Sobre a literatura de auto-ajuda e outras pseudo-ciências…

Por Diego Azizi

Introdução

Há, hoje em dia, uma tendência (quase) absolutamente difundida em se apropriar de falsos conhecimentos e vendê-los como se fossem sabedorias desenvolvidas por séculos e séculos de reflexão e raciocínio. Uma espantosa tendência que, ainda por cima, tenta auto-intitular-se como sabedoria, como ciência, como filosofia.

Quando usamos, no mundo acadêmico sério, a palavra opinião, não significa um mero “eu acho que…”, pois, até mesmo as opiniões devem ser bem argumentadas, demonstradas e fundamentadas. Portanto, darei sim minha opinião, porém, demonstrarei apoditicamente, ou seja, dando as razões pelas quais escrevo o que escrevo.

Devo confessar que nutro um desprezo absoluto quando se fala em literatura de auto-ajuda (e em relação a tudo o que é vendido com uma aparência daquilo que essencialmente não é, como quando a astrologia, as religiões e pseudo-religiões em geral, a ufologia, as teorias da conspiração, tentam se passar por ciência, filosofia, crença racional justificada).

Estudando filosofia, da maneira como ela deve ser estudada (não que exista um único método dogmático para estudá-la, mas no sentido de que ela, como uma atividade da Razão, deve ser estudada Racionalmente), acabamos adquirindo uma certa capacidade de analisar certos discursos, suas proposições, seus conceitos, suas pretensas verdades e suas conclusões. Para alguém cuja atividade intelectual está, pelo menos em certa medida desenvolvida, não é difícil enxergar que as obras de auto-ajuda não possuem nem proposições, nem conceitos, nem verdades e muito menos conclusões. Se existirem falácias, já é muito (e, na verdade, é só o que existe).

Mas porque esse tipo de literatura vende tanto? Porque atrai tantos consumidores? A resposta pode parecer simples, porém, não é.

Frequentemente esses livros são considerados (é claro, por pessoas que desconhecem totalmente o objeto de que falam) filosóficos e seu autores são intitulados verdadeiros sábios, cientistas, filósofos. Por exemplo, o livro “O segredo” pretende revelar um “segredo” milenar que supostamente grandes filósofos (a autora do livro cita Platão, Aristóteles, Galileu, Newton) guardavam, e por isso se tornaram as figuras que reconhecemos hoje. Uma grande bobagem, diga-se de passagem, pois na bibliografia que consta no final desse projeto de livro, não há um estudo sério, não há nenhum autor sério que foi analisado. Não há nada, apenas alguns sites pretensiosamente místicos e bobinhos. Ou seja, a fundamentação teórica para tais afirmações inexiste. Além do mais, podemos resumir o livro inteiro em uma única frase: se pensarmos positivo, coisas positivas acontecerão. Profundo, não? Mas esse livro é apenas um exemplo, dos milhões que existem por aí, e que infelizmente vêm “formando” as opiniões das massas de nossas grandes cidades.

Filosofia e auto-ajuda

A popularização da filosofia nesses últimos anos contribuiu indubitavelmente para que o dispensável mercado da auto-ajuda ganhasse a força absurda que vemos hoje. Particularmente, não culpo inteiramente as pessoas por consumirem esse tipo de porcaria, porém, elas possuem a faculdade da razão, e para emanciparem-se intelectualmente (utilizando um conceito do velho e genial Kant) é preciso correr atrás. Claro que fatores políticos e sociais interferem em suas escolhas e em seus conhecimentos, mas para o exercício do pensamento crítico, só é exigido pensar. Comprar e consumir irrefletidamente é, em última instância, burrice.

Com a filosofia em alta (pelo menos no nome) as pessoas possuem uma sede de conhecer esse nicho singular, porém, não sabem como ir atrás dela, quem ler, com quem falar…….enfim, a vontade existe, porém, o apoio não. Os publicitários de plantão, os escritores charlatães e as editoras inescrupulosas enxergam essa vontade de saber e a exploram ao máximo. Esses livros são tão fáceis de ler, de se entender, que quando o “comum dos mortais” se depara com uma “Crítica da Razão Pura” e com um “Quem mexeu no meu queijo”, é claro que o segundo leva a melhor. Há um rigor exigido pela filosofia, que as pessoas desconhecem, que as impedem de continuar seriamente a busca por compreendê-la. Como escreveu meu professor Mario Ariel Gonzalez Porta, um verdadeiro mestre para mim, e uma das pessoas que eu mais admiro intelectualmente e pessoalmente, “ a filosofia é vista como um espaço onde reina o capricho, podendo cada um dizer o que quiser. Seu caráter não-empírico é entendido como pura arbitrariedade, quando não como confusão crônica. Porém, essa impressão é falsa: a filosofia não é um caos de pontos de vista incomensuráveis, nem consiste simplesmente em possuir certezas. Trata-se de ter opiniões sobre certos temas bem definidos e sustentá-las em algo diferente de uma convicção pessoal; mais ainda, o núcleo essencial da filosofia não é constituído de crenças tematicamente definidas e racionalmente fundadas, senão de problemas e soluções”.1

O método e o rigor assustam quem não está acostumado a utilizá-los, por um lado, por covardia e falta de decisão, e por outro lado, por falta de preparo mesmo. Falta de preparo por parte de uma educação básica desprezível, falta de apoio por parte do Estado e dos grandes meios de comunicação, e inúmeros fatores sociais que contribuem para a defasagem intelectual das pessoas. A literatura de auto-ajuda aparece para dizer o que as pessoas já sabem (por isso a fácil assimilação) e também para inculcar a ideologia dominante do status quo nas cabeças pouco críticas. Já que a filosofia de verdade busca maturidade intelectual de seus humildes estudantes, a indústria cultural oferece para a grande massa uma filosofia de mentirinha para ser consumida e propagada.

Outro fator, além da popularização da filosofia, é o aumento das dificuldades encontradas na vida cotidiana das pessoas nas grandes cidades. O estresse, devido às horas intermináveis de trabalho, a falta de satisfação consigo mesmo e com o ofício que exerce, o fracasso nas relações amorosas, tudo isso são fatores que influenciam consideravelmente o consumo por esse tipo de literatura. No entanto, quando os livros são abertos, o que as pessoas encontram para sanar suas dores e vazios existenciais? Encontram frases do tipo: “Você é insubstituível”; “Você é do tamanho de seus sonhos”; “Tenha como exemplo pessoas ricas”; “Mantenha o foco”; “Seja otimista”; “Nunca desista”; e por aí vai. Ora, penso que buscar um conhecimento científico, filosófico e literário nos faz (quando levado a sério) um bem tão grande, encontramos coisas incríveis à respeito da condição humana e de nossa capacidade de evolução, sobre o mundo e o universo magnífico que habitamos, sobre os grandes edifícios do conhecimento que desde a antiguidade construímos e nos orgulhamos, tanto em Platão quanto em Dostoiévski, tanto em Nietzsche quanto em Descartes, tanto em Newton quanto em Einstein. Porém essa opção por buscar conhecimentos sérios exige decisão e coragem, como disse o velho Kant, nossa menoridade intelectual é “por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude (ouse saber)! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento”!2

Percebemos que há um certo interesse econômico por trás desse tipo de literatura, tanto é que, é no mundo empresarial que essa pseudo-literatura é largamente difundida e apreciada. Ora, se vocês pensarem comigo, o que os livros de auto-ajuda e as palestras motivacionais (que derivaram destes últimos) recomendam? Eu lhes digo: aceite as ideologias dominantes, não reclame e sim produza, não estude apenas faça (essa é uma crítica que os amantes da auto-ajuda sempre fazem aos teóricos acadêmicos, pois, segundo os grandes eruditos da auto-ajuda, a academia é muito teórica e nada prática, como se não fosse o pensamento que devesse guiar as ações). Existe um sujeito, que muitos chamam de Professor Daniel Godri (coisa que ele não é, pois não possui títulos para tal, e nem dá aulas, o que é pior, apenas faz palestras motivacionais) e que é considerado como um dos maiores pensadores do Brasil. Poxa, até parece que ele é bom, mas como eu disse acima, é só aparência. Se Platão ressuscitasse, com certeza chamaria esse cara de sofista. Bom, em uma de suas “incríveis” palestras, intitulada de “empregado motivado x bola murcha”3, esse senhor nos diz coisas como: “não foque os problemas e sim as soluções”, ou “para cada motivado existem cem bolas murchas” (de onde ele tirou esses números?) e o pior, ele diz que o bola murcha é o que reclama da empresa, do salário e dos benefícios, pois este julga que o salário e os vales são insuficientes. Em outras palavras, ele diz que o cara ainda reclama de barriga cheia, afinal, ele não trabalha de graça. Vamos contra-argumentar isso através de uma forma silogística (se eu cometer um sofisma, podem me avisar): vejamos -Toda solução, é solução de um problema.

