Kierkegaard e Deus

1) Deus

Até aqui a consciência do eu adotou duas gradações: na primeira, o homem é ignorante de seu eu eterno; na segunda, o homem é consciente de um eu, no qual existe, entretanto, eternidade, tendo em seu interior outras gradações estabelecidas. Estas concepções foram todas tratadas pelo ângulo do eu humano, do eu cuja medida é o próprio homem. Mas, perante Deus, este mesmo eu toma outra qualificação a qual Kierkegaard chama de eu teológico, o eu em face de Deus.

A dogmática antiga era vista por Kierkegaard como tendo razão em dizer que o terrível do pecado consiste em se estar perante Deus, sob sua medida, ao invés de que se pense que o pecado contra ou perante Deus não se torna mais ou menos grave. Pois, pecar perante ou contra Deus eleva-se o pecado a um infinito de potência. “O erro estava em considerar Deus como de certo modo exterior a nós, admitir, por assim dizer, que nem sempre se peca contra ele”[1]. O eu tem a ideia de Deus, mas isso não o impede de pecar, porque o que torna a culpa humana num pecado é sua consciência de estar perante Deus.

Desta forma, não é qualquer eu que peca perante Deus, mas, sim, apenas um eu com esta consciência de Deus. Em outras palavras, Kierkegaard esclarece:

O desespero condensa-se à proporção da consciência do eu; mas o eu condensa-se à proporção da sua medida, e, quando esta medida é Deus, infinitamente. O eu aumenta com a ideia de Deus, e reciprocamente a ideia de Deus aumenta com o eu. Só a consciência de estar perante Deus faz do nosso eu concreto, individual, um eu infinito; e é esse eu infinito que então peca perante Deus.[2]

Ou seja, infinito é seu tamanho e tal também é a medida de sua queda. Mas um eu infinito só podemos encontrar no cristianismo, pois é somente nele que se está perante Deus, o verdadeiro e único. Já o eu do pagão Kierkegaard expõe de duas formas: na primeira, o pagão é apenas um ignorante da presença de Deus, residindo sempre, desta forma, no pecado. Na segunda, pode-se negar o pecado do pagão, pois o pecado só o é perante Deus, sendo esta consciência de Deus que falta no paganismo. O pagão mesmo desesperado não peca, pois não se encontra sob a medida Dele.


[1] KIERKEGAARD, Soren.  O desespero humano, Coleção: Os pensadores, Abril Cultural, 1974. P. 384

[2] KIERKEGAARD, Soren.  O desespero humano, Coleção: Os pensadores, Abril Cultural, 1974. P. 384

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