Análise da argumentação, da primeira parte do “Protágoras”, de Platão

Introdução

O diálogo Protágoras, cujo gênero é o demonstrativo, tem como objetivo investigar a natureza da virtude e, por conseguinte, demonstrar se é passível ou não de ser ensinada.

O texto possui uma pequena introdução, onde Sócrates dialoga com um amigo sobre a beleza de Alcibíades (considerado o rapaz mais belo de Atenas), e conclui que existe um homem mais belo que o jovem ateniense.

Sócrates afirma, através de uma pergunta, que a sabedoria é mais bela que atributos unicamente físicos: “Como poderá deixar de ser mais belo, meu caro, quem é mais sábio?”1

Mas quem seria esse homem mais belo que Alcibíades, que chamou tanta a atenção de Sócrates? Era um estrangeiro, Protágoras de Abdera, considerado o primeiro dos sofistas e também um dos homens mais sábios da Grécia antiga. Platão, escrevendo através do personagem de Sócrates, com muita ironia responde, quando perguntado pelo amigo se ele vinha do encontro com algum sábio: “O homem mais sábio de nosso tempo, se também fôres de parecer que Protágoras é o mais sábio entre os homens.” 2

Sócrates (Platão), não acredita realmente que um sofista seja o mais sábio entre os homens, dato o fato de sabermos, através de outras obras de Platão, que os sofistas ensinam saberes aparentes, preocupados apenas em provocar as paixões (pathos) dos ouvintes e não conhecerem de fato, as virtudes que se propõem a ensinar.

O amigo de Sócrates, propõe então, que Sócrates lhe conte como foi o encontro com o sábio Protágoras e de que assunto trataram. Começa nesse ponto, a investigação de Platão, acerca da virtude e da possibilidade de ser ou não ensinada.

A alma, os sofistas e a virtude

O texto começa propriamente, quando o jovem Hipócrates aparece batendo violentamente à porta da casa de Sócrates, exclamando que Protágoras chegara em Atenas. Devido à inquietude do jovem, Sócrates pergunta se o sofista teria o ofendido, e Hipócrates responde: “Sim, pelos deuses, Sócrates; por ser sábio só para si e não me comunicar o que sabe”

Na fala seguinte, podemos identificar claramente a ideia que Sócrates (Platão) possui dos sofistas: “Por Zeus, lhe repliquei; se lhe deres dinheiro e o persuadires, deixar-te-á também sábio”3

Imediatamente Hipócrates suplica a Sócrates, para levá-lo de encontro ao sofista, afim de ser educado pela imensa sabedoria de Protágoras.

Antes do encontro com o sofista, Sócrates interroga o jovem sobre a natureza do ofício do sofista. A argumentação é feita através de analogias, em relação à arte ensinada e à formação posterior. Sócrates afirma que se Hipócrates desse dinheiro para um médico, visando sua formação, seria para se formar em medicina. Se pagasse um escultor, visando também a sua formação, seria para se formar escultor, mas e quanto ao sofista? Hipócrates responde que segundo a argumentação precedente, não haveria como responder outra coisa, e necessariamente, quem busca se educar com o sofista, seria para se tornar um sofista. Mas o jovem heleno diz que teria vergonha de se apresentar como sofista, e nem pretende ser um sofista. Pretende visitar Protágoras, não em vista de ensino profissional, mas sim “apenas para fins educativos, como convém a um jovem particular e livre”.4

Mas o que é um sofista, pergunta Sócrates, afim de identificar se Hipócrates realmente sabe para quem está entregando sua educação. O jovem afirma que o sofista é um homem cheio de sabedoria (sophia), que ensina as pessoas a falar bem. Sócrates, através das analogias, novamente identifica o conhecimento de uma arte (techné) à uma sabedoria específica, científica (episteme), e exemplifica: um citaredo sabe, além de ensinar a tocar cítara, a falar bem sobre essa arte. O sofista sabe falar bem a respeito de que? Hipócrates não possui resposta, fica sem saída (aporia).

