Nietzsche e o Preconceito dos Filósofos

Primeiras questões:

Admitindo que a verdade seja uma jovem mulher, pela história da humanidade se vê como os filósofos são inábeis e desonestos para obter a graça de tal ser feminino – ou das mulheres em geral – por meios dogmáticos. Para isto, Nietzsche dirá: “certamente ela não se deixou conquistar[1].

Mas, contrariamente à relação filósofo-verdade, a relação inversa, verdade-filósofo desde a muito tempo é correspondida. Pois, a verdade seduziu todo os filósofos, brotando neles a vontade de verdade.

Porém, se perguntará Nietzsche: “por que não uma vontade por mentira, incerteza ou a própria ignorância”? Qual é o valor desta vontade? Ou mesmo, qual o valor desta verdade em que gerações foram seduzidas? Mas propor tais problemas parece ser algo inusitado e há grande perigo em afrontá-los parecendo Nietzsche ser o primeiro. E ainda porque “talvez seja o maior de todos os perigos”[2].

Crítica ao Platonismo:

Na filosofia de Nietzsche, podemos identificar que um de seus primeiros passos é resolver os problemas que a história da filosofia deixou para os seus descendentes. Um destes é assumir a impossibilidade de uma coisa ter origem no seu contrário. Por exemplo, a verdade no erro e vice-e-versa.

A origem das coisas só pode estar “no seio do ser, do imperecedouro, do deus escondido, da ‘coisa in ‘se’”[3] e não na crença dos metafísicos na antítese dos valores.  Em outras palavras, não no Platonismo.

Assim, Nietzsche põe em dúvida a existência das antíteses e se elas mesmas não passariam de meras perspectivas. Ainda em “Humano Demasiado Humano” afirmará que na efetividade, não existem opostos. Todos vêem contrários, onde há apenas transições.

Reconstrução:

Desta forma, pensando nestes primeiros e primordiais erros da história da filosofia, a saber, esta vontade inquestionável pela verdade e a antítese dos valores, é que Nietzsche vê que é preciso desaprender tudo e reaprender.

Este “conhecer-se” não pode opor-se ao instinto, dirá o filósofo alemão, então,  quase todo o pensar consciente do filósofo é guiado pelo instinto, e todo instinto visa a conservação da própria vida. Mas até onde ele pode ir para favorecê-la?

A nova forma de pensar que visa esta filosofia é a de não negar a vida e, ainda, o de não renunciar aos juízos falsos, ou seja, “admitir o erro como condição da vida é rebelar-se contra os atuais conceitos de valor, e uma filosofia que a tal se atreve coloca-se por isso além do bem e do mal”[4].

Filósofos e vontade de potência:

Os sábios seres, que se proclamam filósofos, que percorreram toda a história, com facilidade se equivocam e se desviam do caminho, não sequer tocando o problema da veracidade. O que batizam como verdades absolutas são, sob a perspectiva de Nietzsche, preconceitos, idéias, sugestões, não passando de uma mera confissão de seus autores. O conhecimento aqui não passa de um instrumento para o impulso do homem, do filósofo que tende ao domínio e, por conseqüência, a filosofar.

Da mesma forma acontece com a Natureza, se supomos a máxima “viver segundo a Natureza”, ou seja, no fundo, “viver seguindo a própria vida”, não há como agir diferente. Porém, quando se propõe a decifrar os versos e entrelinhas da Natureza, se depara precisamente com o contrário, “autores maravilhosos e enganadores de vós mesmos”[5].

Com tanta vontade de verdade, o filósofo incorpora sua moral à Natureza, desta forma, contemplando falsamente a própria Natureza, ou vida. Faz de sua própria vida uma generalização do estoicismo com tanto esforço até não poder mais vê-la de outra forma. Tiraniza-se tanto a Natureza que, por sua vez, a Natureza assume e tiraniza o estóico. Mas, afinal, que é o estoicismo se não a tirania de si mesmo?

O filósofo ou estóico cria o mundo à sua aparência com seu instinto tirânico, com seu impulso que tende ao domínio, “a mais espiritual ‘vontade de potência’ da ‘criação do mundo’, a vontade da ‘causa primeira’”[6].

Europa: metafísicos x niilistas x perspectivistas:

E este é o problema que toda a Europa enfrenta, a saber, o do “mundo real e do mundo aparente”. Este continente está separado em alguns casos raros, os dos metafísicos, que preferem “um punhado de certeza a uma carrada de belas possibilidades”[7], e os niilistas, que preferem “um certo nada um incerto qualquer coisa[8].

Mas, contrariamente ao fluxo do pensamento europeu, que vangloria o “achado” ou a “invenção” da faculdade dos juízos sintéticos a priori de Kant, há ainda pensadores cheios de vida, que pronunciam contra a aparência a palavra “perspectiva”. Estes adeptos do perspectivismo, antes de se perguntarem, como Kant, se são possíveis tais juízos, se perguntam, “por que devemos acreditar neles”? Pois, de qualquer forma, nada os impede de serem falsos!

