Análise da obra “A repercussão da tragédia antiga na tragédia moderna” de Sören Aabye Kierkegaard .

Kierkegaard inicia esta obra anunciando que toda evolução histórica sempre se instalará dentro dos limites que abarcam a noção de trágico correspondente, isto é, o mundo está em constante mudança, e o mundo moderno é um mundo extremamente distante do antigo, contudo, a idéia do trágico continua a mesma. Não existe uma diferença absoluta entre a tragédia antiga e a moderna, pois se assim fosse, o trágico não existiria em essência, seria meramente contingência.

A tarefa dessa obra, identifica Kierkegaard, não consiste em apenas relacionar a tragédia antiga e a moderna, e sim mostrar de que modo as características da tragédia antiga se fundem na tragédia moderna, de tal maneira que os elementos propriamente trágicos se façam mostrados nela.

A importância do trágico na filosofia Kierkegaardiana é patente em todos os seus escritos, pois parte do pressuposto de que a existência humana é marcada pelo desespero e pela angustia. O desespero e a angústia são manifestos no homem, pois este é constituído de opostos polares (finito e infinito, temporal e eterno, liberdade e necessidade) que se relacionam, e é essa discordância que constituí o eu.

Para Peter Szondi, na filosofia de Kierkegaard, o trágico faz parte do homem desde seu inicio (mas não necessariamente, a filosofia de Kierkegaard é trágica)1. O homem, como diz kierkegaard, é um animal vertical (faz parte de dois mundos) e por isso se angustia, e a angústia, como sendo uma potência que nos atrai e também nos retém (não possui um objeto determinado, pois está sempre relacionada ao passado ou ao futuro) é uma verdadeira categoria trágica.

Voltando ao texto “tragédia antiga e tragédia moderna”, Kierkergaard faz um diagnóstico de sua sociedade contemporânea e do homem moderno, identificando que sua época se conduz para o cômico, pois os indivíduos se isolam. O homem isolado, o é integralmente, quando aspira se fazer valer como número, e não importa se é um ou cem, o número em si é sempre algo indiferente. As inúmeras associações (que são formas gregárias de organização) não fazem mais do que desmascarar a dissolução da época, contribuindo, elas mesmas, a acelerá-la.

A época moderna (e a tragédia moderna) possui uma peculiaridade típica sobre aquela época grega antiga, é mais triste e profundamente desesperada. A época moderna é bastante melancólica, portanto seu desespero é mais profundo (as pessoas não possuem responsabilidade). A responsabilidade é sempre passada a outro (as pessoas só aceitam um cargo, ou determinada tarefa, se outras pessoas se responsabilizarem pelos atos), não estando ninguém disposto a possuí-la.

Na tragédia antiga, a subjetividade dos indivíduos não estava constituída, não era uma época reflexiva. Em última instância, o herói trágico (e o indivíduo antigo) tinha as suas ações determinadas pelo Estado, pela família e pelo destino, havia uma substanciabilidade de relações. Antígona, carregava sobre suas ações o peso da falta hereditária (que foi a maldição imposta aos Labdácidas, por Pêlops), suas ações não eram reflexivas e autônomas, mas tinha a consciência de que o destino dela seria do jeito que foi e não havia nada que ela pudesse fazer.

O herói moderno perde o trágico, e ganha o cômico (que é o que isola) e o desespero mais profundo, que é o demoníaco, e o cômico aparece em toda personalidade isolada que, frente aos problemas, pretende resolvê-los sozinho. Hamlet faz isso, é um paradigma do tempo da reflexão, pois possui o desespero que corrói e que se quer resolver tudo sozinho.

Desse ponto de vista, a presença de Cristo é a tragédia mais profunda, mas em outro sentido é muito mais que uma tragédia, pois Cristo veio em uma época de excessos e carregou sobre seus ombros o pecado (a falta) do mundo inteiro. Cristo veio no momento oportuno (o Kairós grego). Para Kiekegaard o instante é uma pequena fração de tempo muito importante para o resto de nossas vidas, pois é no instante que tomamos as decisões mais importantes de nossa existência, e Cristo vem ao mundo no tempo propício e sua proposta ao homem é feita no momento exato.

