Heidegger – A descoisificação da coisa em tempos de guerra ou terror.


Introdução.

Neste trabalho, será problematizado o texto “A coisa” de Martin Heidegger e visado a temática do terror que pouco é dissertado em seu referido texto, mas que tem sua sombra por todas as suas entrelinhas. Porém, para isso é preciso deixar claro outras questões de mesma importância para que todo o raciocínio faça o devido sentido. Assim, se conceituará o que é proximidade, a coisa, o vazio, o coisificar e o descoisifcar da coisa e, por fim, o terror. Aqui será feito uma análise do texto e dos pensamentos impressos nele, tomando, assim, o autor a liberdade de reorganizar a ordem do texto “A coisa” para melhor expressar sua intenção e foco. Deste modo, se poderá enxergar o que está mais envolvido neste problema da coisa.

A proximidade e suas conseqüências.

Heidegger, para chegar ao conceito de coisa, trata de dissertar sobre a distância em sua – e em nossa – época, isto é, “todo o distanciamento e todo o afastamento no espaço estão se encolhendo”[1], pois o homem está superando as maiores longitudes que antes se levavam dias, levando “hoje” segundos ou algumas horas, através do rádio, de um avião, carro etc. Mas esta diminuição de distância ainda não nos traz proximidade, ou seja, tudo continua em seu mesmo lugar, todavia o modo como chegamos à ela ou como ela chega a nós que diminui ou, ainda, aumenta sua distância. Em outras palavras, “pequeno distanciamento ainda não é proximidade, como um grande afastamento ainda não é distância”[2].

Daqui a diante, nós podemos nos perguntar com Heidegger o que é esta proximidade que, mesmo quando a maior distância se torna mais curta, não se dá. O que é esta proximidade que quando, em sua falta, até a distância se ausenta? O que se dá quando por esta supressão de distâncias temos coisas igualmente próximas e distantes?

Para isto, Heidegger só tem uma resposta: “tudo está sendo recolhido à monotonia e uniformidade do que não tem distância”[3]. Tal recolhimento angustiante foi em sua época causada pela demonstração das duas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, causando o “terror” de que Heidegger se refere em sua filosofia sobre o conceito de coisa[4]. Mais claramente dito, as bombas atômicas – sem contar as de hidrogênio – mostraram seu poder de destruição em massa que, somando-se a esta supressão das distâncias, tornou tal perigo muito próximo, ocasionando a chamada Guerra Fria, porém este terror ainda não está apenas em um medo de se acontecer, consigo, ou em seu próprio país, devido à proximidade, pois, afinal, o que é pormenorizadamente este fenômeno que foram as explosões das bombas atômicas? Este “terror é o poder que joga para fora de sua essência, sempre vigente, tudo o que é e está sendo (…)Ele se mostra e se esconde na maneira como, hoje, tudo está em voga e se põe em vigor, a saber, no fato de, apesar da superação de todo distanciamento e de qualquer afastamento, a proximidade dos seres estar ausente”[5].

Mas voltemos rapidamente à questão da proximidade para se desenvolver melhor posteriormente este fenômeno que Heidegger chama de terror. Desta maneira, temos a proximidade como sendo algo que não se pode encontrar, porém, no próximo, está o que costumamos chamar de coisa. Entretanto, que é esta coisa?

A Coisa.

Seguindo o exemplo da jarra como coisa de Heidegger, prosseguiremos aqui, tentando responder a questão anterior. À primeira impressão é que a jarra é parede e fundo, um recipiente. Esta jarra, a coisa, subsiste em si e por si mesma, não sendo objeto “que subsiste por opor-se e contrapor-se a um sujeito[6], a não ser como memória ou representação, porém o ser da coisa não está em se fazer dela objeto. Pois, a jarra continua receptáculo, quer representemos ou não.

Mas o que quer dizer uma subsistência em si e por si? “A jarra, na verdade, só subsiste como receptáculo à medida que foi conduzida a ser e estar em si mesma. Sem dúvida, é o que aconteceu e acontece numa con-dução especial, a saber, pela pro-dução” [7]. Ou seja, é a produção que faz a jarra subsistir em si e por si. Porém, a jarra ainda se torna um objeto de uma pro-dução que pro-duz e a-duz, pondo de frente a nós[8]. Porém, pensando ainda a subsistência da coisa pela sua objetividade, nenhum caminho leva ao próprio ser coisa da coisa, a coisalidade.

