Aristóteles – O Método da Metafísica (3/4)

Continua daqui.

Resumo:

Enrico Berti – As razões de Aristóteles – Terceiro Capítulo: O método da Metafísica. Editora Loyola.

A demonstração elenktica

Além das propriedade do ser enquanto ser, no mesmo livro IV estão os dois “axiomas” comuns a todas as ciências, o princípio de não-contradição e o do terceiro excluído. Visto que vale para todos os seres, sua investigação cabe apenas à metafísica, a ciência primeira que estabelecerá “se são verdadeiras ou “não” (IV 3, 1005 a 30). Certamente, segundo Aristóteles, os homens possuem um conhecimento imediato ou intuitivo desses princípios, principalmente o primeiro deles, a saber, o de não-contradição. Mas nada impede que a propósito deles seja necessária uma investigação para estabelecer o verdadeiro ou o falso, sendo este trabalho apenas próprio dos filósofos.

Aristóteles admite uma verdadeira investigação até para os princípios mais conhecidos. E propõe, não como a comparação da inteligência a um “tocar”, isto é, ao conhecimento imediato, mas à vitória da verdade sobre o seu oposto, o procedimento dialético. E, através deste procedimento, Aristóteles verificará “não apenas as condições da verdade, mas também as condições do valor das palavras, ou seja, da própria análise semântica[1].

Aristóteles começa com o princípio de não-contradição e faz uma consideração de caráter metodológico. “O princípio em questão, como se sabe, não pode ser demonstrado no sentido próprio do termo, porque é a condição de todas as demonstrações, segundo o que foi explicado nos Segundos analíticos[2]. No entanto, Aristóteles acrescenta:

É possível demonstrar elekticamente (apodexai elenktikos, isto é, demonstrar por meio de refutação) também a propósito do que é impossível [contradizer], com a condição de que aquele que o contradiz fale somente alguma coisa. Se, ao contrário, não diz nada, é ridículo procurar um argumento contra quem não sustenta nenhuma tese, na medida em que não afirma nada. Com efeito, quem assume tal atitude, fazendo assim, é semelhante a uma planta. Quanto a demonstrar alenkticamente, digo que ele difere do demonstrar [puro e simples] porque aquele que quisesse demonstrar [o princípio em questão] seria, considero, responsável de uma petição de princípio, ao passo que, se o responsável de tal erro for o outro [isto é, aquele que o contradiz], ter-se-á refutação [élenkhos] e não demonstração (4, 1006 a 11-18).

Desta forma, nos defrontamos com dois tipos de demonstração, a saber, a demonstração pura e simples, que caracteriza a matemática, pois pressupõe os princípios, e a demonstração por meio da refutação. À matemática não se aplica o princípio de não-contradição, porque daria lugar a uma petição de princípio, deveria pressupor justamente o que pretende demonstrar pura e simplesmente. “Pelo contrário, o ‘demonstrar elenkticamente’ deixa, por assim dizer, que esse erro lógico seja cometido por quem pretende contradizer o princípio: quando essa pessoa comete o erro, basta ressaltar isso, e com isso se o terá refutado. Contudo, a refutação de quem nega equivalerá à demonstração do princípio, porque mostrará que é impossível negá-lo, que é impossível que as coisas sejam diferentemente de como ele diz, o que dá lugar àquela necessidade característica das conclusões de toda demonstração”[3].

Mas, para a própria refutação, ou seja, o confronto, é necessário duas teses contrárias. E, através deste confronto de contrários é que se efetua o procedimento dialético. “Todavia, no caso em questão, a refutação consegue dar lugar a uma verdadeira demonstração, mesmo que a uma demonstração sui generis, isto é, diferente daquelas da matemática[4]. Refutar uma tese para que outra a defenda se tratará sempre de “pedir” e “conceder” alguma coisa. Não se trata de pedir a quem contradiz de dizer que uma coisa é ou não é, pois, em tal caso, logo pressuporia o princípio em questão, desta forma, cometeria uma petição de princípio. Assim, não mais o faria. O que se trata em refutar é  pedir a quem contradiz que apenas diga algo que esteja dotada de significado. Pois, é disto que se trata uma discussão: tese contra antítese, esta é a condição do discurso, ou seja, da comunicação com os outros e consigo próprio.

Uma vez que quem contradiz diz uma única coisa com significado, defini-se que sustenta uma coisa e não outra, expressando pela oposição de afirmação e negação o que consiste do princípio de não-contradição. “Desse modo, no momento mesmo em que se chega a defender sua tese, vale dizer, a negação do princípio de não-contradição, quem contradiz não nega, mas admite o princípio de não contradição, isto é, sustenta sua tese (negação) destruindo-a (porque admitir o princípio equivale a destruir sua negação)”[5]. Cai apenas aquele que contradiz o princípio, mas, mesmo assim, a refutação equivale à demonstração do princípio, a uma “demonstração por meio da refutação”.

Assim, este é o caso no qual a dialética exprime toda a sua força, a saber, a demonstração que tem todo caráter de necessidade próprio das demonstrações matemáticas, que se desdobra dialeticamente, e o princípio de não-contradição pressuposto.

Não se limitando a isto, ou seja, enunciar a forma geral desta demonstração, Aristóteles também confirma, mais uma vez, o caráter dialético de seu procedimento, precisamente, “peirástico”, isto é, crítico das opiniões alheias dos que negavam direta (alguns sofistas) ou indiretamente (alguns filósofos pré-socráticos), o princípio de não-contradição.