-Para haver solução, é necessário antes focar o problema.

-Logo, devemos focar antes os problemas, para chegarmos a uma solução, e não o contrário.

Bom, utilizei uma proposição categórica do tipo A, as premissas são verdadeiras e a conclusão segue-se necessariamente das premissas apresentadas. Facilmente, com uma análise crítica, conseguimos quebrar essas falácias sem ter que fazer a análise formal que acabei de fazer, é só pensar um pouco (apesar que da maneira como apresentei, fica mais divertido). Só para ressaltar, no momento em que esse senhor está falando sobre focar as soluções e não os problemas, notem que ele diz mais ou menos o seguinte: “É claro que quando você conseguiu o emprego, acontecia guerra em algum lugar, mas você focou as soluções e não os problemas”, isso quer dizer que o empregado focou as soluções para os problemas da guerra? Bom, a palestra ainda possui muitas outras pérolas.

Prometo que essa será a última quebra das falácias desse senhor:

-Todos os empregados bola murcha reclamam de condições que não lhes agradam no ambiente de trabalho.

-Os motivados aceitam as coisas tais como elas são.

-Logo, os melhores empregados, os motivados, não reclamam de condições ruins de trabalho e aceitam as coisas tais como são dadas pela empresa.

Ou seja, como dito acima, esses discursos da auto-ajuda, estão indubitavelmente ligados a interesses econômicos, onde o que deve imperar é uma docilidade conformista ao invés de um senso crítico desenvolvido e revoltoso (claro, sempre fundamentado e bem argumentado). Pensem comigo, um empregado não se motivaria mais se a empresa investisse em condições melhores de trabalho, benefícios como plano de saúde, vale-transporte e alimentação, ambientes menos estéreis, férias remuneradas, etc…? Esse senhor Daniel Godri cobra, mais ou menos, dez mil reais por duas horas de palestra, onde não diz absolutamente nada, a não ser uma retórica doce que visa atingir as paixões dos ouvintes. Se ao menos desse aulas sobre o que ele conhece, sobre marketing, que é sua área de atuação, e é um saber que vale a pena ser transmitido para estudantes que se interessem pela área, mas não é isso o que ele faz, e isso até nos faz duvidar de seus reais conhecimentos na área. Ou seja, esse tipo de discurso não faz bem, pelo contrário, é bastante nocivo. As pessoas submetem-se ao invés de emanciparem-se.

Segundo a definição de auto-ajuda, do Conselho Federal de Psicologia: “É um tipo de Literatura, um saber não-sistematizado, sem fundamentação científica e que beira o pensamento mágico” (revista Psique #23, DEZ2007). Estudos sobre os supostos “efeitos” dessas palestras, foram feitos, por exemplo, “Thorndike disse que apenas 10% dos benefícios esperados se concretizam quando trabalhos dessa natureza são realizados. E é isso que se observa mesmo. Após 1 mês ou 2, se não houver estratégias concretas de manutenção da aprendizagem, desses pequenos shows não resta nada mais que lembranças agradáveis”.4Ora, a importância psicológica dessas palestras reside no fato de que há um contexto, como um ritual mágico xamânico, em que os membros da tribo (os ouvintes) entram em uma espécie de transe místico e acompanham com admiração o que o xamã (o palestrante) diz. Acaba-se o ritual, acaba-se a magia, e os ouvintes retornam para um mundo onde essas fórmulas apreendidas não funcionam.

O mais engraçado é que pessoas muito inteligentes (digamos, uma inteligência instrumental) como empresários, administradores, publicitários, caem nessa bobagem pseudo-científica e filosófica. E são pessoas que possuem uma racionalidade instrumental desenvolvida para lidar com questões financeiras, jurídicas, políticas. Isso demonstra que não basta exercer uma razão instrumental, voltada para um saber empírico e mecânico (coisa que exige um grande esforço também), mas é necessária, também, uma razão crítica, fundamentada em um conhecimento substancial, filosófico, científico e artístico. Como disse o grande Sergio Paulo Rouanet: “Hoje, como ontem, só a razão é crítica, porque seu meio vital é a negação de toda facticidade, e o irracionalismo é sempre conformista, pois seu modo de funcionar exclui o trabalho do conceito, sem o qual não há como dissolver o existente”.5 A auto-ajuda é irracional.

Mas e quanto ao fato de que a auto-ajuda realmente ajuda pessoas com a auto-estima baixa? Afirmar isso, pura e simplesmente, seria absurdo. Em outras palavras, onde estão os estudos (sérios) que corroboram essa tese de que que a auto-ajuda realmente ajuda? Encontramos um estudo sério que prova, na verdade, o contrário. Mais uma prova da nocividade da auto-ajuda, agora não apenas a nível intelectual, epistemológico e econômico, mas sim, uma nocividade física e psicológica.

Baixa auto-estima piora com auto-ajuda, indica estudo6

Nessa parte, irei reproduzir a pesquisa na íntegra, para mostrar a vocês o quão grave pode se tornar o consumo desse tipo de escritos.

“Declarações de livros de auto-ajuda, como ‘vou ter sucesso’ ou ‘sou uma pessoa adorável’, podem surtir efeito negativo em pessoas com baixa auto-estima. A constatação vem de um estudo americano publicado em 07/2009 na revista ‘Psychological Science’. Os pesquisadores pediram a participantes com alta e baixa auto-estima que repetissem a frase ‘sou uma pessoa adorável’ e, depois, mediram o humor e o que sentiam sobre si mesmos. Aqueles com baixa auto-estima se sentiram ainda pior após repetir as frases. Em um estudo posterior, os participantes listaram pensamentos negativos e os positivos sobre si. Os psicólogos observaram que os voluntários de baixa auto-estima se sentiam melhor quando podiam ter pensamentos negativos do que quando focavam exclusivamente em ideias positivas. Para os especialistas, pensamentos positivos podem provocar sentimentos contraditórios em pessoas com baixa auto-estima. Ao ter de pensar positivamente, pode-se considerar os pensamentos negativos ainda mais desanimadores”.

Ou seja, aquela frase que impera em absolutamente todos os manuais de auto-ajuda já lançados em nosso planeta, a saber, “pensamentos positivos levam a conquistas positivas”, está cada vez mais sendo cientificamente refutado.

