinodal, São Leopoldo, RS. 1986.

WEBER, Max. Ciência e Política. In: Ensaios de Sociologia, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 3ª Edição, 1974.

3 comentários em “Palco, Picadeiro, Púlpito, Palanque e Política – Eleições 2010.

  1. Parabenizo-o por dar expressão a todas as vozes e anseios dos mais diversos cidadãos neste nosso País que quer ser democrático a cada passo, muito embora nuvens escuras mais uma vez queiram pairar no céu da nossa frágil democracia. Estamos lutando para que tbém os srs jornalistas consigam trabalhar com liberdade nos próximos anos… }A minha pergunta é: nestas eleições a presidente, o quê ou quais fatores de fato foram determinantes para termos II turno? Alguns dizem que o fator Marina; outros que os escândalos Erenice e vazamentos ilegais de dados de tucanos da Receita Federal em SP; outros ainda que as lacunas do atual governo nos mais diferentes setores (o setor agrícola e o de transporte estão entre os mais descontentes); alguns afirmam que pesou as biografias dos dois candidados; outros, por fim, que foi preponderante o pacote do PNDH 3 que o atual Presidente assinou no dia 21 de dezembro de 2009, uma data, véspera de feriado, data muito propícia para se tentar fazer coisa escondida da Nação… Este Programa do governo inclui no seu indigesto cardápio o cerceamento às liberdades democráticas; a ameaça ao direito de propriedade privada; a descriminalização do aborto; o casamento e união civil de homossexuais e a tranqüila possibilidade de eles adotarem crianças; a revisão da lei de anistia do período do governo autoritário, favorecendo terroristas e perseguindo quem estava no comando na época, quer sejam eles militares ou civis (a ditadura não foi só militar), dentre outros. Intelectuais como os jornalistas Alexandre Garcia, Arnaldo Jabor, Joelmir Beting e o jurista Yves Gandra não pouparam críticas ao PNDH 3, como a mídia propalou. E na manifestação pela democracia em SP vimos D. Paulo Evaristo Arns, Hélio bicudo (co-fundador do PT), esquerdistas, preocupados com a liberdade de imprensa se o PT continuar no rumo que está indo… É difícil para muita gente admitir que o tema do aborto tenha gerado a discussão que provocou o II turno ou pelo menos admitir que há um País de católicos, evangélicos espíritas e homens de boa vontade que estão em coalizão (não ecumenismo) contra a legalização do aborto. É mais fácil acreditar que a paixão verde pela Marina tenha inclinado o fiel da balança do que admitir que esta candidata ganhou milhões de votos dos descontentes que não tinham outra opção entre o radicalismo de esquerda de um Plínio e as posições já conhecidas da candidata petista e do candidato tucano. E quer-se relegar o tema do aborto exclusivamente à esfera do religioso, do moral – o que é inexato, pois o direito à vida inclusive de pessoas do sexo feminino, direito da mulher, é primordial direito humano, mais importante que salvar as tartarugas e as baleias – e daí enclausurar o religioso e o moral na esfera do meramente pessoal, do meramente sentimental, quando não usar os mofados argumentos de que são temas com ranço de Idade Media. Quem afirma que a Igreja Católica na Idade Média espalhou “trevas” não sabe e não quer saber que Ela pioneiramente fez os HOSPITAIS para curar os males do corpo, as belíssimas CATEDRAIS para elevar o espírito do homem ao divino e as UNIVERSIDADES para socorrê-lo do mal da ignorância (saúde, fé e sabedoria). Entre alguns jornalistas há muito equívoco entre o que é política e o que é religião. Dão a impressão de que cuidar da vida da pólis é algo totalmente alheio ou pelo menos parcialmente alheio à questão religiosa que fica confinada aos porões do subjetivismo e do relativismo. Como se estes temas não fossem pontas do iceberg da nossa democracia que está ruindo, ou como se a emoção não tomasse conta de outros temas políticos como as polêmicas privatizações ou os programas sociais! A componente religiosa faz parte de nossos fundamentos democráticos brasileiros – isto também é política de alto nível como discutir câmbio, biosegurança e infra-estrutura. Somos cristãos, somos cristãos. O eleitor quis pôr aqueles temas na agenda política. Penso que os jornalistas presisam dar um passo adiante no sentido de não exigir nas circunstâncias atuais a neutralidade da Igreja. Apartidarismo sim, neutralidade e muro, jamais, sobretudo quando os mandamentos de Deus estão sendo pisoteados. E por falar nisto, onde estão os nossos bispos do Centro-oeste? Que dirão ao Papa na próxima ad limina, que deixaram as ovelhas morrer? Parabéns ao Regional Sul da CNBB! Parabéns aos Bispos e Padres que não negociam, nem se acovardam! O grito dos excluídos não envolve a defesa dos nascituros que são excluídos do direito de nascer? Onde estão os que com absoluta razão se levantam contra os