Desejo mimético: Girard e Kierkegaard (parte 1)

Introdução:

Neste trabalho mostrarei primeiramente na filosofia de Girard, o que é e como se dá o desejo mimético dentro do “mecanismo mimético” para, assim, como alvo central de reflexão tentar na medida do possível um equivalente na filosofia de Kierkegaard, em específico será usada sua obra intitulada de “Doença mortal”.

Girard:

Através de estudos sobre os mecanismos fisiológicos da violência, Girard descobre que tais mecanismos pouco variam de pessoa para pessoa ou cultura para cultura.

Esta violência apenas dorme no ser humano e, só quando despertada, precisa de uma válvula de escape para o homem violento encontrar sua serenidade temporária novamente. Como na análise de Girard sobre os ritos, que continham uma crise que deveria ser solucionada por meio da violência coletiva, isto é, o assassinato de um bode expiatório. Mas de onde advém a crise?

Para saber responder esta questão, teremos que nos aprofundar no conceito de desejo mimético girardiano. Em suas próprias palavras: “A expressão ‘desejo mimético’ refere-se apenas ao desejo que é sugerido por um modelo. Para mim, o desejo mimético é o desejo ‘real’ (…) a presença do modelo é o elemento decisivo na decisão do desejo mimético”[1]

Contudo, o que vem a ser desejo depende de como prosseguiremos agora. Se o desejo é individualizado, é pessoal e único. Mas se for fixo, não haverá diferença entre desejo e instinto. Assim sendo, o desejo é da qualidade de espécie e não indivíduo.

Todavia, “a mobilidade do desejo, em contraste com a fixidez dos apetites ou instintos, decorre da imitação. Aí reside a grande diferença: todos tempos sempre um modelo que imitamos. Só o desejo mimético pode ser livre, ser de fato desejo, pois tem de escolher um modelo”.[2] Assim, o sujeito nunca escolhe o que ele próprio quer, mas sim o que um outro – o modelo – deseja de objeto.

Desta maneira, como Santo Agostinho também observou em suas Confissões, do ato de desejar o desejo do outro, acaba que alguns desejam o mesmo objeto criando-se uma rivalidade mimética. Esta rivalidade não se baseia em apenas alcançar o que se quer para si, mas também em não deixar nada para o seu rival, seu par nessa corrida pelo objeto que desejam. E é esta rivalidade mimética que Girard vê ser proibida dentro dos dez mandamentos do Antigo Testamento: “o limite é o próximo”.

Em contrapartida, quando os mandamentos que nos limitam quanto ao próximo não são respeitados, temos a rivalidade. E, de tão pequena a proximidade de modelo e imitador, pois ambos desejam o mesmo objeto, cria-se uma indiferenciação entre eles. Desta forma, a produção de duplos é eminente e a rivalidade nesta altura só se faz aumentar.

Em tal situação, caminha-se sempre para uma simetria maior e, conseqüentemente, para mais conflito, já que a simetria só pode produzir duplos. Os duplos surgem com o desaparecimento do objeto, e, no calor da rivalidade, os rivais se tornam cada vez mais indiferenciados, idênticos.[3]

Assim, obtemos a crise mimética.

E a tendência é essa energia propagar-se em todas as direções, porque, uma vez em marcha, o mecanismo mimético só se torna mais atraente para os observadores: se duas pessoas estão disputando um mesmo objeto, então, deve tratar-se de alguma coisa pela qual vale a pena lutar, pensam os observadores, a quem tal objeto fica parecendo mais valioso. O objeto valorizado tende a provocar mais e mais cobiça, e, ao fazê-lo, a sua atratividade mimética somente cresce. Enquanto isso acontece, o objeto também tende a desaparecer, a ser dilacerado e destruído no conflito. Para que a mímesis se torne puramente antagonística, o objeto precisa desaparecer”.[4]

Desta forma, os números de membros de uma comunidade envolvidos neste antagonismo se torna tão cumulativa que é necessário um único “sacrificável” para ser a válvula de escape de sua violência. Numa descrição esquemática, Girard expõe o mecanismo mimético mais claramente:

O mecanismo expiratório encerra a crise, já que a culpa é transferida unanimemente para o bode expiatório. A importância desse mecanismo reside no fato de direcionar a violência coletiva contra um único mesmo da comunidade arbitrariamente escolhido. Essa última vítima se converte no inimigo comum da comunidade, que então se reconcilia em virtude da canalização da violência contra a vítima.[5]

Assim, explicitamos a ampla expressão de “mecanismo mimético”: “usada para designar o processo como um todo, o que inclui o desejo mimético e a rivalidade mimética, a crise mimética e a sua resolução pelo bode expiatório”.[6]

Para ir à discussão do desejo mimético em Kierkegaard clique aqui.


[1] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim.Vilar. TOPBOOKS, P.84.

[2] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.84-5.

[3] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim.Vilar. TOPBOOKS, P.87

[4] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.87

[5] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.88

[6] GIRARD, René. Um longo argumento do princípio ao fim Vilar. TOPBOOKS, P.84.

Um comentário em “Desejo mimético: Girard e Kierkegaard (parte 1)

  1. […] filosofia de Girard, o termo mímesis tem um objeto que é o desejo de um modelo escolhido pelo sujeito imitador. Já […]

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