A necessidade do pensamento crítico

Para conseguir desvencilhar-se de pseudo-conhecimentos, e conseguir discernir o que tem substância daquilo que não tem, é necessário estudo. Estudar é fazer um exercício com a razão, é desenvolver um pensamento crítico e rigoroso, como se fosse um exercício físico. Um músculo só ganha força se for utilizado. Quando uma pessoa fica paraplégica, notamos que suas pernas se atrofiam, efeito da inutilização de seus músculos. Com a inteligência é a mesma coisa, se não exercitarmos nosso ceticismo, nosso pensamento crítico e fundamentado, nunca teremos uma inteligencia desenvolvida. Para tal, é necessário estudar, correr atrás de conhecimentos verdadeiros, e rigorosamente, pacientemente, progredir na capacidade de pensar criticamente. Se essa atividade for negligenciada, a inteligencia se atrofia. A burrice e a ignorância são diferentes. Na ignorância, ignora-se algo que não se sabe, na burrice ocorre o oposto, sabe-se e mesmo assim ignora.

O conhecimento nunca se oculta. A ciência, a filosofia, a cultura (alta) em geral é que é eclipsada pelas pessoas. Se há em uma livraria, seções de história, arte, filosofia, física, psicologia, mas as pessoas vão direto na seção auto-ajuda, em vista de um conhecimento mais aprofundado, é a burrice entrando na área. Há livros introdutórios de todas as áreas do saber, por exemplo, há obras de filosofia exclusivamente destinadas para a introdução do leigo em um universo fantástico do conhecimento humano, há inúmeras introduções à filosofia, à história da arte, à matemática, à psicologia, enfim, existe bastante coisa publicada para o leitor de primeira viagem não ter que se deparar logo de início com “As investigações lógicas” de Husserl. Porém, o consumidor desvia dessas áreas nas livrarias, nos sebos, etc. Desviam também de programas de tv que tentam passar algo de substancial, desviam de cursos oferecidos para quem quiser aprender, desviam de palestras, seminários, conversas. Ou seja, escolhem ser menores.

Tudo bem que a existência de um mestre, de uma figura que nos conduza a um caminho que desconhecemos seja de suma importância, porém, como nos disse Aristóteles, “é mister que o agente se encontre em determinada condição ao praticá-los [atos justos]: em primeiro lugar deve ter conhecimento do que faz; em segundo, deve escolher os atos, e escolhe-los por eles mesmos; e em terceiro, sua ação deve proceder de um caráter firme e imutável”.7 Chamamos aqui, a estes atos justos que Aristóteles escreveu, o agir para obter o melhor conhecimento possível e não o pior. Aristóteles considerava de máxima importância o papel de um mestre que nos ensinasse determinados conhecimentos, mas também, acima de tudo, considerava a vontade e a determinação do estudante em buscar o conhecimento de forma plena através do hábito (estudo). Ou seja, sem a determinação de querer buscar conhecimentos substanciais, não há mestre nenhum no mundo que fará um milagre desses com um estudante relapso. O caráter firme e imutável que Aristóteles escreve, e que precede a ação, é o que em grego se chama héxis, traduzindo, seria a disposição permanente de caráter. Essa disposição permanente de caráter é conquistada através do hábito, virtuoso ou vicioso. Em outras palavras, hábitos ruins, héxis ruim e vice-versa. Podemos transportar essa teoria de Aristóteles para o campo que eu estava discutindo anteriormente. Apesar de Aristóteles estar falando da sabedoria prática, estenderei o que ele disse para o campo intelectual também.

Se as pessoas desde sempre tiverem o hábito de “ler” e “estudar” livros de auto-ajuda, que como sabemos, não contém conhecimento nenhum, vão adquirir uma héxis relativa ao que se habituaram a praticar. Chegará uma determinada hora em que a situação se torna irreversível. Lembram que a disposição de caráter é permanente? Se é assim, depois da héxis consolidada, não há mais volta. Ou seja, depois de anos e anos em que alguém cultiva uma sabedoria vazia, quando se depara com algo que exige realmente um esforço intelectual, a aprendizagem se torna impossível. Como eu disse algumas páginas acima, depois de ler muito “Quem mexeu no meu queijo” e livros similares, quando se depara com uma “Crítica da razão pura”, nunca irá conseguir entender o que está escrito ali, e nem o porque. O intelecto se atrofiou, e a possibilidade de exercê-lo de maneira plena, é nula.

Portanto, a necessidade do desenvolvimento do pensamento crítico é absoluta, para não cair nas garras de pseudo-conhecimentos que supostamente nos ensinariam a viver bem e a conquistar tudo aquilo que gostaríamos. Carl Sagan, cientista brilhante e escritor fantástico, escreveu um livro chamado “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”, livro este que tem como premissa básica, nos levar em direção ao ceticismo saudável, em direção ao pensamento crítico que, infelizmente, foi sendo perdido através do desenvolvimento de pseudo-ciências e pseudo-filosofias da moda, ou seja, os demônios de nossa época. Sagan escreve na introdução desse livro que na Universidade de Chicago, onde estudou, participou de um programa de educação geral, pois nessa instituição: “Considerava-se impensável que alguém desejasse ser físico sem conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud – entre muitos outros”.8 Eu afirmo ainda mais que o brilhante Sagan. É necessário que qualquer um que queira conhecer alguma coisa e queira exercer seu pensamento crítico, entre em contato com essa tradição de pensamento humano, não só o filosófico, mas o científico, o literário, o musical, o religioso, para não correr o risco de afirmar falsidades como se fossem as verdades mais evidentes do mundo.

Só assim conseguimos identificar charlatanices e conhecimentos falsos, e buscar conhecimentos realmente importantes para ampliar nosso horizonte de visão. Parafraseando Nietzsche, para conseguimos enxergar novos modelos de vida, novas perspectivas, e nos livrarmos da unilateralidade de “pensamento” que implica a auto-ajuda, é preciso que nos elevemos.

A necessidade de conhecer a si mesmo

Muitos livros de auto-ajuda vendem seu peixe anunciando sabedorias para o auto- conhecimento, para uma realização pessoal interna. Bom, se até agora admitimos que esses livros não possuem conhecimento nenhum sobre fatores externos (por exemplo: como ficar rico, como alcançar seus sonhos, como ser um bom líder, etc…), que existirá neles a respeito de conhecimentos internos, que dizer, a respeito da constituição interna do sujeito? Como as pessoas, através de livros com fórmulas cristalizadas e determinadas, e aplicando-as em um mundo contraditório e nada estático, conseguem conhecer a si mesmas? A não ser que consideremos que todas as pessoas sejam subjetivamente iguais, o que seria absurdo, não podemos admitir uma afirmação dessas.

Mais uma vez, apenas com estudos rigorosos e pacientes é que chegamos a isso. Essa concepção já figurava desde a mais antiga crítica grega a respeito desse conhece-te a ti mesmo. No diálogo “Alcibíades”, de Platão, Sócrates reforça ainda mais que, antes de conhecermos a nós mesmos, devemos cuidar de nós mesmos, ou seja, para tal conhecimento, é necessário determinado cuidado. Ocuparmos de nós mesmos, saber o que é saudável e nocivo, bom e mal, certo e errado são pressupostos de um conhecimento de nós mesmos. Não é a toa que Alcibiades, a promessa grega, tenha sido uma decepção. Apesar dos ensinamentos de seu mestre Sócrates, o jovem não ocupou-se de si mesmo e não exercitou sua alma, acabou saindo da Grécia e até ajudando os inimigos contra a sua própria pátria. O Epimeleïa heautou foi obscurecido pelo Gnôthi seauton9. Essa discussão sobre o cuidado de si e o conhecimento de si aparece de maneira genial no livro de Michel Foucault intitulado “A hermenêutica do Sujeito”, e não é minha intenção ir longe demais nesse ponto.