Nesta altura, não resta outra pergunta que: “que é o coisal da e na coisa? Que é a coisa em si mesma?[9]

A jarra foi pro-duzida pelo oleiro por ser e para ser este receptáculo, que dissemos antes, sendo uma jarra. Desta mesma maneira se comportam as coisas, ou seja, são pro-duzidas por serem e para serem o próprio ser da coisa, sua coisalidade. “É a pro-dução que deixa a jarra introduzir-se no modo próprio de seu ser”[10]. Porém, a introdução da jarra nunca se dará no momento de seu processo de pro-dução, pois ainda se apresenta ao pro-dutor, que apenas procura o perfil e a fisionomia de seu ser, neste processo de coisa ainda não há uma coisificação. Mas quando enchemos a jarra de água, percebemos o receptáculo, ou seja, percebemos o ser da coisa da jarra, sua coisalidade.

Mas cavando-se um pouco mais fundo, nos perguntamos: “se colocarmos água na jarra, realmente ela, a água, vai para as paredes e o fundo?” Um ecoante “não” é a resposta. Pois, o que a água apenas preenche é a jarra vazia.

O Vazio.

O vazio é o recipiente do receptáculo. O vazio, o nada na jarra, é que faz a jarra ser um receptáculo, que recebe”[11]. Não são a parede e o fundo que formam o receptáculo, pois, se fossem, formaria-se apenas argila e não se visaria um “receber”, que está no ser da coisa do receptáculo. “Pois é para o vazio, no vazio e do vazio que ele conforma, na argila, a conformação de receptáculo (…) É no vazio da jarra que determina todo tocar e apreender da pro-dução. O ser coisa do receptáculo não reside de forma alguma, na matéria, de que consta, mas no vazio, que recebe”[12] e é desta maneira que a jarra subsiste.

O vazio da jarra recebe e retém o recebido, desta maneira, esta recepção dupla repousa na vaza. E este vazar da jarra é sua doação, o seu doar. A jarra pode fazer dois tipos de doações, as doações em matéria de água ou outro líquido para se beber e matar a sede, para os homens, que chamaremos aqui por “mortais”; e doações para uma consagração, que, diferente da doação para os mortais, vaza a sagração, é a oferenda aos imortais.

Na água que vaza a jarra, ou melhor, em sua fonte, “perdura todo o conjunto das pedras e todo o adormecimento obscuro da terra, que recebe chuva e orvalho do céu. Na água da fonte, perduram as núpcias de céu e terra.”[13] Desta forma, temos na doação da jarra vivendo em conjunto, terra e céu, mortais e imortais. Os quatro se unem em conjunção e se conjugam numa única quadratura de reunião. Assim, “na reunião desta recíproca fiança que eles se des-velam e des-cobrem que são o que são (…) a coisa coisifica, no sentido de, como coisa, reunir e conjugar, numa unidade, as diferenças (…) Na apropriação da quadratura, em sua propriedade, a coisificação ajunta-lhe a passagem por cada momento de duração: nesta e naquela coisa”[14].

Então, temos o ser da coisa, o coisificar, o receber, reter e vazar da jarra não como um simples objeto da pro-dução ou da representação como vimos antes, mas, sim, se, e apenas se, “a jarra é uma coisa à medida e enquanto coisifica, no sentido de reunir e recolher, numa unidade, as diferenças. É a partir desta coisificação da coisa que se apropria e se determina, então, a vigência do vigente deste tipo, a jarra”[15].

A descoisificação da coisa como coisa.

Porém, hoje reina a falta de proximidade e sem esta proximidade as coisas não podem coisificar. Até na própria questão de distância e proximidade a ciência, um dos primeiros e maiores empecilhos para a coisalidade, diria que seria um mero encurtar de metros ou centímetros, uma mera distância entre pontos no espaço, desta maneira, não trata a realidade como deveria ser feita, pois de nada nos aproximamos. De uma mesma forma, a física explica o vazio da jarra muito bem: o que há mesmo dentro da jarra é ar e não o vazio. O que há fisicamente é uma troca da água pelo ar dentro da jarra, sendo esta a representação do real em seu modo de representação particular, que Heidegger chama de constrangedor, porque, através da sua representação, “faz da coisa-jarra algo negativo, enquanto não deixar as coisas mesmas serem a medida e o parâmetro[16], anulando a coisa como coisa muito antes das bombas atômicas explodirem. Desta maneira, Heidegger separa o que é o “vazio” da física e o que é o vazio da jarra para “receber” que se deve entender e, assim também, a distância e a proximidade. Aqui é separado os âmbitos da linguagem que se devem ser usados.

Então, sabemos que esta ciência que se proclama dizer das coisas reais, apenas se distancia das coisas mais próximas no momento em que não as deixa coisificar, mostrar sua coisalidade, mas se relaciona com elas como objetos, as afastando. Assim, “todo encurtamento e toda supressão dos afastamentos não nos trazem nenhuma proximidade”[17]. Mas o que traz então?