Dois grandes exemplos, segundo Nietzsche, foram Copérnico, que contra toda a evidência dos sentidos provou que a Terra não era imóvel, e Boscowitch, que “nos ensinou a abandonar a crença na ‘substância’, na matéria, no ´resíduo terrestre’ e numa partícula do átomo: este foi maior triunfo que na terra se obteve sobre os sentidos”[9]. Assim, declarando guerra também à “necessidade atomista”.

A própria vida é vontade de potência e seus instintos por auto-conservar-se se fundam em expandir o domínio de sua força, ou seja, em colocar mais de si no mundo, na Natureza, ou, ainda, na própria vida. Quanto mais se pensa que chega, cria ou acha a (sua) verdade, que não passa de uma perspectiva para Nietzsche, ele chega ao tão ambicionado patamar de metafísico, filósofo, estóico, porém, ao mesmo tempo, se torna também um enganador, um ilusionista em que o alvo e objeto são si mesmo, pois isto mesmo nega a própria vida.

O Problema do Universal, do Absoluto:

A física já não interpreta a natureza, ela a explica, se fundando na fé dos sentidos, “seguindo instintivamente o cânone da verdade de um sensualismo eternamente popular[10]. E, enquanto possui o caráter “explicativo”, não se questiona, apenas se apreende, se aceita sua universalidade quando é apenas uma perspectiva, podendo ser muito bem ainda, como dizem os pintores, uma perspectiva de rã.

Platão mesmo mostrava uma repugnância pela óbvia evidência dos sentidos, considerando como maior triunfo tornar-se dono dos sentidos. Porém, o físico por criar sua explicação da Natureza através de seus sentidos e universalizando-o como verdade, acaba por desapropriar-se de sua própria interpretação, de seu próprio domínio de poder, e cria uma física que, posteriormente, tiraniza os próprios físicos.

Em suma, o particular cria o universal por seu instintos de domínio e auto-preservação, mas, como efeito colateral, é subjugado pela sua criação, interpretação, vontade de potência.

Ademais, este não é apenas o caso do físico, mas de todos aqueles que foram seduzidos pelos encantos da verdade, por exemplo, os já citados filósofos.

O Problema da causa de si e da causa-e-efeito:

Mas ainda tudo isto decorre do desejo da “liberdade da vontade” do homem, que visa atribuir a si toda a responsabilidade por seus atos, desobrigando toda espécie de outro, desejando levantar-se pelos cabelos e ser “causa de si”, que Nietzsche julga ser

A mais formosa autocontradição que foi até agora pensada é uma espécie de estupro da lógica, é algo contra a natureza; mas o desmedido orgulho do homem chegou a envolver-se profunda e terrivelmente nessa coisa sem sentido.[11]

Se este homem por um lado, sendo causa sui, vem a ser a partir de si mesmo, por outro não podemos dizer que ele venha a ser de qualquer maneira, porque ele sendo causa de tudo que vem a ser sempre foi, uma vez que é sem princípio. Portanto, a causa sui implica dizer que o pretenso homem “vem a ser a partir de si mesmo” e também que “não vem a ser uma vez que sempre é”.

Mas, ainda, ao contrário deste homem causa de si, ainda há aquele que pensa não ter uma vontade livre, que não passa de um abuso de causa e efeito. Nietzsche afirma que não há “necessidades” ou “determinismos psicológicos” que validem o efeito de uma causa ou a causa de um efeito, para ele, “ali não manda nenhuma lei. Nós, nós somente, inventamos as causas, as sucessões, a relatividade, a necessidade, o número, a lei a liberdade, o motivo, o fim; e se misturamos às coisas reais este mundo de signos, como ‘em si’, continuamos fazendo mitologia, como sempre fizemos”[12]. Desta maneira, estas ficções designam apenas a compreensão, mas não “esclarecem”. Não será a hora do filósofo elevar-se sobre a gramática e declarar-se inimiga da fé dispensada aos governantes?[13]

Conclusão sobre a filosofia:

Assim, Nietzsche enfatiza sua interpretação sobre a filosofia, que suas idéias não devam ser arbitrárias ou causas de si mesmas, mas gerem-se em afinidade entre si e encham certo esquema fundamental das filosofias possíveis, das perspectivas. Pois, todo aquele que propor uma verdade, que criá-la, vê em erro a “necessidade” e o “calculável”, onde não pode haver ou ser regido por leis, mas por mesmo carecer em absoluto de lei, e toda força em todo o momento, alcança suas últimas conseqüências.[14]


[1] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 7

[2] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 12

[3] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 13

[4] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 15

[5] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 18

[6] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 18

[7] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 19

[8] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 19

[9] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 22

[10] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 24

[11] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 30

[12] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 31

[13] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 47

[14] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. Editora Vozes. São Paulo. 2009. P. 32

Um comentário em “Nietzsche e o Preconceito dos Filósofos

  1. Leonardo Andrade disse:

    Muito muito bom!

    Obrigadão!

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