Claro, os manuais de auto-ajuda nada sabem sobre essa discussão milenare dão saídas bobinhas e banais para uma discussão séria e importante como essa. O conhecimento verdadeiro, nos permite traçar limites em nós mesmos, ou seja, quando possuímos um conhecimento que é fruto de um grande esforço e dedicação, sabemos sobre o que temos capacidade ou não de falar, de ensinar, de questionar, de corrigir, de refutar. Isso porque nos ocupamos de nós mesmos, buscando conhecer o que é relevante, conversar com quem nos acrescenta algo, assistir aulas que realmente falam sobre coisas importantes, etc. Conhecemos a nós mesmos na medida em que conhecemos as coisas das quais fazemos parte, como nosso mundo, nossa sociedade, nossa cultura, nossa razão. Contudo, essa busca é particular e ninguém pode fazer isso pelo outro. É uma busca solitária, porém, gratificante. A ignorância nunca é uma benção, mas a sabedoria sim.

Algo que é de suma importância saber, é que os escritores de auto-ajuda aplicam coisas que eles fizeram, e deram certo para eles, de maneira universal. Não foi porque eles pensaram positivo, acreditaram em seus sonhos e coisas do gênero que eles se deram bem. Uma série de fatores sociais, políticos, econômicos estavam em jogo. Por exemplo, alguém deu alguma oportunidade para que mostrassem seu trabalho, tiveram sorte de ser apresentados a alguem influente, nasceram em uma família estruturada, tiveram boa educação, e mais uma infinidade de eventos estão inter-relacionados. Frases do tipo “Acredite que você pode e seja otimista”, “Procure oportunidades, não obstáculos”,”Seja amigo de pessoas bem sucedidas e se afaste dos perdedores”, “Trabalhe pelos resultados, pelo sucesso, não pelo dinheiro”,”Administre bem suas finanças”,”Admire pessoas ricas, tenha elas como modelos”, não significam absolutamente nada. Se então um mendigo pegar esse livro, que por acaso se chama “Os segredos da mente milionária”, e fizer tudo o que está escrito, ele então se tornará milionário? Convenhamos, é preciso muito mais que isso pra ficar milionário.

O conhecimento de si mesmo é tão difícil quanto estudar filosofia ou psicologia. Não serão livros desse nível que ensinarão algo tão importante para a vida humana. É preciso esforço intelectual para isso, e talvez um Platão, um Kiekegaard, um Nietzsche, um Freud, até ajudem nessa tarefa, mas em última instância, o necessário mesmo é coragem para se servir do próprio entendimento sem a orientação de outrem, como nos disse Kant.

Bom, acho que o que eu gostaria de dizer, ainda disse em parte, mas o resto fica para outro texto, e com certeza há muito mais coisas a se dizer. Um texto desse tipo parece ser demasiado hostil e inflamado, porém, é necessário que se faça um ataque desses contra pensamentos mágicos como os disseminados pela auto-ajuda, e serve também como uma denúncia aos charlatães e como incentivo para quem gostaria de buscar conhecimentos verdadeiros. Sabemos que nem tudo está perdido, e a necessidade de combatermos os Paulos Coelhos, Augustos Curys, Danieis Godris, Içamis Tibas, e Lairs Ribeiros (entre muitos outros) se faz mais do que necessária.

Não desejo ocultar o fato de que só posso encarar com repugnância(…)a inflada presunção de todos esses volumes saturados de sabedoria, como os que agora estão em moda. De fato, estou plenamente convencido de que(…)os métodos aceitos devem aumentar infindavelmente essas loucuras e disparates, e de que mesmo a completa aniquilação de todas essas fantasiosas realidades não chegaria possivelmente a ser tão prejudicial quanto essa ciência fictícia, com sua maldita fertilidade”.10 Aqui o velho Kant falava da metafísica, mas só porque a auto-ajuda ainda não existia em sua época.

1PORTA, Mario Ariel Gonzalez. A filosofia a partir de seus problemas. Loyola: São Paulo, 2002. p. 25.

2 KANT, Immanuel. A paz perpétua e outros opúsculos. Tradução de Artur Morão. Edições 70: Lisboa. p. 11.

3Me sinto na obrigação de lhes mostrar esse vídeo. Notem que cada enunciado contém uma falácia, claro, para aqueles que tenham uma ligeira noção de lógica. http://www.youtube.com/watch?v=Z9h0lRMlgAI

4http://bestsellerdavez.blogspot.com/search?updated-max=2007-08-24T17%3A08%3A00-03%3A00&max-results=20

5ROUANET, Sergio Paulo. As razões do Iluminismo. Companhia das letras: São Paulo, 2008. p.12.

6Reportagem extraída do blog http://bestsellerdavez.blogspot.com

7ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornhein. Abril Cultural: São Paulo, 1973. p. 270, 1105a.

8SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Tradução de Rosaura Eichemberg. Companhia das letras: São paulo, 1996. p. 15.

9Respectivamente, cuida de si mesmo e conhece-te a ti mesmo.

10KANT, Immanuel. Carta a Mendelssoh, a 8 de abril de 1766 in Works, Ed. Cassirer, Vol. IX, 56 sg.

27 comentários em “Sobre a literatura de auto-ajuda e outras pseudo-ciências…

  1. Italo Lins disse:

    Excelente o texto, colega.

    Eu concordo com praticamente tudo que foi proferido durante a leitura. Você foi muito feliz ao relatar uma referência entre a “manutenção do status quo” e as obras de auto-ajuda. Inclusive, eu percebo que as próprias religiões hoje têm um quê de auto-ajuda, já que cumprem com os mesmos objetivos. Talvez seja por esse motivo que elas conseguem atrair mais “fiéis” e fanáticos religiosos do que existiam na Idade Média. O que para mim, é uma grande regressão. Uma crise de identidade, vamos assim dizer.

    Você conseguiu definir primorosamente a auto-ajuda. Ela é realmente isso: mensagem de fácil absorção, “animadora”, satisfatória para quem gosta de teorias fast-food, e ainda serve como suporte existencial. Entretanto, um meio de vida ainda mais absurdo que o mitológico, já que este, apesar da imaginação ser eminente, possui um índice de razão espantoso.

    E é justamente esse imediatismo contemporâneo que está levando o homem a ser estúpido. Um machinarium. Um ente sem valor.

    Concordo com cada vírgula socrática quando ele fala que “Uma vida sem investigação não vale a pena ser vivida”. E não vale mesmo.

    • Diego Azizi disse:

      Muito obrigado pelo seu comentário gentil e ao mesmo tempo inteligentíssimo. É a participação dos leitores (que ainda está bem aquém do que gostaríamos)que nos motiva a escrever mais artigos e melhorar nossa qualidade.

      Cordialmente,
      Diego Azizi

  2. Aline Arcoverde disse:

    Concordo inteiramente com tudo que você expôs aqui.Parabéns,e obrigada por escrever algo tão abrangente sobre um assunto tão pouco pesquisado,e que foi de grande serventia para mim,pois estava realizando uma pesquisa para elaborar uma redação, solicitada pelo cursinho que faço,sobre este tema.

  3. André Luiz Avelino disse:

    “(e em relação a tudo o que é vendido com uma aparência daquilo que essencialmente não é, como a astrologia, o espiritismo, as pseudo-religiões em geral, a ufologia, as teorias da conspiração, etc…)”.

    Caro Diego, que diz o que o espiritismo não é, gostaria que nos esclarecesse o que ele é.

    Dizer de algo que não se conhece é tão falacioso quanto tudo aquilo que você afirma ser falacioso, se é que o são.

    Diga-nos que obras espíritas você “estudou”, se é que ao menos as leu, e indique-nos não somente “opinando o que é falacioso” nelas, mas demostre-nos estas falacias.

    No aguardo.

    E abraços.