No capítulo 7 e 8, Aristóteles realiza operação análoga a que discutimos a propósito do princípio do terceiro excluído, mas se diferencia uma vez que pressupõe o princípio de não-contradição. Entre estes argumentos, particularmente interessantes estão no último do livro IV,  que  veremos agora aprofundadamente.

As duas negações em questão, que são negações do princípio de não-contradição, são formuladas, primeiro, é aquela pela qual elas se configuram respectivamente como a tese de que “todas as proposições são verdadeiras”, e a tese de que “todas as proposições são falsas”. São denominadas de “enunciações de sentido único e a respeito de todas as coisas” (to monakhós legómena kai katá panton). Elas negam o princípio de não-contradição e o do terceiro excluído, porque negam a própria oposição entre verdadeiro e falso, ou seja, admitem que duas posições entre si contraditórias podem ser ambas verdadeiras  (negação do princípio de não-contradição) ou ambas falsas (negação do princípio do terceiro excluído)”[6].

Para estas, Aristóteles apresenta duas refutações, uma com base na exigência de dar significado às palavras “verdadeiro” e “falso”, “a qual mostra que isso é possível apenas com a condição de estabelecer entre elas uma oposição e, por isso, de renunciar às ‘enunciações de sentido único’. A outra com base na observação de que tais enunciações se autodestroem”[7].  Vejamos esta última, a famosa refutação do ceticismo absoluto – e respectivamente do absoluto dogmatismo:

Quem, com efeito, diz que são verdadeiros todos os discursos, torna verdadeiro também o discurso oposto ao seu, e por isso não-verdadeiro o seu ( visto que o discurso oposto diz que seu discurso não é verdadeiro),  enquanto quem diz que são todos falsos diz ele mesmo que também o seu próprio [é falso]. E há algumas exceções, alguns dizendo que apenas o discurso oposto ao seu não é verdadeiro, outros dizendo que apenas o seu não é falso; apesar de tudo, segue-se a eles dever postular infinitos discursos verdadeiros e falsos, visto que o discurso que diz que o discurso verdadeiro é verdadeiro é, ele mesmo, verdadeiro, e assim ao infinito (8, 1012 b 15-22).[8]

Imediatamente sucessiva é a aplicação  de duas teses importantes na metafísica por Aristóteles, provando que a refutação não seja formalista, isto é: a afirmação que “tudo está em repouso”, ou seja, o eleatismo, e aquela que afirma que “tudo está em movimento”, ou seja, heraclitianismo. Aristóteles diz no fim do livro IV da Metafísica:

É claro, pois, que não dizem o verdadeiro nem os que afirmam que todas as coisas estão em repouso, em os que afirmam que todas as coisas se movem. Se, com efeito, todas as coisas estão em repouso, as próprias proposições seriam sempre verdadeiras e sempre falsas, enquanto é evidente que esta situação muda (aquele, com efeito, que fala, ele próprio já um tempo não existia e [em outro tempo] de novo não existirá); se, ao contrario, todas as coisas se movem, nada será nunca verdadeiro e, por isso, todos os discursos serão falsos; mas se demonstrou que isso é impossível (1012 b 22-28).[9]

A reivindicação contra o eleatismo, ou seja, parmenidiano, é talvez um pouco amarga, mas eficaz, como o é “a redução do mobilismo ao absoluto ceticismo, baseada na observação de que ao menos alguma verdade deve permanecer, sob pena de autodestruição da própria teoria. Contudo, o resultado desta dupla refutação, isto é, desta refutação de dois extremos opostos, que se revelam, assim, ser contrários entre si, e não contraditórios – é a demonstração da tese contraditória a ambos, isto é, oposta às ‘enunciações de sentido único’, aquela pela qual algumas proposições são verdadeiras e outras falsas, ou algumas estão em repouso e outras em movimento”.

A primeira conseqüência se mostra neutra e aceitável por todos, ao contrário da segunda, “porque consiste nada menos do que âmago mais ‘duro’ e difícil de aceitar da metafísica aristotélica, a existência de uma realidade imóvel, separada das realidades móveis[10].  Consciente Aristóteles disto, com efeito, conclui o livro dedicado à defesa do princípio do terceiro excluído:

Mas também não é possível que as coisas em certo momento estejam todas em repouso ou todas em movimento, pois há alguma coisa que sempre move as coisas movidas, e isso é o primeiro motor imóvel (1012 b 29-31)[11].

Esta é a soma de duas impossibilidades, tudo estar parado e tudo estar em movimento. “Contudo, sua conseqüência é que alguma coisa é sempre imóvel (o ato puro, isto é, Deus) e alguma coisa é sempre movimento (o céu, isto é, o universo em seu complexo, que segundo Aristóteles, é eterno e gira incessantemente sobre si mesmo), ou seja, uma metafísica da transcendência[12].

Continua aqui.


[1] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 94

[2] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 94

[3] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 95

[4] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 96

[5] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 97-8

[6] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 99

[7] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 100

[8] ARISTÓTELES. Metafísca. 1012 b 15-22. In BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 100

[9] ARISTÓTELES. Metafísca. 1012 b 22-28. In BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 101

[10] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 102

[11] ARISTÓTELES. Metafísca. 1012 b 29-31. In BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 102

[12] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 102

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