O significado cósmico da habitação humana.

Riad - Figura do Jardim Primordial

Nas grandes tradições religiosas Deus e o universo são tidos como o macrocosmo e o homem como o microcosmo, este carrega em si de modo análogo as mesmas particularidades existentes no macrocosmo. Essa correspondência possibilita estabelecer analogias úteis para o nosso aprimoramento espiritual. As grandes tradições do Espírito sempre consideraram que a analogia entre o macrocosmo e o microcosmo também pode ser aplicada a templos e a todo tipo de edifício construído com objetivos sagrados (quer trate-se de mesquitas, sinagogas, stûpas ou catedrais cristãs)!
Porém, cremos como alguns eruditos (e neste caso pensamos em Guénon ), que as habitações humanas também podem ser objetos dessa analogia. Pois, há uma transposição do templo (neste caso como macrocosmo) para a residência (como microcosmo), sempre guardando as devidas proporções. Isso mostra a sacralidade do lar e qual seja a dinâmica espiritual do homem em sua habitação que deve tornar-se um ritual doméstico de exaltação ao Altíssimo. A própria palavra habitar (em latim habitare) deriva da palavra hábito (em latim habitus), um hábito é algo que fazemos de modo regular e com uma certa constância, de modo a tornar-se uma inclinação, no latim habitare se liga etimologicamente a habere (ter), logo é algo que temos devido à interiorização, daí a relação com ritual, aquilo que se compõe de determinados, gestos, atos e palavras que têm um significado místico, transcendendo a mera forma. Isso significa que a habitação, o lar tem um significado mais que meramente utilitário, a habitação humana é também um microcosmo refletindo o macrocosmo. Essa característica foi mantida nas sociedades tradicionais, o modelo islâmico é muito significativo neste ponto, suas residências possuem os pisos (ou as bases) quadrados ou retangulares (quadrado duplicado) e os tetos abobadados. Nas tradições espirituais o quadrado simboliza a terra e o círculo o céu (no caso, o domo é um semicírculo e símbolo da abóbada celeste). As residências tradicionais são construídas de modo quadrilátero, ao redor de um pátio interior, assim sobre este se constitui um vão livre, um espaço onde o domo é substituído pela real abóbada celeste, afirmando ainda mais o seu caráter simbólico, neste ponto se encontra também um jardim com uma fonte, simbolizando o “Jardim Primordial”, o paraíso onde viveram nossos primeiros pais, a fonte não é outra, senão a fonte da vida, e embora a árvore nem sempre esteja presente, a fonte também faz vezes à “Árvore da Vida”, bem no centro do jardim. Porque, isso indica o local onde podemos nos encontrar com Deus, no centro, a árvore é um símbolo axial, bem como a fonte, o fato de elas estarem no centro e serem atraídas para cima pela lei natural, as caracterizam como colunas ou pontos de ligação entre “reino celeste” e o “reino terrestre”, entre o “em cima” e o “embaixo”, entre Deus e os homens!
Nas residências tradicionais da Índia não há distinção entre sala e cozinha, o fogo é acesso no lugar principal da casa e simboliza a manifestação de Agni (na tradição védica, deus do fogo), da mesma forma os lares tinham suas estátuas próximas ao fogo, ali seria aceso nos corações humanos o desejo pelas coisas celestiais (espirituais) e pelo mundo porvir!
Podemos dizer, enfim que os edifícios eram construídos com significados cósmicos implícitos; e suas estruturas representavam a formação do mundo e (ou) a hierarquia cósmica! Com o evidente declínio do mundo moderno as residências são construídas apenas com fim utilitários. Mas, não totalmente arreligiosos, pois no fundo há uma religiosidade às avessas, onde o consumo é a prática da “fé” e as posses materiais garantias de status social!
Por que será que bem no centro de nossas residências (as salas) estão instalados os televisores, os home theaters e os dvds? Objetos poderosos não apenas para o entretenimento, mas também para a formação de nossas opiniões, de nossos valores e principalmente de nossos anseios!

Bibliografia
GUÉNON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada. São Paulo, Editora Pensamento, 1993.
RIFFARD, Pierre A. O Esoterismo – O que é esoterismo? Antologia do esoterismo ocidental. São Paulo, Editora Mandarim, 1996.

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