    • Diego Azizi disse:

      André, fiquei muito feliz com seu comentário, e aproveito o espaço para dizer-lhe que sua ausência em nossa faculdade foi sentida e espero poder te encontrar pessoalmente para colocarmos o papo em dia.
      Bom, devo te confessar que eu sabia que essa passagem em especial iria causar confusão e polêmica. Que bom que causou, significa que não passou despercebida no texto.
      Para responder-lhe à altura, esse espaço de comentários é bastante restrito, porém, escreverei um texto o mais rápido possível (quer dizer, nem tão rápido assim) em que expresso minhas opiniões a respeito do espiritismo, os autores que utilizei para fundamentar meus argumentos e uma honesta conclusão filosófica a respeito das interpretações espíritas dos fenomenos. Peço-lhe paciência (pois tenho, além do emprego, textos da faculdade para escrever, o que torna meu tempo bem escasso) mas tenha certeza que lhe darei uma resposta sincera, com um distanciamente filosófico, do qual sempre achei imprescindível para análises sérias e rigorosas. Espero não ter te ofendido com a passagem citada, e se te ofendi de alguma maneira, peço desculpas e digo que ofender nunca é a minha intenção ao escrever qualquer texto.
      Um grande abraço meu amigo, e até mais ver.

  4. Zeno disse:

    το γαρ αυτο νοειν εστιν τη και ειναι

    Você cai no academicismo ingênuo, de tipo crítico, que teima em equiparar laranjas com pregos. Não posso ladear C.R.P. com “Quem mexeu no meu queijo” como não posso comparar Beethoven com Roberto Carlos. São mundos diferentes, que atendem propósitos diferentes. E não me venha com essa patrulha acadêmica, esta nova inquisição! As pessoas estão lendo livros, estão pensando seus próprios problemas, estão imaginando, fermentando a mente. Esse tipo de questionamento eu considero absolutamente fácil e idiota. Fácil pois que está na boca de toda comunidade acadêmica, com seus preconceitos e vícios. E idiota pois ignora a realidade existencial dessas leituras, além de equipará-las sem medida. Dizem que Kant decidiu escrever a C.R.P. por causa dos livros de Swedemborg. Agora digo, que sabe Kant de espiritualidade e imaginação mística?! O mesmo vale para esses iluministas fraquinhos, como Rouanet, que se deleita com o entendimento tacanho de Habermas, os “frankfurtes”, Marx, Freud, e outros quejandos. As coisas não são tão fáceis, tão retas, tão lineares, tão óbvias. Assim como o leitor moderno de Platão ignora o seu lado “iniciado”, os aditos em “academeína” costumam manifestar a mesma rejeição estúpida pelas leituras mais fáceis de banca de jornal, aeroportos, etc. Pois eu posso eferecer um bom conselho, vindo de alguém que também já foi viciado em São Tomás e Suárez (estes sim, metafísicos de estirpe!)- deixa de lado essa insuportável arrogância, pois você também não é nenhum Kant. Faça a sua obra, afirme o seu caminho, produza a sua própria vida, – arrisque! afirme o ser, diga o que vem a ser o ente! Todo livro de auto-ajuda é sempre bem vindo. Deixa o povo ler. Deixa o “bobinho” do Godri ganhar seu dinheiro. Vá você ganhar o seu! Torne o seu academicismo interessante para o homem comum, o homem das ruas, e vá pedir o preço que achar justo. Auto-ajuda é ótima, fornece combustão ao ânimo existencial, não é como essas deprimentes carolices existencialistas. É só olhar para o infeliz do Sartre! um homem doente, fumante compulsivo e sem nenhuma saúde que já aos 75 estava acabado. Viva e deixe viver. Pense e libere. Pois que ser e pensar são o mesmo.

    • Diego Azizi disse:

      Primeiramente, obrigado pelo comentário caro Zeno, pensei que esse texto fosse gerar mais polêmica, mas fico feliz em ter te incomodado de alguma forma e acredito que esse incomodo é o objetivo principal de qualquer ideia que pretenda suscitar reflexão.
      Não poderei contra-argumentar todas as suas objeções aqui e agora, porém, direi algumas breves palavras.
      Primeiramente, quanto ao meu academicismo, no próprio texto eu ressaltei (de maneira subjetiva, mas está lá) o que entendo por academia e pensamento academico: Seriedade e rigor teórico. Se a academia hoje faz isso, confesso-te que não acredito, salvo pequenas manifestações que presencio fisicamente, com meus professores que tanto me causam admiração.
      Segundo, não consegui enxergar na sua crítica nenhuma tentativa de refutar os argumentos que lancei em meu texto, que foram psicológicos, economicos, políticos e filosóficos e na verdade, seus argumentos falaciosos “ad hominem” não me esclareceram quais foram os problemas que voce levantou ao ler o meu texto. Li muitos ataques a mim e não ao meu texto.
      Esse blog foi criado com o intuito, em última instância, de pensarmos juntos, e não de enfurecer leitores convictos de suas crenças. Gosto de argumentos fundamentados, e na verdade, só respondo à altura, a eles.
      Se ataco a auto-ajuda é porque vejo algo de pernicioso nela, e indiquei em meu texto quais são seus perigos, questione-os, se quiser, mas faça apelando à sua razão e não às suas paixões. Os teóricos que citei, realmente me causam admiração, e nenhum deles se reduz à caricatura que voce fez deles. Critique o que voce discorda no pensamentos desses filósofos, e não a ideia que voce possui deles. Não sei qual é a sua formação, mas a minha é em filosofia, e fiz e farei o possível, até onde minhas forças suportarem, para ser o mais rigososo e sério, para compreender os pensamentos com a justiça que eles merecem, me aprofundando ao máximo.
      Critico aquilo que se apresenta a mim, como sendo verdade e na verdade não passa de mera aparencia. É isso o que a filosofia faz, é isso que o maior filósofo e o pai da verdadeira filosofia, Sócrates, fazia. Não me comparo de jeito algum com essa grande figura, mas se julgo que a atividade que herdamos dele é de máxima importância para a vida humana, não farei diferente do que ele fazia, honrarei sua morte pela verdade e sua convicção pela vida examinada, aliás, a única que vale a pena ser vivida. Não me importa se Sartre morreu acabado fisicamente. Me importa o que ele pensou dessa vida, e como ele pensou. Isso vale para os demais pensadores. Aliás, Kant escreveu a C.R.P, em última instância, contra a filosofia dogmática, da escola de Wolff. Era contra a metafísica como ciência que sua obra principal se dirigia.
      Frases do tipo “deixa o Godri ganhar dinheiro vá voce ganhar o seu” me entristecem, pois se não é possível fazer, como Foucault disse, uma “ontologia do presente”, um diagnóstico do status quo atual, o que, afinal, estamos fazendo aqui?
      Adorno costumava dizer que quando a filosofia prestava, ela se propunha a diagnosticar o presente. Devo dizer que concordo e enquanto viver, é assim que farei filosofia.
      E enquanto professor e educador, é assim que faço com meus alunos, e devo dizer que fico muito gratificado quando questiono o mundo e a vida na companhia de meu alunos, de homens comuns, que se emancipam a acabam pensando por eles mesmos. Quando os homens comuns, aos quais dirijo meus cursos, se identificam humanamente com a filosofia e a alta cultura e não mais com literaturas “bobinhas”, vejo que meu trabalho foi bem feito.
      É isso, espero objeções sérias e não simples ataques verborrágicos como vi em seu comentário. Como Rouanet disse, e ratifico, “ontem como hoje só a razão é critica”.

      • Zeno disse:

        Caro Said, em primeiro lugar, grato por sua atenção. Respeito suas opiniões e muito especialmente seu magistério, que para mim é atividade sagrada. Dito isso, – seu texto tem um vício de origem, e não seria com refutações que se o atingiria. É uma questão de perspectiva e de postura. Você dispõe a rejeição como o fundamento do ato de questionar. Você não lê os tais livros, e quando os lê desde já mantém a postura fechada, recalcitrante. Eu também agia assim, também via essa literatura mais fácil como desprezível, ridícula, infame. É um assunto menor, pensava, “dada a superficialidade e banalidade do tema”. Isso não é filosofia, não merece o nome filosofia.

