Kierkegaard e o Indivíduo

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O Indivíduo.

Na filosofia de Kierkegaard, o Indivíduo foi elevado “ao nível de elemento central do pensamento filosófico, sublinhando as diferenças que são características da subjetividade[1]. Neste caminho, Kierkegaard, a partir de seu ataque à filosofia especulativa, especialmente ao sistema hegeliano, ou seja, que

O pensamento especulativo repetidamente tenta alcançar a realidade dentro de seu próprio domínio (do pensamento), assegurando-nos que o que é pensado é real, e que o pensamento não é somente capaz de pensar a realidade como também lhe conferir a existência (enquanto a verdade participa diretamente dele)[1]

Afirma, em contraposto, que a “existência corresponde ao Indivíduo, à realidade singular”[2], não coincidindo com o conceito, pois o homem singular não possui existência conceitual. Assim, desmascara a mentira dos sistemas filosóficos, que se importam mais com conceitos do que com a existência, ou seja, que, com relação a seus modos de viver, constroem castelos conceituais, mas vão morar no celeiro. Pois, este idealismo nega o status ontológico do Indivíduo (particular), daquilo que individua cada eu e o faz distinto.

Kierkegaard vê que Hegel, com seu intuito de saber tudo, ver com os olhos de Deus, inclusive “explicar racionalmente todos os mistérios do cristianismo, o que levaria à secularização total da fé[3], não consegue lidar com a existência, ou seja, o próprio Indivíduo. Como, pensa Kierkegaard, pode alguém que presume discorrer sobre o Absoluto não entender a existência humana? Isso não é possível. O sistema em sua totalidade, segundo Kierkegaard, não é importante para compreender a existência: “o Indivíduo, ética e religiosamente acentuado ou existencialmente acentuado”[4] está sempre e de qualquer modo fora do sistema.

Assim, Kierkegaard propõe uma nova forma de filosofia, deslocando seus interesses, desmerece o sistema especulativo da filosofia e diz não ser esta última a verdadeira filosofia. A nova filosofia de Kierkegaard, além desta ou daquela ciência, se dedica a como existir, como, com consciência, compreender-se a si mesmo, o Individuo.

O Indivíduo conta mais do que a espécie: o Indivíduo é a contestação e a rejeição do sistema. E, ao mesmo tempo, também é o Indivíduo – original, irredutível, insubstituível – que põe em xeque todas as formas de imanentismo e de panteísmo, com as quais se tenta reduzir, isto é, reabsorver o individual no universo.[5]

Ou seja, o Indivíduo é, ao contrario do que Hegel pensava, de acordo com a filosofia kierkegaardiana, superior ao universal. Não como os animais em que o Indivíduo é inferior ao gênero, mas pelo “gênero humano, justamente porque cada indivíduo é criado à imagem de Deus, tem a característica de ser o Indivíduo superior ao gênero[6].

Assim, o Indivíduo se torna o sustentáculo da Transcendência, pois, para Kierkegaard, o Indivíduo é e permanece sendo a “âncora que detém a confusão panteísta, é e permanece sendo o peso com o qual se pode comprimi-la”. Deste modo, exaltando o Indivíduo, há uma desvalorização da massa, do público, não sendo esta comunidade na qual o Indivíduo é reconhecido como um Indivíduo livre e responsável[7][8]. Caindo a verdade na subjetividade do Indivíduo, nas raízes da “existência concreta e integrada de cada Indivíduo particular[9].

Portanto, o que é indispensável não é tanto conhecer a verdade, mas sim introduzi-la na existência. Em outras palavras, cada Indivíduo deve viver em função de uma idéia concreta que seja para ele o ideal de uma existência vivida[10].

A finalidade da existência consiste em tornar-se si mesmo diante de Deus, deste modo,  Kierkegaard garante que o Indivíduo se tornará cristão.

Portanto, se o “Indivíduo” e o “fato de ser cristão” são correlatos e se “ser cristão” é o mesmo que ter “fé”, que filosofia é esta da fé? Aqui não se trata disto, uma vez que a filosofia seja concebida como a demonstração de algo pela razão, pois a verdade, para Kierkegaard, a verdade cristã não se trata de demonstrar e, sim, testemunhar, como a Revelação ou Jesus, o eterno no tempo, e “reproduzi-las” na própria vida. Assim, neste testemunho de fé, a verdade, para Kierkegaard, é subjetiva: ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus.

