Aristóteles – O Método da Metafísica (2/4)

Continua daqui.

Resumo:

Enrico Berti – As razões de Aristóteles – Terceiro Capítulo: O método da Metafísica. Editora Loyola.

A semântica ontológica

A parte central da Metafísica se debruça sobre a análise do “ser enquanto ser e as propriedades que lhe pertencem”. Este objeto da ciência é “capaz de tornar a compreender em si a totalidade do real para o qual a natureza, objeto da física, se revelara inadequada por causa da existência de uma realidade imóvel[1]. A metafísica, a filosofia primeira se encarregará de buscar os princípios e as causas deste novo objeto.

O método pelo qual são procuradas tais causas primeiras não são as representações, mas, para a análise dos significados do ser e de suas propriedades,  denominamos a “análise semântica”, que será melhor elaborada no livro IV.

Após ter distinguido em quantos sentidos se diz cada um [destes objetos], deve-se mostrar, em relação ao primeiro, como em cada predicação [o objeto] se diz em relação àquele (2, 1004 a 28-31).

São distinguidas, segundo Berti, três operações sucessivas: 1) a distinção entre os muitos significados do mesmo termo, a análise semântica, que é um dos instrumentos da dialética; 2) a distinção do “primeiro” entre ele, ou seja, daquele que confere unidade e todos dependem; 3) a determinação do tipo de relação intercorrente entre cada um dos muitos significados e do primeiro.  “Enquanto a primeira operação está entre as praticadas também pela dialética, a segunda e a terceira configuram-se como verdadeira investigação de princípios e causas (o primeiro significado, com efeito, é princípio e causa dos outros) e, respectivamente, como uma espécie de demonstração, Isto é, de ilustração da dependência, dos significados secundários a partir do primeiro[2].

A distinção entre os muitos significados do ser já fora realizada em diversas obras aristotélicas, mas, na Física, mostra que os significados correspondem às dez categorias. E, no livro IV da Metafísica, Aristóteles mostra que a primeira categoria é a substância (ousía) e que a relação da substância e as demais categorias é chamada “harmonia em relação a um”. As outras categorias são chamadas de entes, uma vez que todas contêm, na própria definição, uma relação com a substância. “A substância, portanto, é princípio e causa de todas as categorias, ou seja, do ser enquanto ser[3].

Contudo, a própria operação, acrescenta Aristóteles, deveria ser feita também para as propriedades por si do ser: 1) para o uno, o qual, por sua vez, resultará dizer-se em muitos sentidos, correspondentes às categorias do ser, ou seja, o idêntico (uno na substância), o igual (uno na quantidade), o semelhante (uno na qualidade) etc.; 2) para os seus opostos, o múltiplo, o diferente, o desigual, o dessemelhante etc.; 3) para os vários tipos de oposição, a contradição, a privação, contrariedade em sentido estrito; 4) enfim, para outros tipos de relação, como aquelas entre o anterior e posterior, todo e parte etc. Também neste caso resultará que o significado primeiro é aquele constituído pela substância e que todos os outros dependem dela segundo a “harmonia em relação a um”. Desse modo, será resolvida a aporia mencionada no livro III a propósito dos “dialéticos”, isto é,dos platônicos, no sentido de que caberá à filosofia primeira tratar dos objetos dos quais se ocupam estes últimos.[4]

Aristóteles critica os platônicos, no livro III, pela falta de reconhecimento do primado da substância e, implicitamente, da distinção entre os muitos sentidos dos quais o ser se diz, ou seja, por não praticarem a análise semântica, procurar o verdadeiro princípio do ser e a distinção do significado primeiro. Desta maneira, acabam por os platônicos não alcançarem o verdadeiro conhecimento e permanecerem como simples dialéticos, privados da verdadeira filosofia, discutindo apenas opiniões. Assim também se mostram os sofistas, que assumem a aparência de filósofos e, deste modo, seu saber é também aparente, não real, uma vez que seu modo de viver é caracterizado pelo amor à riqueza e não à verdade. Para Aristóteles, a filosofia deve ocupar-se dos objetos supra-expostos.