        “Devo confessar que nutro um desprezo absoluto quando se fala em literatura de auto-ajuda (e em relação a tudo o que é vendido com uma aparência daquilo que essencialmente não é, como a astrologia, o espiritismo, as pseudo-religiões em geral, a ufologia, as teorias da conspiração, etc…).”

        Como disse, há um erro de origem que é nutrido por um milênio de conflitos. Astrologia e “pseudo-religiões” (o que é isso?!), de um lado, espiritismo correndo por fora, ufologia e “teorias da conspiração” (êpa! cuidado aí) de outro. Eu colocaria também (em te auxiliando nessa empreitada iluminista) superstições pós-modernas como “dna sutil”, “espiritualismo quântico”, “pensamento positivo”, e tudo mais, não é? – Eu compreendo, caro Said, seu desespero, mas não aceito a presunção que se oculta nele. Você também não faz filosofia apenas porque é “crítico”. O criticismo não fundou a filosofia (seria mais justo dizer que a exterminou). Vivo num tempo de culto a Wittgenstein, que época infeliz! Há mil ou dois mil anos a palavra “filosofia” soaria mais próxima ao que hoje desprezas como inescrupulosidades comerciais, – chamava-se “filósofo” ao alquimista. Boehme, o “filósofo teutônico”, assim alcunhado pelo teu grande Hegel, foi, antes de tudo, teósofo e alquimista. Bem, e a “auto-ajuda”? – Não esquenta. Se não te serve, segue adiante. Faz parte do mundo, sempre houve. Não “aumentou” em nossa época. Pessoalmente lamento mais a sociologização da filosofia que a existência dessa literatura sapiencial popular que tratas como lixo. Acho até que a filosofia corre mais perigo ao lado das ciências da linguagem, das sociologias, das políticas, etc., que ao lado dessa literatura-de-livraria-saraiva. É como diz Borges em Os Teólogos, “a heresia que devemos temer é a que se pode confundir com a ortodoxia”. São sociólogos, psicólogos, antropólogos e politólogos, fantasiados de filósofos, que roubam o lugar do discurso ontológico, – são eles que tratam o filósofo como um tipo ingênuo, e não esses a quem tanto desprezas. Eu, ao contrário de você, gosto de ler todos esses livros. Gosto da banca de jornal, do “Fernão Capelo Gaivota”. “O Segredo” é um livro engraçado. Mas, quando leio o Timeu sei onde estou.
        Quanto ao “bobinho do Godri”, o título “empregado motivado x bola murcha” é comunicativo, é “chacrinhista”. Eu poderia fazer um assim “sem o eterno-retorno a coisa não vai”, ou “o negócio é sair da caverna”, ou outro “fazer a revolução é ir na contra-mão”. É chamativo, se destina a um ambiente específico. A frase “focar na solução e não nos problemas” visa a criatividade das saídas. Os problemas já estão colocados, daí a frase ter um sentido bastante contextualizado no âmbito do “como fazer alguma coisa que dê certo urgentemente diante dos problemas imensos que já sabemos muitíssimo bem quais são”. Essas palestras tem o espírito do sermão, da pregação religiosa, – elas não pretendem organizar nenhuma ordem lógica, mas, como poderia dizer, “tocar a alma” dos indivíduos. Por isso parecem tão incongruentes. Em algum momento da palestra o indivíduo “tem uma idéia” e muda sua rota de vida, sua programação existencial. Veja bem, não sei se você fuma, caro Said, mas se fuma eu poderia te encher de argumentos logicamente organizados que nada resolveria. O argumento para você parar com a prática suicida e imbecil de fumar precisaria ser intuitivo. Se eu “tocar sua alma”, subitamente você para de fumar. Mas atingir a intuição de alguém é dificílimo. Alguns mestres do Zen algumas vezes conseguem.
        Quem te disse que Sócrates é o pai da filosofia, Platão?
        É evidente que me importa o que Sartre pessoalmente se tornou, mais ainda se entendermos sua doutrina da responsabilidade. Não posso vê-lo sendo sugado pelo seu fétido e cancerígeno cigarro sujo sem me angustiar. Naquele cigarro vive a lógica de O Ser e o Nada e a atmosfera “existencialista”. Um “existencialista sem o cigarro” é uma contradição de termos como “ferro de madeira”. Toda lógica é máscara de uma vida, toda lógica é posição do estratêgo. Um homem não escreve um livro chamado “Crítica da Razão Dialética” sem uma profunda causa existencial. Ele tem um destino e quer assumi-lo integralmente. É a vontade de Absoluto que o torna fumante enlouquecido. É por isso que o cigarro o fumou absolutamente e acabou por destrui-lo, pondo uma interrogação sobre a obra. É a fedentina do homem ocidental. Está lá no Assim falou Zaratustra, a “alminha” colada no “orelhão”. Uma parte hipertrofiada e outra aniquilada. Um homem que fala exaustivamente por essa profissão “inventada” no Ocidente, a do “Intelectual”, mas cuja postura notória com relação ao prosaico ar que respira é absolutamente desastrosa, só pode ser um anti-sábio. Existe uma dietética filosófica que desde a antiguidade é buscada como sinal de sabedoria autêntica. O teu amado Kant ele mesmo foi alguém zeloso com uma dietética filosófica.
        Há sempre mais.
        Agradeço pela atenção.

  5. André Luiz Avelino disse:

    Fico feliz por ter sido lembrado por ti, assinei o comentário mas não imaginava que eu seria recordado !!! Saudades da boa e velha PUC-SP e é claro que de todos aqueles que conheci por aí. Desculpas pelo meu tom provocar, claro que não me ofendi. E em boa verdade, não há nada que ofenda a mím e a ninguem em seu texto, e o que faltou (as evidências de falácias), espero vê-las, como dito por tí, em um outro texto postado aqui. E é claro estarei pronto para refutá-las. huahuahu
    Estudo espiritismo (Obras Kardecianas)a algum tempo, e o que encomoda-me é a confusão que fazem ao dizer de espiritismo coisas que são espiritualismo (que não se identificam totalmente). Por isso minhas questões, não quanto a possíveis questionamentos que surgem a quem lê de modo despreconceituoso o espiritismo, mas muito se fala de espiritismo sem ao menos ir a fontes “realmente espiritas”. Seria o mesmo que criticar Kant a partir da leitura de uma revista de banca de jornal, sem ao menos ter se dado o trabalho de ter lido a primorosa CRP.

    Enfim, o que realmente importa, segundo palavras de um mestre, “sejamos felizes” !!!

    Abraços.

    Estou aguardando um evento na PUC sobre filosofia, claro, no período noturno, para revê-los.

    • Diego Azizi disse:

      Claro que vou me lembrar de você, meu caro, inclusive, as vezes, lembramos de você durante as aulas do Porta!
      Não peça desculpas pelo tom provocativo, acho que provocar é necessário e deixa a brincadeira mais divertida.
      Só preciso te avisar de uma coisa: quando eu disse no texto, que se existissem falácias nas proposições, já seria muito, eu estava me referindo exclusivamente à auto-ajuda, que aliás é o objeto de meu texto. Eu apenas mencionei o espiritismo como um dos discursos que me incomodam também (assim como todos os discursos esotéricos-religiosos, mas isso é outra história), mas reconheço que a nível lógico, simplesmente, o espirisitmo nao apresenta falácias explícitas, se é que apresentam. Porém, escreverei um texto sobre meu ponto de vista e voce me refutará, ok?
      Um abraço, e apareça por aqui.

