Análise Da Estrutura Lógica Do Texto Fédon De Platão

Por: André Luíz Avelino

1 – Argumento à imortalidade da alma: teoria dos contrários.

P1 – Se é verdade que as almas dos que morrem estão ou não no Hades (o invisível) e se regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. (XV)

P2 – Todas as coisas contrárias nascem das que lhes são contrárias: o belo nasce do feio, o justo do injusto, o fraco do mais forte, o pior do melhor. (XV)

P3 – Viver tem um contrário, assim como o contrário de acordado é o contrário de dormir. Se existisse o dormir e não lhe correspondesse o acordar parece que tudo estaria mergulhado no sono. Do mesmo modo que se tudo quanto participa da vida morresse e se conservasse depois na morte, nada existiria com vida. (XVI)

P4 – Estar morto é o contrário de viver e estes estados se originam um do outro. O que está morto nasce, então, do que está vivo. Os vivos nascem dos mortos e estes dos vivos. (XVI)

C1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem. (XVI)

2 – Argumento à pré-existência da alma: teoria das reminiscências.

P1 – Para que alguém se lembre de alguma coisa, é indispensável que a tivesse sabido no passado. A sabedoria é reminiscência quando se produz em nós de um modo determinado. Reminiscência é o fato de alguém se recordar de alguma coisa quando está em presença de outra. A reminiscência procede não só de coisas semelhantes, mas até das dessemelhantes. (XIX)

P2 – O conceito de igualdade é diferente da igualdade existente entre os objetos, o que significa existência da igualdade em sí. Os objetos iguais, ainda que sua igualdade seja diferente da igualdade em si, permitem-nos conceber a idéia e o seu conhecimento, e isto só é possível pela reminiscência. Quando se vê uma coisa, é-se obrigado a pensar noutra, quer seja igual, quer seja diferente, o que se produz é, necessariamente, uma reminiscência. (XIX)

P3 – Alguém, ao ver uma coisa, pensa que aquilo que vê aspira a ser igual a outro objeto, sendo, no entanto, inferior a ele. Podemos concluir que é necessário ter-se visto já o objeto que serve de modelo. É preciso que tenhamos visto a igualdade num tempo anterior àquele em que vemos um objeto para que possamos dizer que há semelhança entre eles. (XIX)

P4 – