Husserl – Investigações Lógicas – Capítulo 4 – Item 2/6 – Tradução Alianza Editorial

O caráter do ato que tem o significar. A significação é ideal e uma.

Assinalar este elemento psicológico comum, frente ao elemento psicológico varável, não é, “empero”, dar a conhecera diferença que queríamos mostrar nas expressões e respectivamente nos atos de expressão, isto é, a diferença entre seu conteúdo psicológico e seu conteúdo lógico. Porque ao conteúdo psicológico pertence, claro está, o que permanece igual de caso em caso, no menos que o que cambia. E em efeito, a doutrina nossa não quer dizer que o caráter do ato – caráter que permanece sempre igual – seja já a significação. Por exemplo, o que disse a proposição enunciativa: (letra ilegível) é um número transcendente, o que ao ler entendemos por isto ou ao falar recordamos, não é um rasgo individual, bem que sempre repetido, de nossa vivencia mental. Em cada caso é este rasgo, sem dúvida, individualmente distinto, enquanto que o sentido da preposição enunciativa é idêntico. Se nós, ou qualquer outra pessoa, repita a mesma proposição com igual intenção, cada uma tem seus fenômenos, suas palavras e seus momentos de compreensão. Porém, frente a esta ilimitada multiplicidade de vivências individuais, o que nelas é expresso pe em todo caso algo idêntico: é o mesmo, no sentido mais estrito da palavra. Com o número das pessoas e dos atos não se há multiplicado a significação da proposição; o juízo, no sentido lógico ideal, é uno.

Se defendemos aqui a estrita idealidade da significação e a distinguimos de esse caráter psíquico constante do dignificar, ele obedece não a uma predileção subjetiva pelas distinções sutis, sem a convicção teorética segura de que só dessa maneira respondemos a situação real, que é fundamental para a compreensão da lógica. Tão pouco se trata de uma mera hipótese que se justifique por sua eficácia explicativa, sem que a consideramos como uma verdade imediatamente apreensível, seguindo nele a suprema autoridade em todas as questões do conhecimento: a evidência. Vejo com intelecção que, em repetidos atos de representar e julgar, menciono – ou posso mencionar – identicamente o mesmo, o mesmo conceito, a mesma proposição. Vejo intelectivamente que, se se trata da proposição ou da verdade: (mesma letra ilegível) é um número transcendente, não me refiro para nada à vivência individual ou ao momento da vivência de uma pessoa. Vejo intelectivamente que este discurso reflexivo tem realmente como objeto o que no discurso direto constitui a significação. Por último, vejo intelectivamente que o que na citada proposição menciono ou – se a ouço – apreendo como sua significação, é identicamente o que é, penso eu e exista e existem em geral pessoas e atos pensantes, ou não. E o mesmo pode se dizer de qualquer significação de sujeito, significações de predicado, significações de referencia e de enlace, etc. Pode se dizer sobre todo das determinações ideais, que primeiramente só convém a significações. Entre elas – para recordar algumas especialmente importantes -, os predicados verdadeiro e falso, possível e impossível, geral e singular, determinado e indeterminado, etc.

Esta verdadeira identidade que aqui afirmamos, não é outra que a identidade da espécie. Assim e só assim pode abraçar como unidade ideal a multiplicidade das singularidades  individuais. As múltiplas singularidades com respeito a significação ideal e uma são naturalmente o correspondentes momentos do ato de significar, das intenções significativas. A significação mantém, pois, com os atos de significar (e a representação lógica com os atos de representar e o juízo lógico com os atos de julgar e o raciocínio  lógico com os atos de raciocinar) a mesma relação que, por exemplo, a espécie vermelha com as linhas (rayas) que vejo neste papel, linhas que tem todas esse mesmo vermelho. Cada linha tem, ademais, de outros momentos constitutivos (extensão, forma, etc), seu vermelho individual, é dizer, seu caso singular dessa espécie cromática, a qual, pór sua parte, não existe realmente nem nem linha nem em parte alguma desse mundo; nem tão pouco “em nosso pensamento” enquanto que este pertence igualmente a esfera de ser real, à esfera da temporalidade.

As significações constituem – podemos dizer também – uma classe de conceitos no sentido de “objetos universais”. Não por isso são objetos que existem, já que não em uma parte do “mundo”, ao menos num lugar celeste ou no espírito divino: pois semelhante hipotasis metafísica foi absurda. Quem se tem acostumado a entender por ser somente o ser “real” e por objetos objetos reais, haverá (habrá) de considerar radicalmente errôneo o falar de objetos universais e seu ser. Em troca, não verá nada de estranho nele que tome essas expressões, por de pronto, simplesmente como signos da validez de certos juízos, a saber: juízos onde se julga sobre números, proposições, figuras geométricas, etc.; e se pergunte se neste, como em todo, não haverá de conceder-se evidentemente o título de “objeto que verdadeiramente é” ao correlato da validez do juízo, a aquilo de que se julga. Em efeito: considerado logicamente, os sete corpos regulares são sete objetos, o mesmo que os sete sábios e o teorema do paralelogramo das forças é um objeto, o mesmo que a cidade de Paris.

HUSSERL, Edmund. Investigaciones lógicas. Alianza Editorial. pp. 287-8

Tradução: Paulo Abe

Clique aqui para a parte 3/6 desta tradução.

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