Por isso, os editores da Metafísica colocam, depois do livro IV, o tratado que distingue os muitos significados de alguns entre os mais importantes termos filosóficos: princípio, causa, elemento, natureza, uno, ser, substância, idêntico, diferente, opostos etc. O capítulo 7 deste livro nos chama a atenção por dizer sobre os muitos significados do ser,

porque enumera, ao lado do ser que compreende as várias categorias, também outros significados, como “o ser por acidente”, o ser em potência e em ato, o ser como verdadeiro (e respectivamente o não–ser como falso). Do ser por acidente e do ser como verdadeiro Aristóteles trata no livro VI, enquanto do primeiro entre os significados correspondentes às categorias ele trata nos livros VII e VIII, que estão, por essa razão, entre os mais importantes de toda a obra.[5]

No livro VII, Aristóteles mostra que a substância é primeira e que só esta categoria pode existir por si, sendo que as demais devem existir nela, a substância. Portanto, a substância é “princípio” ou “causa primeira” das outras categorias, seja do ponto de vista ontológico ou do lógico-epistemológico. “Isso demonstra como um procedimento dialético, como a análise semântica, é capaz de estabelecer também a dependência não apenas das palavras, mas das coisas mesmas[6].

Contudo, a parte mais importante deste livro se dedica a estabelecer a primeira das substâncias, i. e., o primeiro entre os diversos sentidos que a substância se diz. “Aristóteles toma em exame, para esse propósito, quatro “candidatos” ao titulo de substância, o substrato, o composto, a forma e o universal, e chega a concluir, pela análise de cada um deles, que a “substância primeira” é a forma, a causa formal, não entendida como forma separada, mas como forma de um composto material (“todo”)[7][8].

No livro VIII, Aristóteles aperfeiçoa o discurso já feito, assimilando respectivamente a matéria ao ser em potência e a forma ao ser em ato, e mostrando que a passagem de uma substância da potência ao ato requer uma causa motora.[9]

No livro IX, ele analisa a potência e o ato, estabelecendo qual é o primeiro deles. E este é o ato, anterior à potência do ponto de vista da noção, da substância ou do tempo[10].  Portanto, em tal caso, “a análise semântica conduz à descoberta de uma verdadeira anterioridade ontológica, isto é, uma causalidade real. No fim do livro IX, Aristóteles, alem disso, aperfeiçoa a análise do verdadeiro e do falso, distinguindo a verdade das proposições, à qual se opõe a falsidade, da verdade das intuições, à qual se opõe somente a ignorância[11].

No livro X, por fim, é analisado os opostos em geral, como o uno e o múltiplo, estabelecendo qual deles, os opostos, é primeiro: trata-se  da análise semântica dita no livro IV aplicada no objeto dos “dialéticos”. Assim, este é o modo pelo qual Aristóteles estabelece os princípios e as causas do ser enquanto ser.

continua aqui.


[1] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P.86

[2] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 87

[3] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 87

[4] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 88

[5] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P, 91

[6] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 91-2

[7] No original em italiano foi usado a palavra sinolo, um transliteração do grego syn-olon, que significa, literalmente, com-junto, o todo [n. do T.]

[8] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 92

[9] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 92

[10] Ao menos em espécie, onde o genitor precede o gerado posto que é sua causa motora, enquanto a potência é anterior ao ato do ponto de vista no indivíduo singular.  BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 92

[11] BERTI, Enrico. As razões de Aristóteles. Editora Loyola. P. 93

2 comentários em “Aristóteles – O Método da Metafísica (2/4)

  1. […] aqui. [1] O método que aqui Aristóteles propõe para a metafísica coincide com o terceiro uso da […]

  2. […] Aristóteles – O Método da Metafísica (3/4) Continua daqui. […]

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