Nishida Kitaro – O fundador da filosofia no Japão

O Japão de Nishida

Nishida Kitaro (1870-1945) nasceu no começo da Era Meiji (1868-1912), quando o Japão abriu suas portas para o Ocidente depois de dois séculos e meio de isolamento. Neste momento, o Japão estava em uma situação difícil causada pelos outros países, pois os Estados Unidos estavam se expandindo a oeste de seu continente, a França e a Inglaterra estavam se expandindo na Ásia e na África e seus mais próximos vizinhos eram a China e a Rússia, países de proporções continentais, assim só havia dois destinos para o povo japonês: se tornar um peão do imperialismo europeu e americano ou se tornar um império asiático à sua forma, através de uma enorme reconstrução social, política, econômica e científica. E, como sabemos, a segunda opção foi a tomada.

Já no incipiente século XX, não havia mais volta desta decisão. Pois, os japoneses haviam derrotado a China (18941895) e a Rússia (1904-1905) em duas guerras e feito um grande pacto com a Inglaterra. Pelo crescimento da sociedade industrial do Japão, foi necessário cada vez mais expandir sua influência e poder pela Ásia e Pacífico por matérias-primas. Desta forma, reforçou seu poder imperialista e se envolvendo em várias seqüências de eventos iria desencadear na Segunda Guerra Mundial.

Os primeiros intelectuais da era Meiji esperavam ser possível desenvolver o país, ou seja, modernizá-lo sem mudar seu sistema de valor cultura, como Sakuma Shosan (1811-1864) expressava em sua famosa frase: “técnicas ocidentais, moral oriental”. Mas, quanto mais se aprofundava os estudos sobre o pensamento ocidental, mais os estudiosos ficavam céticos quanto a questão de a moral e da religião não acompanharem as mudanças sócio-político-econômicas.

O problema do Japão e a solução de Nishida

Neste momento da história do Japão, não se há resposta para a questão de o que se fazer com a moral e a religião japonesa, uns pensavam ainda como Sakuma Shosan, outros ainda diziam para o Japão se cristianizar, pois, no Ocidente, cristianismo e ciência se desenvolveram tão intimamente que já estariam interligados. Fato é que o Japão não poderia mais ter uma face da ciência e tecnologia e outra para os valores tradicionais japoneses, pois sofreria de uma esquizofrenia cultural, a “Terra do Sol Nascente” precisava ter um rosto apenas, mas não uma mera escolha de lados e exclusão do outro e, sim, um rosto que abraçasse a ambos os lados, a ambas as idéias. E este rosto foi mostrado primeiramente em “A Study of Good” (1911) por Nishida Kitaro.

Em seu livro, se viu deparado não com um problema cultural, mas um problema fundamental para a filosofia, o Japão não teria que se tornar cristão para se desenvolver melhor, isto mesmo seria um erro ocidental em relação ao fato e o valor, respectivamente, a como vê seu empirismo e sua moralidade (religião e arte).

Nishida viu que esta separação entre fato e valor, empirismo e moralidade era já uma grande divergência entre o pensamento japonês e o ocidental. A

ssim, bastava, como solução, juntá-las de volta, mas, para isto, Nishida usou a noção de “experiência pura”, que achou nos escritos de William James, para “articular a fluência da experiência comum através da unidade que está sob ambas as empresas da experiência e dos valores[1]. No fundo, ciência e moralidade compartilham o mesmo caminho (“a vontade”) para a unidade, o que Nishida chama de “intuição intelectual”.

Desta maneira, o dilema fato/valor também satisfez às idéias do Zen budismo, pois traz a unidade original da experiência de volta. Ou seja, “A Study of Good” conseguiu satisfazer a muitos unindo tais extremos, acabou por se tornar popular entre os intelectuais japoneses, pois fez da filosofia algo japonês e, assim, nasceu a Escola de Kyoto.


[1]KASULIS, Thomas in: CARTER, Robert E. The nothingness beyond god. Paragon house. 1997. P. 13

4 comentários em “Nishida Kitaro – O fundador da filosofia no Japão

  1. Venusta Mie Fukushima Trindade disse:

    Olá, gostei muito de encontrar este site.
    Gostaria de saber mais sobre filosofia japonesa, não sei inglês, você poderia indicar algum livro sobre filosofia japonesa escrito em português?
    Obrigada!

    • Paulo Abe disse:

      Olá, Venusta. Obrigado pelo comentário.
      Passo aqui uma lista de livros tanto em inglês como em português (apesar de escasso).
      É muito fácil achá-los na Fundação Japão, na avenida paulista em São Paulo ou no instituto Winicott.

      CARTER, Robert E. The nothingness beyond god. Paragon house. Canada. 1997.
      GINO K. Piovesana, S. J. Recent Japanese Philosophical Thought. 1862-1962. A Survey. Enderle Bookstore. Japan. 1968
      HENRIQUES, Antônio. Iniciação ao Orientalismo. Editora Nova Era. Rio de Janeiro. 2000
      Jacinto Zavala, Agustín Filosofía de la transformación del mundo : Introducción a la filosofia tardía de Nishida Kitaro
      LOPARIC, Zeljko. A Escola de Kyoto e o Perigo da Técnica. Editora DWW. São Paulo. 2009.
      MOORE, Charles A. The Japanese Mind. Essentials of Japanese Philosophy and Culture. Tut Books. Tokyo. 1967
      NISHIDA, Kitaro. Intelligibility and the philosophy of Nothingness. Three Philosophical Essays. Maruzen Co. LTD. Tokyo. 1958.
      NISHIDA, Kitaro. An Inquiry into the Good.
      Last Writings : Nothingness and the religious worldview / paperback
      Fundamental problems of philosophy : World of action and the dialectical world, The
      OSHIMA, Hitoshi. O pensamento japonês. Ensaios: Filosofia. Editora Escuta. São Paulo. 1992.
      Natureza Humana. Revista de Filosofia e Psicanálise. Volume 10. São Paulo. 2008.

  2. Sandro Teixeira disse:

    Olá Paulo Abe, Raphael Alario, Carlos Bernardo, Diego Azizi e equipe do Projeto Phronesis. Maravilhosa iniciativa. Parabéns. Estou encantado com o trabalho de vocês. Cheguei a este sítio à procura de raízes e encontrei um tesouro! Cheguei aqui à procura de material sobre o zen e o tantra, especialmente em sua correlação com o cristianismo, como vemos no trabalho do Dr. T.D. Suzuki. Como cristão, creio na Bìblia como revelação especial de Deus à humanidade, mas também creio que Deus revelou-se de modo peculiar em outras culturas e que a “experiência” religiosa, a vivência prática do amor e das disciplinas espirituais, se encontram “misturadas” por terminologias que, por fim, somam um quadro maior. Se os senhores puderem me indicar literatura pertinente (de preferência para download, rsrsrsrs…), ser-lhes-ei, desde já, eternamente agradecido. Mais uma vez, parabéns e muito obrigado.
    Sandro

    • Diego Azizi disse:

      Olá Sandro. Muito obrigado pelo comentário elogioso. Fazemos o possível para que exista uma experiência intelectual satisfatória aqui no site, e acredito que estamos conseguindo de alguma forma realizar nosso objetivo.
      Bom, nas sugestões de leitura, recomendo o que conheço sobre o tema que lhe interessa. Conheço pouco, mas acho imprescindível a leitura de René Guenon.
      Segue o link com a obra completa do grande estudioso das religiões. Espero que seja de alguma valia.
      Um abraço,
      Diego Azizi

      https://sites.google.com/site/textostradicionales/ren-gunon-abdel-wahid-yahia

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