Aristóteles define as fontes da ação na tragédia como sendo o raciocínio e o caráter, mas sua análise é apenas do ponto de vista formal. Na tragédia antiga, a ação não procede meramente do caráter, além de não ser subjetivamente reflexiva, desfrutando de uma relativa parte de indolência. Os diálogos não são desenvolvidos com um grau de reflexão em que tudo aparece de maneira transparente. O coro aparece, justamente para demonstrar a falta de subjetividade individual do herói antigo. A subjetividade não era auto-reflexiva e dependiam, como dito anteriormente, da família, do Estado e do destino, e esses motivos decisivos são o que justificam a fatalidade na tragédia antiga, e impõem sua peculiaridade.

Na tragédia moderna a caída do herói não é nada mais que uma ação, subjetiva e individual, do homem isolado e desesperado profundamente. O homem moderno, através da subjetividade refletida em si mesmo, carrega sua falta sozinho. No trágico antigo o herói está entre o agir e o sofrer, o moderno está apenas no agir individual.

Dois pontos nos parecem fundamentais para compreender mais integralmente no que consiste a diferença entre a tragédia antiga e a moderna: as ideias de tristeza e dor. A tristeza permeia o mundo antigo, e suas demonstrações são explicitas. Filoctetes, quando abandonado ferido na ilha deserta, grita desesperado a sua solidão e a dor de sua ferida, não existia algo implícito, senão o que ele mesmo expressava. Antígona também, quando emparedada, expressa a tristeza de sua situação (obviamente, nao deve ser muito bom ser emparedado vivo), mas não implica em uma reflexão mais subjetiva. O herói moderno possui a dor, pois esta implica uma subjetividade refletida, e a angústia aprofunda ainda mais a dor no coração do homem.

Kierkegaard, procura ao identificar as diferenças entre as duas tragédias, buscar a essência do trágico, e escreve sua própria Antígona.

Em sua Antígona, aponta, os acontecimentos são os mesmos, mas tudo é diferente. Sua personagem possui uma ligação subjetiva e substancial com seu pai, carrega o segredo de seu pai, o espinho na carne, que Kierkegaard identifica em sua própria história pessoal. Quando Édipo morre, Antígona precisa silenciar-se, não possuindo ninguém mais para compartilhar esse segredo tão íntimo. Sua vida está tão enterrada quanto seu segredo. Carrega a falta de seu pai como sua própria falta, e se sente orgulhosa de o carregar, pois mantém a glória e o orgulho da família de Édipo intactas.

Um grau de moralidade se encontra na trajetória da Antígona de Kierkegaard, pois não pode se casar, justamente por possuir esse segredo, e não pode compartilhar com ninguém. O casamento religioso não permite que haja segredos entre marido e mulher. Mas Antígona é esposa da tristeza, e passa toda sua vida a lamentar o destino de seu pai, e o seu próprio.

A Antígona de Kierkegaard, como também a grega, não suportaria que seu irmão morto ficasse no meio do campo sem receber as honras póstumas, e experimenta a dureza que é, o desconhecimento dos homens em relação, aquele ao qual, é o motivo de sua angustia. Não tendo derramado uma só lágrima por seu irmão, Antígona fica quase agradecida pelos deuses terem elegido-a para esse doloroso papel. Antígona é enorme em sua dor. O que caracteriza a subjetividade refletida, patente da tragédia moderna.

Trazendo a essência do trágico, Kierkegaard coloca em sua Antígona todos os traços do verdadeiro trágico. A dor e a tristeza, a angústia que aprofunda ainda mais essas características e o destino, pois carrega o segredo de seu pai.

Muitos outros pontos podem e devem ser identificados, mais nos restringiremos a esses, e apesar de uma primeira leitura e análise sempre serem deficientes, acreditamos estar bem fundamentados os pontos essenciais da obra Kierkegaardiana.

1Ver o livro de Peter Szondi: Ensaio Sobre o Trágico. Tradução de Pedro Sussekind. Jorge Zahar editora.

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