Foucault: paralelo entre a “loucura” em Montaigne e Descartes (parte 2)

continuação da parte 1.

Descartes: o juízo de acordo unicamente com a razão e a loucura.

Descartes vendo quantos princípios mal fundamentados já havia estabelecido desde sua infância, se propõe seriamente a começar tudo de novo: se livrar das opiniões e a partir dos fundamentos estabelecer algo sólido e duradouro nas ciências.

Encontrando seu espírito livre depois de certos anos passados, se propõe a “demolir em geral todas as opiniões[1], não que se consiga provar que todas são falsas, “porém, contanto que a razão já me convence de que não devo com menor zelo evitar de dar crédito às coisas que não são totalmente seguras e incontestáveis, do que àquelas que nos aparecem claramente falsas, o menor indício de dúvida que eu nelas encontrar será suficiente para impelir-me a repelir todas”.[2] O que é necessário aqui é destruir “apenas” os alicerces que todas as outras cairão por conseqüência; todas as “antigas opiniões”.

Tudo o que considerou verdadeiro, aprendeu-o dos sentidos ou por intermédio deles. Mas se já nos enganou algumas vezes, é prudente jamais confiá-los novamente totalmente. Todavia, mesmo que todas as opiniões formadas por meio dos sentidos sejam duvidáveis ou inseguras, há outras que não podemos em sã consciência duvidar como, por exemplo, quando Descartes diz: “que eu me encontre aqui, sentado perto do fogo” ou que “eu poderia negar que estas mãos e este corpo sejam meus?” A resposta de Descartes é categórica: só dementes (loucos) não enxergariam tal evidência clara e distinta.[3]

Contudo, no sonho, temos as mesmas coisas que esses loucos. Nada parece ser tão claro nem tão inconfundível no universo dos sonhos. Muitas vezes Descartes diz ter sido enganado por ilusões análogas à realidade. E tanto é seu assombro sobre isto, pois não acha distinção nítida do que é vigília e do que é sono. Afinal, qual a certeza de se estar acordado, se tantas vezes nos enganamos? E, se este estado de sono é semelhante ao de um louco ou demente, o que nos faz dicernir que não estamos sonhando… quero dizer, que não estamos loucos?

A reposta não é definitiva, mas esclarece alguns pontos: mesmo que tudo que vivemos não seja como vemos, não passe de ilusões, o que sonhamos são “como quadros e pinturas”, e tem de haver uma semelhança ou representação da coisa real e verdadeira. Assim sendo, as coisas gerais, isto é, cabeças, mãos, o robe não são coisas imaginárias, e sim verdadeiras e existentes. Mas mesmo que possam ser fantásticas em algum sonho, ainda há coisas mais simples e universais que podemos afirmar verdadeiras – ao contrário das compostas. “Desse gênero de coisas é a natureza corpórea em geral, e sua extensão; juntamente com a figura das coisas extensas, sua quantidade, ou grandeza, e seu número; como também o lugar em que se encontram, o tempo que mede sua duração e outras coisas análogas”.[4][5]

Descartes tem antigas e habituais opiniões que sempre lhe voltam como a do Deus que lhe faz ter esse engano quanto ao claro e o evidente e, talvez, o fazendo errar a mera adição de dois números. Tendo o equívoco como uma forma de imperfeição, o autor estaria também imperfeito uma vez que toda alma vem Dele. Mas estes caminhos devem ser deixados de lado ou tomados com mais prudência, caso contrário, poderia apenas se enganar mais. Ele procura balancear tanto seus preconceitos a alcançar o conhecimento da verdade. “Portanto, tenho certeza de que, a despeito disso, não pode existir perigo nem equívoco neste caminho e de que não poderia hoje concordar em demasia com a minha desconfiança, já que no momento não se trata de agir, mas apenas de ponderar e de conhecer”.[6]

Mas, retomando a temática de Deus, presume ser ele um gênio maligno, poderoso e enganador, que dedica-se a enganar o ser humano sobre a evidência ou a verdade de todas as coisas, deixando dotar-se apenas da falsa crença ou juízo de possuir todas as coisas, como a mão, a cabeça, o robe, isto é, Deus nos faria todos loucos ou dementes e, uma vez que não se poderá dicernir se Deus nos engana ou não, como saberemos se vivemos a verdade ou a falsidade? Qual linha podemos julgar dividir os racionais dos loucos? Pois, se por essa falsa crença de realidade, diz Descartes, “não está meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito contra todas as artimanhas desse grande enganador que, por poderoso e enganador que seja, jamais poderá impor-me alguma coisa”.[7]

Enfim, Descartes temendo ao ser acordado desta ilusão em que descansava agradavelmente, em vez de alguma luz no conhecimento da verdade, encontrou uma luz pálida que não clareou a absoluta escuridão das dificuldades que acaba de agitar nesta Primeira Meditação. Mas que se recuperará através do cogito na Segunda Meditação, trazendo a certeza do próprio pensamento.