A jogada final da Segunda Guerra Mundial “é apenas, a confirmação mais grosseira dentre todas as outras, de que a anulação da coisa, de há muito, já aconteceu. É a afirmação de que a coisa, como coisa, virou nada”. Mas por que, ainda, tal explosão confirma e não afirma? Ela confirma, pois, apesar da pesquisa científica do real, que ilude-nos que as coisas pudessem continuar sendo coisas, como se um dia o tivessem sido, já se teriam reivindicado e preocupado o pensamento a muito sobre a coisalidade. Porém, contrariamente às pesquisas científicas do real, o que se confirma é que o ser da coisa, sua coisalidade continua vedada, proibida e anulada. Assim, a coisa nunca pode aparecer como coisa.

O Terror

A coisa só pode mostrar seu ser se coisifica, mostra sua coisalidade. E nesta coisificação, perduram terra e céu, mortais e imortais. Deste modo, “a coisa leva os quatro, na distância própria de cada um, à proximidade recíproca de sua união. Este levar consiste em aproximar”[18]. Mas mostrou-se em 1945 como este aproximar de fato pode estar distante.

Neste trabalho foi mostrado como é pro-duzido uma jarra, necessitando ela de parede, fundo e, principalmente, seu vazio para vazar, fazer a sua doação. Assim também é uma casa, que não passa de teto, fundo e paredes com um vazio dentro para receber. Pois, então, some-se este conhecimento sobre a coisa e a jarra – a casa também – com a supressão das distâncias no mundo inteiro. Mas isto e o fato de se ter duas potências, a saber, Estados Unidos e U.R.S.S., pelo menos na época em que Heidegger tratou do assunto, com armas nucleares a sua disposição, mas “agora” com a demonstração pública de Hiroshima e Nagasaki. O resultado destes fatores não poderia ser outro, o terror.

O simples fato de se existir tal ameaça de ambos os lados e a praticamente dedução do que se poderia causar uma bomba nas “curtas distâncias” ou proximidades é de se causar horror ou, ainda, nas palavras de Heidegger, uma “angústia desesperada”[19], que fica esperando. Mas não é para menos, pois as bombas foram a confirmação de como a coisa está anulada. Afinal de contas, através do trabalho aqui desenvolvido, sabemos o que é preciso para se coisificar, mas, em um rápido exemplo se pode ficar mais claro a descoisifição da coisa, como foi citado acima, a jarra necessita de fundo e paredes em volta de seu vazio, isto são o que visa sua pro-dução para poder receber, reter e doar seja água para beber ou fazer uma consagração, uma oferenda ao sagrado, em outras palavras, para a jarra se remeter aos mortais e aos imortais, terra e céu. Mas com a simples destruição da parede ou do fundo a coisa já não pode coisificar, pois já não está em como o oleiro, com a jarra, e o pedreiro, com a casa, visaram pro-duzi-las. Assim, sem isto as coisas que tínhamos próximas voltaram ao estágio de matéria-prima, sendo necessária novamente sua produção para poderem ser coisas. E desta forma se comporta a bomba atômica ou o ato de destruição em grande escala, des-pro-duz as coisas, descoisificando ainda mais que as ciências que se dizem reportar ao real. A morada da casa, o vazar da jarra para a sede do homem, o consagrar da jarra e da casa podem não mais se coisificar pela ameaça das bombas e da supressão das distâncias, desta maneira a “desesperada angústia”, que foi supracitada, funcionou na Guerra Fria como o terror.

Assim, com certeza o problema da ciência não lidar com a coisa como coisa é um grande empecilho para o ser da coisa se mostrar, mas este mais novo terror que se apresenta é a confirmação de como as coisas não só se descoisificam como se tornam nada, mostrando como nunca as coisas puderam se mostrar como coisas e como – novamente citando – o “terror é o poder que joga para fora de sua essência, sempre vigente, tudo o que é e está sendo (…)Ele se mostra e se esconde na maneira como, hoje, tudo está em voga e se põe em vigor, a saber, no fato de, apesar da superação de todo distanciamento e de qualquer afastamento, a proximidade dos seres estar ausente”[20].


[1] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 143

[2] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 143

[3] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 144

[4] Nos dias de hoje, poderíamos ter o “terrorismo” como substituto, por exemplo, nos casos de homem-bomba, carros-bomba, os seqüestros de aviões do 11 de setembro, etc

[5] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 144

[6] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 145

[7] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 145

[8] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 145

[9] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 146

[10] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 146

[11] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 147

[12] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 147

[13] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 150

[14] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 151

[15] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 155

[16] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 148

[17] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 155

[18] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 155

[19] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 144

[20] HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. São Paulo. Editora Vozes. 2002. p. 144

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