abusos de menores, para denunciarem também o aborto como pecado e crime hediondo contra os menores dos menores? Outra pergunta que faço: por que os Bispos e Padres que colocaram o atual governo no poder agora usam argumentos de que não se deve ser partidário? Não se deve ser partidário com o quê e em que momento? Ora, esta visão reducionista da religião como se religião fosse sentimento, emoção, devoção privada, sentimento vago, e coisa de “muro” é inaceitável. Desde o AT os profetas mais religiosos (Elias, Eliseu, Amós, Jeremias etc) foram os que mais intervieram (apartidários, mas nunca neutros e muristas) no campo sócio-político-econômico-cultural de seu tempo. Na década de 30, o cardeal Leme do RJ cria a LEC (Liga Eleitoral Católica). O Papa Pio XII, na década de 40, fez campanha contra os comunistas na Itália. Na década de 60, os católicos fizeram a Marcha da família com Deus e pela liberdade aqui no Brasil. Gostaria que nossa campanha a favor da Vida e da Liberdade de expressão fosse dita não só dos púlpitos e palanques, jornalista Hélio, mas também das tribunas, das redações e das cátedras. Os políticos estão nos palanques de 4 em 4 anos…nós, padres, estamos no Púlpito todos os dias… e pena que ainda não formamos cidadãos, e tenhamos que ir também aos palanques! Não se use o argumento de que nossa democracia regrediu com estes temas “religiosos e morais”. Nossa democracia nunca foi uma linha reta… Desde 1. 889 quando militares deram o Golpe da República (há quem conteste, mas há quem afirme), os militares intervieram no início, depois para interromper a ditadura de Getúlio Vargas, mais tarde para interromper o governo de Jango e permanecer até 1985. Quatro Vice-presidentes assumiram o comando do país em razão de suicídio, de renúncia, de morte natural (?), de impeachment. O parlamentarismo foi adotado na década de 50 e depois foi trocado novamente pelo Presidencialismo. Hoje, o nosso deputado mais votado do Brasil é um palhaço (nada contra se ele tivesse apresentado propostas sérias), muitos brasileiros em recente pesquisa não souberam dizer os nomes dos candidados deste I turno que escolheram, o STF errou no ficha-limpa, hesitou quanto ao documento a ser apresentado no dia 03 passado. Depois da redemocratização, esta é ainda a sexta vez que elegemos diretamente um Presidente. Nunca a eleição pra Presidente foi questão serena no Brasil. E são muito bem-vindos os temas morais, religiosos num País que nasceu com a Missa e nasceu Terra da Santa Cruz, tornou-se maior de idade em Aparecida, quando D. Pedro ligou o grito do Ipiranga à consagração do País a N.Sra Aparecida. Agora, que nosso Brasil é um jovem em amadurecimento tudo isto combina muito bem… Na República Velha padres, soldados rasos e mulheres não votavam. Hoje os padres já votam e opinam e ajudam a formar opinião. Se isto não convenceu o leitor, deixa eu dizer o que os cidadãos andam me pedindo na porta da casa paroquial: me pedem comida, remédio, dinheiro, trabalho e inclusive drogas. As drogas eu tenho negado evidentemente… Será que eu poderia responder: minha missão no mundo é só rezar e pedir que Deus dê a vocês um bom Presidente? Fiquem com seus problemas para lá? Primeiramente rezo para que o Brasil não caia em mãos erradas e ao mesmo tempo sou militante a favor da VIDA!!! “O Estado é laico”, vivem repetindo os legisladores quando já não precisam mais dos votos, mas os cidadãos brasileiros que constituem este Estado “laico” afirmaram com seu voto no I turno que eles não querem ver a Carta Magna da Bíblia ser rasgada, não querem ver as leis dos homens desrespeitando as leis divinas. Não confundam Estado laico com Estado laxo. Ora, quem faz o Estado são seus cidadãos. Custa entender a lógica de que os cidadãos brasileiros são em sua maioria cristãos e querem um Brasil que honre a Deus?
    Padre Genésio – São Francisco de Goiás

  2. Carlos Eduardo Bernardo disse:

    Prezado, Padre Genésio!
    Agradeço a apreciação acerca do texto. Suas observações são oportunas e dignas de reflexão. Pois, versam sobre questões de sentido, questões fundamentais para a vida humana.O valor inalienável desta, não pode e não deve continuar a mercê daqueles que a reduzem, que a barateiam e a vilipendiam, fortalecendo um kósmos que não reconhece a grandeza, desta mesma vida, que também se constituí n’uma dimensão de transcendência, ainda que manifesta na imanência característica do viver mundano.
    “O homem é um ponto entre duas extremidades”

  3. […] Não proponho ao homem de Deus que se abstenha da dimensão política, quem leu meu artigo, http://projetophronesis.com/2010/10/10/palco-picadeiro-pulpito-palanque-e-politica-%e2%80%93-eleicoe…, a propósito do processo de sucessão eleitoral 2010, sabe, ao menos en passant, a idéia que […]

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