Paralelos: Montaigne e Descartes

Em Descartes, segundo Foucault, “A loucura afeta a verdade objetiva do sujeito que é sujeito pensante. Se penso, existo; se sou louco, não penso; portanto, se penso não sou louco e se sou louco nem penso nem existo”.[8] Sonho e loucura se diferenciam porque quanto ao homem que sonha “é possível supor que se está sonhando e identificar-se com o sujeito sonhador a fim de encontrar uma ‘razão qualquer para duvidar’”[9], o que o louco não pode, pois não pensa, “nem existe”. E a maior garantia para não se tornar este louco que não pensa é ter a primeira certeza das Meditações: cogito ergo sum. Assim, a razão será o fator crucial que separará o louco do são.

Em contrapartida, Montaigne tem a loucura como uma atitude de presunção e desmedida. O homem que pensa que pode responder a todas as perguntas apenas de acordo com a razão, para Montaigne, se encontra atuando como um louco. Em seus Ensaios, afirma ser prudente saber o limite em que se pode usar a razão e o juízo sobre o que é verdade e falso. Há coisas que não podemos ter juízo, que temos que ter apenas crença. Sendo este o lugar onde a razão não se encontra.

Assim, em uma disputa entre as duas idéias, Montaigne claramente diria que a atitude de Descartes é presunçosa, portanto, louca de não enxergar limite para o conhecimento da verdade pela razão. Enquanto Descartes pensaria ser Montaigne apenas um filósofo não provido do Método para distinguir a primeira certeza, o cogito, como  elemento de contraposição à loucura e meio para se conhecer a verdade.


[1] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 249

[2] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 250

[3] Nota de louco: O termo loucos corresponde ao latim amentes, ou seja, pessoas despossuídas de mente ou espírito, em suma, de pensamento, justo o que Descartes encontrará de mais verdadeiro em si mesmo; extravagante traduz demens, aquele que perdeu a mente, afastou-se dela. O latim joga ainda com o termo cucúrbita, que designa um cântaro ou uma ventosa geralmente feita de vidro, associando-o semanticamente a uma frase interior, não traduzida em francês, “ter cabeça feita de argila” (caput habere fictile); segundo os dicionários cucurbitœ caput, cabeça de cântaro, ou de ventosa, era expressão que indicava uma cabeça sem cérebro, oca por dentro; uma boa tradução, seguindo a conhecida expressão, seria”cabeça-de-vento”. Uma interessante interpretação desta passagem é dada por Michel Foucault. Em sua História da loucura, ele sustenta que a firme rejeição da hipótese da loucura do filósofo e do guiar-se pelo exemplo do louco que ocorre porque  mesmo no processo de dúvida, abundante em erros e ilusões, resta sempre um “resíduo de verdade”: não ser louco é condição de impossibilidade do pensamento”. A passagem das Meditações seria um exemplar maior do modo como o pensamento clássico considerou a loucura: pura negatividade, outro da razão que não participaria de modo algum do seu jogo, mesmo que dubitativo. O louco, a hipótese do Deus enganador, que logo aparecerá, eram as ameaças que deviam ser afastadas pela razão, possuída pelo sujeito que pensa. Cf. História da loucura na idade clássica, são Paulo, Perspectiva, 1991, parte I, cap. 2.

[4] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 252

[5] Daí ser certo dizer que as ciências dependentes da consideração de coisas compostas são incertas, como física e medicina. Já a aritmética e a geometria lidam com coisas simples e gerais, não se preocupando se seus objetos existem ou não.

[6] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 255

[7] DESCARTES, René, “Meditação Primeira”. Em Meditações, trad. De J. Guinsburg e Bento Prado Júnior, Col. “Os Pensadores”, S. Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 255

[8] TANNUS, Salma. Foucault e a história da filosofia. P. 17

[9] FOUCAULT, Michel. História da loucura. Editora Perspectiva. P. 46

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s