“Os umbrais da antropologia filosófica na obra de Dostoievski”

“Creio que a melhor definição que posso dar do homem é a de que se trata de um ser que se habitua a tudo”.- Dostoiévski[1]

Retrato de Fiódor Dostoiévski (1872), por Vassilij Grigorovič Perov. Fonte:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Fi%C3%B3dor_Dostoi%C3%A9vski

Retrato de Fiódor Dostoiévski (1872), por Vassilij Grigorovič Perov. Fonte: http://pt.wikipedia.org

Onde podemos encontrar a gênese dos conflitos entre os homens? E onde estão as cordas de amor que nos prendem em atos de solidariedade aos nossos semelhantes? No interior do homem digladiam forças antagônicas, num ímpeto tão vigoroso, que parecem estar prestes a nos despedaçar. Mas, ao mesmo tempo este caráter multiface do fenômeno humano nos capacita adaptar-se a quaisquer circunstâncias. Dostoiévski soube como poucos reproduzir em suas personagens (na maioria das vezes tão patéticas que é quase impossível que não nos identifiquemos com algumas delas) o imenso e intricado labirinto que é o “universo interior” do homem, povoado pelos mais tenebrosos “demônios”. Em seus romances todas as personas que carregamos dentro de nós figuram com tanta vitalidade que mal podemos distinguir se ao criá-las o autor olhou para dentro de si ou para dentro de nós. Todavia, não é improvável que ao olharmos para nosso interior com audácia, perspicácia, sensibilidade e sinceridade, vejamos o homicida e o filantropo, o adúltero e o bom marido, o luxurioso e o abstêmio, o jogador e o austero, o parricida e o filho amoroso, o homem vil e a criança dócil e indefesa ante um mundo mal. Personagens tão corriqueiros no mundo literário de Dostoiévski.  Corriqueiros  também no nosso mundo; o homem é um ser multidimensional, e,  esta característica tem suscitado tantas investigações cujos resultados são as mais variadas concepções sobre a natureza humana com as quais devemos lidar.


[1] DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. “Recordações da Casa dos Mortos”. Publicações Europa-América, 1972. Pág.15.

4 comentários em ““Os umbrais da antropologia filosófica na obra de Dostoievski”

  1. Mateus disse:

    Os escritos de Dostoiévski são realmente marcantes, e mostram como este escritor era corajoso e sincero ao descrever o que você chamou de fenômeno humano.

    A leitura que até hoje mais me marcou foi “Notas do Subterrâneo”, e uma coisa que realmente me chamou atenção é como o proceder da narrativa afeta o leitor, pois no início do livro, se tem a imagem de um personagem irreverente e assoberbado, que olha suas limitações com desprezo, e isto dá um tom heróico e encorajador que justifica o início profundamente filósofico da narrativa; no entanto, com o decorrer da história, nos deparamos com um personagem que não sabe lidar com suas fraquezas, e que tropeça constantemente em seus embaraços, e que ainda por cima tenta racionaliza-los constantemente (dando um aspecto cômico), e enganando a si próprio em sua superioridade subterrânea… neste momento, o que acontece é que ao mesmo tempo que o personagem se trai, o leitor também se traiu, pois acabou identificando-se, anteriormente, com o personagem, e agora toma nojo deste mesmo ser hipócrita.

    Alguns amigos passaram por exatamente a mesma coisa, e alguns até pararam de ler por desprezo, mas talvez não entenderam que o personagem de Dostoiévski mostrou-lhes as próprias falhas, e a comédia e tragédia da vida humana.

    • Carlos Eduardo Bernardo disse:

      Caro, Mateus!
      Realmente o “homem subterrâneo – do subsolo” é uma personagem paradigmática. Podemos dizer que a obra de Dostoievski, à que se refere, é um livro para todos e para ninguém – parafraseando o subtítulo da obra de Nietzsche. Aliás, este último disse acerca de “Memórias do Subsolo” […] A voz do sangue (como denomina-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites” (Carta a Overbeck) . Receio, todavia, que você não possa partilhar seu entusiasmo com muitos amigos; mas, afinal, como disse Kierkegaard “Nessas regiões, não se pode pensar em ir acompanhado”. (Tremor e Temor).
      Muito obrigado por sua apreciação
      E um abraço.
      Carlos Eduardo Bernardo

    • Gabriel Luna disse:

      Uma análise de certa forma resumida mas com uma profundidade incrível! Uma das melhores definições que vi a respeito do “homem do subterrâneo”. Muito obrigado por partilhá-la.

      • Carlos Eduardo Bernardo disse:

        Grato, Gabriel.
        Espero que continue apreciando nossas postagens. Dostoiévski é um dos autores que mais alimentam minhas reflexões sobre o humano.
        Espero um dia mover minhas pesquisas em antropologia filosófica em direção à leitura de suas obras.
        Um abraço afetuoso!
        Carlos E. Bernardo

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