Dado o fato de Hipócrates não saber absolutamente nada, nem a respeito do que seja um sofista e nem do que ele ensina, Sócrates o questiona sobre o ato impensado de se entregar, ingenuamente, aos cuidados de Protágoras: “Se tivesses de confiar teu corpo a alguém, correndo o risco de deixá-lo mais forte ou de estragá-lo, havias de refletir mais de espaço antes de tomares qualquer resolução; procurarias aconselhar-te com amigos e parentes e meditarias sobre o assunto dias seguidos; e por uma coisa que consideras muito superior ao corpo, por tua alma, de que dependerás sêres feliz ou desgraçado, conforme venha ela a ficar forte ou a estragar-se, por tua alma, não te aconselhaste nem com seu pai, nem com teu irmão, nem com nenhum de nós(…).”5

Sócrates afirma ser a alma superior ao corpo, e dependendo do conteúdo que a alimenta, pode-se macular e tornar doente a parte mais divina do homem.

O sofista, é definido por Sócrates como um tipo de mercador, ou traficante de vitualhas para alimentar a alma. O alimento da alma, por conseguinte, é o conhecimento.

Depois desse percurso podemos extrair a seguinte argumentação:

Se a alma é o que o homem possui de mais importante, e seu alimento são os conhecimentos, portanto, maus conhecimentos macularão a alma e bons conhecimentos elevarão a alma.

O sofista não possui conhecimentos verdadeiros (segundo Sócrates), portanto bons, apenas produz um pseudo-conhecimento, se preocupando apenas em provocar as paixões (pathos) dos ouvintes e não a elevação da alma. Por conseguinte, os sofistas maculam as almas alimentando-as com maus conhecimentos.

. . .

Sócrates identifica que, quanto aos alimentos referentes ao corpo, os mercadores elogiam-nos indiscriminadamente, ignorando se fazem bem ou mau para a saúde do corpo, se preocupando apenas em fazer propaganda de seus produtos. Os que compram também ignoram a nocividade ou a beneficência desses alimentos, a menos que haja algum médico ou pedótriba por perto para avaliá-los. No caso da alma isso ainda é mais grave, pois os alimentos do corpo podem ser adquiridos mediante a avaliação da boa aparência ou do bom odor, e podem ser guardados em vasilhas ou em algum lugar em casa, para uma posterior avaliação de um especialista. Os mercadores de alimentos da alma, ignorando se seus conhecimentos são nocivos ou benéficos, os propagandeiam sem avaliar conseqüências prejudiciais, e os compradores igualmente ignoram a utilidade ou nocividade desses alimentos, salvo se existir entre eles algum médico da alma.

Contudo, “no caso de conheceres o que neste particular é vantajoso ou prejudicial para a alma, poderás comprar conhecimentos sem perigo nenhum, não só de Protágoras como de qualquer outro sofista; mas se ignoras isso, acautela-te, meu caro, para não arriscares num simples lanço de dados o que tem de mais estimado, pois corremos muito maior perigo na compra de conhecimentos do que na de alimentos para o corpo”.6

Os conhecimentos não podem ser armazenados em vasilhas, uma vez adquiridos, vão direto para a alma, e seus portadores podem, ou se saírem grandemente prejudicados ou beneficiados.

Todas essas informações servem, tanto como conclusões provisórias, quanto como premissas para a conclusão final de Sócrates (Platão), tendo em vista que:

  • A alma é a parte mais importante dos homens.

  • Os sofistas são mercadores, ou traficantes de vitualhas para a alma.

  • Se alimentares sua alma com conhecimentos nocivos, sua alma será prejudicada.

Sócrates, através dessas conclusões extraídas da conversa com Hipócrates, irá utilizá-las como premissas contra a argumentação de Protágoras, em relação à virtude poder ou não ser ensinada.

Essas informações estarão pressupostas em toda a argumentação socrática, ao longo da segunda parte do diálogo, ao qual postaremos, quando esta estiver devidamente analisada.

1Platão. Protágoras in Diálogos. Tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 227, 309c.

2________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 228, 309d.

3________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 229, 310d.

4________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 230, 312b

5________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 231, 313a.

6________________________.  São Paulo: Ed. Melhoramentos. 1970, P. 232, 313e.

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