“A lei da existência (que, por seu turno, é graça) que Cristo instituiu para ser homem é: põe-te como Indivíduo em relação com Deus”. O “cavaleiro da fé” “não dispõe em tudo e por tudo senão de si mesmo, em isolamento absoluto”. Mas esse fato de isolamento diante de Deus é, “para o pobre homem, algo de imensamente angustiante”. E, consequentemente, ele fica com medo, não ousa se pôr em relação com Deus e considera mais prudente ser “como os outros”. [11]

Mas Kierkegaard não apenas especula que as pessoas achem “mais prudente ser como os outros”. Ele vive em meio a este meio mimético e faz, desta experiência uma ligação direta à toda sua filosofia,. Pois, na visão kierkegaardiana, em meados do século XIX, os dinamarqueses, após seu colapso econômico em 1813 e sua derrota militar frente aos britânicos, rapidamente se recuperam e alcançam, de modo geral, o conforto burguês, a segurança econômica, o bem-estar, ou seja, daí aprenderam a se guiar pelas luzes da prudência e do senso comum.

Tal “época de reflexão”, devido à filosofia especulativa, na qual, “o indivíduo singular não fomentou suficiente paixão para livrar-se da armadilha da reflexão[12], não foi somente tecida pelos filósofos, mas pela própria modernização. Kierkegaard percebe que tais mudanças sociais não passariam sem sequer tangenciar o espírito humano e, sim, pelo contrário, lhe causariam um impacto profundo. Assim, este impacto, modelava a auto-compreensão dos seres humanos individuais e tornava a política “uma caricatura desastrosa da religiosidade[13]. E toda estas mudanças foram aceitas com entusiasmo, como bênçãos.

O dinheiro desta sociedade acaba por ter uma força niveladora, o que receia Kierkegaard, pois ele viu nesta abstração da igualdade a mais pura representação da humanidade, na qual “uma vez que o indivíduo torna-se uma pessoa no sentido completo e igualitário, ele não pertence mais a Deus, a si próprio, ao amado, à sua arte, ou ao seu aprendizado; não assim como um servo pertence a um senhor, assim o indivíduo percebe que, em todos os aspectos, ele pertence a uma abstração na qual a reflexão o subordina[14]. Assim, esta abstração, é, com efeito, obra de sua imaginação. E, na medida em que o indivíduo só existe num sentido externo como um número na multidão, cá, na verdade, se encontra “a destruição do indivíduo[15]. Desta maneira, desprovido de qualidades que o distinguem do grupo ou dos outros indivíduos, o único atributo e a única identificação remanescente é a quantitativa, isto é, um número.

Mas esta vida burguesa e de identidade apenas quantitativa, a partir do momento em que seu conforto é alcançado, alcança juntamente sofrimentos burgueses, como o tédio e a inveja. Assim, tendo em mente isto, ao contrário dos filósofos reflexivos, Kierkegaard procura atender à “falha destes filósofos e discutir os desejos, paixões, desesperos, egoísmos, fé, obrigação, responsabilidades, ansiedades, invejas, medos, liberdades, passado, presente e futuro que individuam-no como um ser humano único[16].

Portanto, Kierkegaard, em seu livro “A doença para a morte”, para discutir o desespero de uma forma singular, cria uma atmosfera própria individual do estádio religioso, usando o pseudônimo Anti-Climacus, o verdadeiro cristão, para dar seu “testemunho”.


[1] KIERKEGAARD, Soren. Concluding Unscientific Postscript. p. 283.

[2] KIERKEGAARD, Soren. Diário, X2 A, 328.

[3] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P.6

[4]

[5] REALE, Giovanni. História da Filosofia, Volume III. PP. 243

[6] KIERKEGAARD, Soren. Diário, X2, A, 426.

[7] KIERKEGAARD, Soren. Diário, X2, A, 390.

[8] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P. 7

[9] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P. 7

[10] GILES, Thomas R. História do existencialismo e da fenomenologia. 1937. Editora pedagógica e universitária ltda. P. 7

[11] REALE, Giovanni. História da Filosofia, Volume III. PP. 244

[12] KIERKEGAARD, Soren. Two Ages. P.69

[13] KIERKEGAARD, Soren. JP, 4:4238

[14] KIERKEGAARD, Soren. Two Ages. P. 85

[15] MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844, trad. Martin Milligan (Nova Iorque: International Publishers, 1964) p. 167. In: Two Ages.

[16] ELROD, John W. Paixão, Reflexão e Individualidade.

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