Kierkegaard – O terceiro estádio da vida é o estádio religioso.

O terceiro estádio da vida é o estádio religioso.

Não há ligação entre o estádio ético e o estádio religioso. O que há entre eles é um abismo que dá vertigem ao Indivíduo tamanho seu absurdo. E, para ultrapassá-lo é necessário a suspensão teleológica da ética que, na verdade, é a ação moral real, não sua dispensa, mas sua plenitude, seu além. Ou seja, o salto da fé. “Mas a fé não é um princípio geral; é uma relação privada entre o homem e Deus, uma relação absoluta com o absoluto[1]. E, usando Abraão no sacrifício de seu filho como exemplo em “Temor e tremor”, Kierkegaard nos alerta que este ato não é exceção e que devemos, sim, reproduzi-lo, pois sabe que “nenhum sacrifício é demasiadamente pesado quando Deus o pede – por isso [Abraão] puxou a faca[2].

Abraão, pelo absurdo,

Constantemente efetua o movimento do infinito, com tal segurança e precisão que sem cessar obtém o finito sem que se suspeite a existência de outra coisa. Imagino que, para um bailarino, o esforço mais difícil consiste em colocar-se, de um só golpe, na posição precisa, sem um segundo de hesitação[3].

E, efetuando tal feito, faz alcançar para si, não prazer ou uma felicidade do dia-a-dia, mas “a visita perturbadora da alegria, pela qual Kierkegaard faz uma magnífica ação de graças em ‘A doença para a morte’[4]:

Eis o motivo pelo qual – diz o autor – minha voz se elevará no júbilo, mais forte que a voz da mulher que deu à luz, mais forte que o grito de alegria dos anjos por um pecador que se arrepende, mais alegre que o canto dos pássaros ao raiar do dia: pois o que eu procurei, achei; e mesmo que os homens me arrebatassem tudo, mesmo que me excluíssem de sua sociedade, eu conservaria, mesmo assim alegria; ainda que me tomassem tudo de volta, conservaria sempre a melhor parte, o espanto repleto de felicidade que nos trazem o amor infinito de Deus e a sabedoria dos seus desígnios[5].

Mas essa alegria não se trata de obtê-la num além-mundo e, sim, de transfigurar-se neste mundo. Assim Abraão o fez indo para o monte Morija com seu filho Isaac e retornando para sua cidade depois. Ele “salta”, mas toca o chão novamente, não se tratando, então, aqui de alçar vôo em direção a Deus, contudo, pelo contrário, trata-se de tangenciá-lo no instante de fé absoluta e, como o bailarino, retornar a este mundo com a leveza do repouso, a alegria.

Deste modo, o Indivíduo cristão ou no estádio religioso é si mesmo e com consciência disto, uma vez que aceita sua relação com Deus em equilíbrio. Todavia, a sina deste cavaleiro da fé não se resume a “saltar”, pois “não há refúgio a não ser na fé[6], mas, também, ele deve fazê-lo sozinho. E, já que possui uma consciência de si maior que os seres dos outros estádios, proporcionalmente, possui maior desespero também, pois, ao mesmo tempo que se depara consigo, está aos pés do próprio Deus.


[1] ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Volume 10. Editorial Presença. PP. 13-4

[2] KIERKEGAARD, Soren. Temor e Tremor. Coleção: Os pensadores. Abril Cultural. P. 263

[3] KIERKEGAARD, Soren. Temor e Tremor. Coleção: Os pensadores. Abril Cultural. P. 274

[4] FRANCE, Farago. Compreender Kierkegaard. Editora Vozes. P. 126

[5] FRANCE, Farago. Compreender Kierkegaard. Editora Vozes. PP. 126-7. Apud. KIIERKEGAARD, Soren. A doença para a morte.

[6] FOULQUE, Paul. O existencialismo. 1955. Coleção “Saber Atual”. P. 114

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