Foucault: paralelo entre a “loucura” em Montaigne e Descartes (parte 1)


Introdução:

Neste trabalho, é desenvolvido a temática da loucura da obra de Foucault, “A História da Loucura”. Mas não prolongando excessivamente, o foco aqui é o paralelo entre Montaigne e Descartes no assunto. Primeiramente, em Montaigne é explorado seu capítulo “da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso unicamente de acordo com a razão”. Posteriormente, em Descartes, a primeira meditação. E, como conclusão, o paralelo no olhar de Foucault com ênfase no segundo capítulo em seu livro já citado.

Montaigne: juízo, razão e loucura.

Não é sem motivo que atribuímos à simplicidade e à ignorância a facilidade com que certas pessoas acreditam e se deixam persuadir, pois”[1], Montaigne pensa que “acreditar [que uma coisa é verdadeira] é por assim dizer o resultado de uma espécie de impressão sobre a alma(…) Quanto mais a alma é vazia e nada tem como contrapeso, tanto mais ela cede facilmente à carga das primeiras impressões”.[2] Por outro lado, classifica de tolo o ato de condenar como falso o que não parece verossímil, o que diz ser comum aos que pensam ter mais razão que o homem normal – ele mesmo confessa ter já sentido pena destes que acreditavam nestes, que julgava, “absurdos” ou “falsidades”.

A experiência, diz Montaigne, acrescenta algo a suas primeiras convicções, embora ele tenha procurado verificar as crenças que recusava, mas sua razão o “impeliu a reconhecer que condenar uma coisa de maneira absoluta é ultrapassar os limites que podem atingir a vontade de Deus[3] e a força da natureza; “e que o maior sintoma de loucura no mundo é reduzir essa vontade e essa força à medida de nossa capacidade e nossa inteligência[4]”. E, para ilustrar o assunto, exemplifica: “quem nunca viu um riacho, ao deparar com o primeiro, pensou que fosse o oceano; as coisas maiores entre as que conhecemos, nós as estimamos as maiores em seu gênero[5]. Citando Cícero argumenta que nós “familiarizados com as coisas que cotidianamente vemos, não as admiramos mais e não procuramos entender as causas disso[6]. Daí considerarmos que as coisas que não nos são absurdas ou inexplicáveis serem consideradas naturais mais por hábito do que por ciência. “O infinito poder da natureza deve ser julgado com mais deferência e tendo em conta nossa ignorância e nossa fraqueza”, ou seja, o limite de nossa razão. Montaigne diz que observaríamos a regra do “nada de mais” que Quílon recomenda se: “aprendêssemos com exatidão a diferença entre uma coisa e outra, entre o que está contra a ordem e a natureza, e o que se situa simplesmente fora do que admitimos comumente, entre não acreditar cegamente e não duvidar com facilidade.[7] Pois, presunção exagerada é julgar impossíveis coisas pouco verossímeis a que nos são contadas, pois prudente tem de ser este julgar e não o é “vangloriar-se de saber até onde vão a possibilidade e a impossibilidade”.[8]

Mas, e quanto aos milagres, que se lêem e se ouvem, se tratam de ignorantes e de simples de espírito, ou de perversos e impostores? Sobre os grandes autores destes milagres, entre eles Santo Agostinho e Santo Hilário, diz, citando Cícero, que: “ainda que não trouxessem nenhum argumento razoável, eles me persuadiriam com a sua autoridade”.[9] Sendo, assim, é muito perigoso, para Montaigne, desprezar o que não compreendemos. Mesmo que não apresentem nenhuma prova, a não ser seu testemunho, singular presunção ou loucura seria opinar sobre o verdadeiro e o falso unicamente de acordo com a razão.

Assim, a seu ver, “o que acarreta tanta confusão em nossas consciências, nestes tempos de perturbações religiosas, é esse abandono parcial que fazem os católicos de sua fé[10]. “Ora, é necessário, em tudo, submetermo-nos aos poderes eclesiásticos que reconhecemos; ou tudo lhe recusamos”.[11]A glória e a curiosidade são dois flagelos de nossa alma; esta nos impele a meter o nariz em tudo; aquela nos proíbe deixar seja o que for sem decisão ou solução.[12] Mas, como se busca à prudência antes à loucura, se deve evitar pretender saber mais da verdade que o pode nossa razão e, desta mesma maneira, não julgar falso o que também não podemos julgar de acordo com a razão. Pois, aqui, verificamos o limite de nosso juízo ou opinar sobre as coisas e conseguimos dicernir que: loucura é o fato de pretendermos ir além deste limite para onde a razão não tem lugar e só resta acreditar ou não acreditar.

continua na parte 2.


[1] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 93

[2] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 93

[3] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[4] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[5] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[6] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[7] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[8] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 94

[9] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

[10] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

[11] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

[12] MONTAIGNE, Michel. Em Ensaios, trad. De S. Milliet, col. “Os Pensadores”. S; Paulo, Abril Cultural, 1972, p. 95

Um comentário em “Foucault: paralelo entre a “loucura” em Montaigne e Descartes (parte 1)

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