  6. Caro colega Diego Azizi,
    Sou Pastor da Assembléia de Deus em Itajai-SC e amante do conhecimento e tudo aquilo que pode nos conduzir a emancipação e “Desformatação”. Recentemente terminei uma dissertação sobre a Teologia da Prosperidade cujo tema é “Pobres Prósperos!”. Neste trabalho apresentava exatamente este desabafo do amado com relação a essa febre dos livros de “Auto-ajuda”, notadamente Rhonda Byrne com seu malfadado “Segredo”. Já bem dizia Kant em seu “Esclarecimento” que às vezes, para alguns, é conveniente permanecer na menoridade e sob controle. Sendo assim, parabéns pelo texto tão esclarecedor e contundente. Que Deus te abençoe e até a próxima.

  7. Railson disse:

    Bem, gostei do texto de forma geral embora discorde em muitos pontos de suas opniões. Acredito que por ter sido construido como uma opnião você se excedeu em algns pontos, deslocando-se completamente do que é o fenômeno “literatura de Auto Ajuda” para um ponto de esteriotipação desse gênero.
    Creio que com uma produção ainda mais cosistente (ou seja, a intenção de voltar a se sobrepor com rigor sobre o tem)e seguindo os pensamentos de Kant como fez durante a maior parte do texto, sem no entanto querer abarcar de uma só vez tudo que é a literatura de Auto Ajuda você alcançará uma densidade maior no texto. Densidade porque em muitos pontos você traça algumas (muitas) comparações baseadas simplismente no sua opnião dando juizo de maior-menor (mais-menos), intelectual-burro e etc. e isso deveras quebra o ritmo do texto dando a este mais um ar de ataque do que de racioninio e reflexão sobre o tema, o que realmente é.
    Saindo da forma e indo ao conteúdo, se tomarmos a definição Moacyr Sciliar, o qual define a literatura de Auto Ajuda como literatura placebo [em O texto como placebo],que de uma forma ou de outro é o que você faz no seu texto, temos de recordar que psicologicamente algumas pessoas necessitam apenas de placebos temporariamente repostos parepasso a imposição mercadológica da sociedade. E isso de fato já é subjetividade, e como tal, (infelizmente) deve ser respeitada. Deve-se nesse ponto combater a cultura de massa e não taxar de burros os que a consomem, até porque todos a consomem de uma lado ou de outro.
    Para não me delongar mais gostaria só de refutar (ou pelo menos questionar) a pesquisa que você trouxe sobre a auto-estima e a Auto Ajuda. Isso é puro psicologismo. Ela agrupa descriteriosamente pessoas com baixa auto estima sem necessariamente relacionar nível de cronicidade, tempo nesta condição e etc., além de não análisar a paridade dessa baixa(ou alta) auto estima com transtornos psiquiátricos que alteram mais as caractersticas dentro dos prórpios grupos que entre os grupos relacionados na pesquisa. Isso pode ser observado a partir da diferença existente entre os vários tipos de depressão, por exemplo, relacionados no DSM-IV-TR [Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais 4ªEd Revisado] ou no CID 10 [Código INternacional das Doenças].
    Desculpe pelo longo texto e parabéns pela iniciativa de gerar discussão sobre o tema espero ansioso pela sua produção acerca do Espiritismo, apesar de crêr, desde já, que discordarei em muito dela.

  8. Ang disse:

    Cada um lê o que quer, é claro, mas eu particularmente já li e não gostei desse tipo de “literatura”, é rasa, óbvia, linear e não acrescenta nada de conhecimento verdadeiro a ninguém; construída por frases de efeito e filosofia de clichê.
    realmente isso faz parte da conhecida “cultura de massa”, e a única maneira de ficar rico com livros de autoajuda é escrevendo algum; é fácil, eu não faço isso pois não tenho tempo e nem necessidade, mas achei bem interessante, para quem tiver interesse aqui vai:
    [A partir daqui, foi obtido em
    http://www.borntobedumb.com/2009/06/como-escrever-um-livro-de-auto-ajuda.html
    ]

    Livros de auto-ajuda vendem aos montes, todos sabem. Ouvi uma, vamos dizer, ‘acusação’ conspiratória de que o Governo estaria incentivando a leitura de livros de auto-ajuda por que isso deixaria a população calma, tranquila e comandável. Que fazia com que as pessoas aprendessem a superar seus estresses e que assim não se preocupariam com ruas esburacadas, escolas destruíadas e tantas falcatruas…

    Conspirações a parte, vou ensinar algumas dicas importantíssimas na hora de se escrever um livro de auto-ajuda. Siga todas as instruções e você poderá tornar suas palavras de duvidosa sabedoria num best seller internacional!

    1 – O Nome

    Uma das coisas mais importantes não é o conteúdo ou mesmo a capa, deve ser o nome. Ele tem de ser selecionado com muita cautela, deve ser perfeitamente trabalhado para parecer não dizer coisa nenhuma e, de fato, não dizer patavinas!

    Não se pode chegar com coisas diretas como “Ajude-se Sozinho a Ganhar Dinheiro”, pessoas não compram livros com esse nome. Ele não deve ter absolutamente nada a ver com o livro e simplesmente não ser mencionado dentro de tal.

    Você deve colocar nele uma sacada que o faça parecer uma trama de suspense e mistério, como um thriller policial, mesmo que seu conteúdo não seja minimamente emocionante.

    Para o nosso exemplo, este foi o nome escolhido:

    Quem foi?!?

    2 – A Inspiração

    Não, não estou falando de encontrar uma boa paisagem num lugar calmo que lhe inspire a escrever, estou falando de qual filme foi inspirado no seu livro. Se o seu título não teve nenhum filme inspirado nele, então não vai vender! Por sorte, essa informação não precisa ser verdadeira, basta você dizer numa nota na parte de trás do livro que ele serviu de inspiração para algum filme famoso. No caso do nosso Quem Comeu Minha Sobrancelha?, o filme que escolhemos para preencher essa lacuna foi “Um Gnomo em Nova Yorque”

    3 – Escreva o que as pessoas querem ler (atrás do livro)

    Seu Zé da esquina tem um carrinho de cachorro quentes e tem fé de que um dia vai expandir seus negócios e abrir uma famosa rede de lanchonetes. Isso nunca vai acontecer, Seu zé vai morrer de câncer, mas antes que isso aconteça você deve concordar com ele em seu livro e lhe roubar as esperanças dizendo que tudo é possível.

    4 – Use argumentos simples

    Você sabe que a sua clientela não é formada pelos empresários que você diz ter lido o livro, então não use uma linguagem complexa demais, escreva coisas simples que qualquer idiota entenda e que façam parecer ter todo o sentido. Diga por exemplo (atrás do livro, sempre), que a chave para o sucesso está dentro do livro. As pessoas geralmente acham que atingir o sucesso é fácil como abrir uma porta, então pronto.

    5 – Seu livro é milagroso

    As pessoas que você cita no livro, que alcançaram o sucesso, tem histórias chatas e longas, chegaram lá velhas e decrépitas, isso não é legal. Diga apenas que Seu Zé era pobre e vendia cachorro quente na esquina, leu o livro e abriu uma rede de lanchonetes, voltou a ter cabelos, potência sexual e ressuscitou três dias após a morte.

    Siga direitinho estes princípios básicos e seu livro, independente do conteúdo, vai ser um grande sucesso, te rendendo milhões e milhões.

    “Qualquer um pode ser Legal …Mas Incrível leva Prática” Por deus, quem não compraria um livro com esse nome?

    Com tempo e prática você vai aprender a tirar melhor proveito dessas técnicas e ainda desenvolver suas próprias!

  9. Danny disse:

    Os revoltados com o artigo já foram pescados, esses na maioria das vezes não tem mais jeito.Para eles, ou gosta de livro de auto-ajuda ou é “fechado, limitaddo ao academicismos” e bobagens do tipo.

  10. Daniel Bed disse:

    A cabeça do cara que escreve auto-ajuda em relação ao pobre infeliz depressivo que lê (não 1, mas 20 porcarias dessas): seja meu escravo, eu não posso curar sua depressão, pois assim você não leria mais meus livros… Bem que eu demorei para entender a razão de, no mesmo livro, de um espermatozóide vencedor, a humanidade passar a um cemitério sentimental onde (parafraseando nosso novo Hitler) “nem na Inglaterra se encontram mais pessoas querendo tornar-se professor…blá blá blá” otimismo pessimismo… Otimismo pessimismo… Uma desgraça sem fim em que a parte final (pessimismo) vence, visto que é necessários manter os doentes mais doentes… Se estes se curam não comprarão mais livros e, dessa forma, o gado facilmente se apascenta (à espera do abate?) cuidado, gente, com estas lobas e parabéns pelo artigo, Diego! Parafraseando tristemente o Geobbles de Hitler: nosso povo está indo para onde Augusto (nome sugestivo) C. Lhes levar…

  11. Maria Nívia Dantas disse:

    Gostei muito de seu texto sobre literatura de auto-ajuda, mas gostaria de saber se você poderia me passar a referência completa da Revista Psychological Science, que trata do estudo sobre os efeitos nocivos da literatura de auto-ajuda em pessoas com baixa-auto estima. Pretendo citar seus comentários em um trabalho meu, mas preciso ter certeza dessa fonte, como também da revista Psique de dezembro de 2007.

    Obrigada pela atenção.

    • Diego Azizi disse:

      Maria, procurarei a referência completa aqui e te dou o retorno. Desculpe a demora para responder.
      Att,
      Diego Azizi

    • Diego Azizi disse:

      “É um tipo de Literatura, um saber não-sistematizado, sem fundamentação científica e que beira o pensamento mágico” (revista Psique #23, DEZ2007)
      Essa é a referência da revista psique.
      Sobre a psychological science, eis a referência do estudo no site. O email dos autores do estudo estão disponíveis caso precise de alguma informação complementar. http://www.psychologicalscience.org/media/releases/2009/wood.cfm
      Desculpe a demora, mas aí está.
      Abraços,
      Diego Azizi

  12. Fabinho Mineiro disse:

    Ótimo texto, amigo…

    Chego a ter vergonha quando vejo em livrarias prateleiras extensas de auto-ajuda…

    As obras de literatura clássica, os romances psicológicos ou as dissertações de Humanidades, coitadas… Às vezes, nem as vejo no fundo, espremidas junto à parede…

    Estudo Psicologia e é verdadeiramente triste que nós recebamos a crítica de muitos estudiosos por boa parte dos livros de auto-ajuda que circulam por aí… Se não somos criticados pelo baixo valor ético da auto-ajuda, criticam a psicologia acadêmica, que seria mais uma “pseudo-ciência”, popularizada e “superficializada” para fins comerciais, o que, obviamente, não pode ser considerado, já que a psicologia não se responsabiliza pelo que é veiculado nesses tipos de obras fast-food, ainda que seus autores afirmem ser “doutores” de não sei onde…

    Acho que cabe salientar aqui que a maior parte desses escritores de auto-ajuda são norte-americanos ou têm claras inspirações em outros autores dos EUA…

    Seja lá o que se faça na América, a psicologia e a ética psicológica debatida no Brasil, América Latina e Europa é diametralmente distinta… Além disso, uma parcela considerável desses autores nem formação em Psicologia possuem: não são raros os que são psiquiatras (psiquiatras sem formação psicoterapêutica) e outros tantos são administradores, empreendedores, artistas ou apresentadores de “talk shows” na TV aberta…

  13. josé Luciano Bezerra disse:

    Não concordo com vc.
    Não sei qual é a sua linha de pensamento…
    Afinal, em que ou no que vc acredita?

    • Diego Azizi disse:

      Bom, se quiser justificar sua posição, fique à vontade.
      Se discorda, deve discordar por alguma razão.
      Não preciso acreditar ou deixar de acreditar em algo, apenas avalio racionalmente o que irracionalmente se apresenta.
      Tal é o papel do filósofo, como disse Hume, a saber, o de através da filosofia acabar com a superstição que entrava nossa razão.
      A minha linha de pensamento é a racional, filosófica, tal como deve ser.

  14. marcelo bessa disse:

    O autor do texto não se identifica. Isto é lamentável!

    • Diego Azizi disse:

      O autor do texto é Diego Azizi, eu mesmo.
      Realmente estava faltando meu nome nele, contudo, se clicar no meu nome na parte inferior à direita da página, encontrará esse texto como sendo de minha autoria.
      Abraço.

  15. Roger Amado disse:

    É uma pena que haja tantas divergências infundadas e um tanto ofensivas. Que importa se Sarte morreu fumando no sentido de sua reflexão filosófica? Claro que pode haver uma conexão, mas isso pode não significar nada. Os filósofos são homens.
    Autoajuda é sim lixo. A questão não é conter determinados chavões -a própria filosofia e a boa literatura podem conter aparentes chavões. A questão é o que está em torno, a profundidade da questão.
    O problema da autoajuda é que ela se camufla de, como diz o autor, uma pseudo-filosofia muito gasta cuja finalidade é unicamente mostrar o lado “bom”da vida, sem avaliações mais profundas e cautelosas, como a dicotomia entre o bem e o mal, o equilíbrio das oposições etc. É muito fácil tentar colorir o mundo e descortiná-lo pelo lado mais feliz. Outra coisa surpreendente e eu não lembro se é muito colocada é o cientificismo falso que representa o espiritismo ( falo isso porque estudei o espiritismo e, quem quiser achar ou não, não me importa se me ache arrogante!) Allan Kardec foi apenas um oportunista que fundiu ciência (e que ciência!) com filosofia ( e que filosofia!) e religião (puro moralismo!) Foi um golpe de mestre. Mas o espiritismo é desprezível. Fé raciocinada? Uma filosofia decadente, sem base, extraindo, ou melhor, plagiando elementos do budismo. Uma ciência ridícula que chega a falar de átomos espirituais!
    Não vou me alongar. O texto é interessante. Talvez não concorde com tudo mas o essencial é provocar.

    • Maria Dantas disse:

      Roger, como é bom ouvir alguém falar com convicção. Também já tive minha fase “espírita”, por assim dizer, e hoje apesar de sentir uma incompletude por não ter acesso às respostas que todo mundo gostaria de saber, pelo menos não preciso ficar confiando em espiritismo de Allan Kardec, ou coisa parecida. Busco resposta na fé, sim, pois não me vejo sem ela. Sinto-me feliz em ser ‘cristã’ e católica, daquelas que pede a Deus todos os dias: eu creio, mas aumentai a minha fé. De certa forma, isso ocorre porque sou uma aficionada pela ciência e sei que espiritismo não é ciência, literatura de autoajuda só ajuda a conta bancária de quem escreve esse gênero literário.

    • Diego Azizi disse:

      Obrigado pelo seu comentário Roger. O texto, mesmo com um tom de desabafo (um desabafo baseado no constante crescimento de uma visão encantada e mascarada do mundo de da vida) pretende levantar alguns pontos polêmicos sobre uma necessidade humana (de encontrar respostas, sentidos e substância no mundo) e a incapacidade da auto-ajuda e das pseudo-ciências de fornecer aquilo que essa necessidade demanda.
      As vezes, um tom mais forte é o necessário para dar aquela desestabilizada nas certezas irracionais construídas por essas inatividades intelectuais.

  16. Roger Amado Veloso disse:

    Caro Diego, fico feliz pelas respostas.A filosofia e o saber não se constroem através de achismos delirantes e necessariamente mais convenientes ao nosso comodismo. Se alguém aqui tem interesse em falar comigo, deixo meu e-mail: rogeramado18@yahoo.com.br
    Grato.

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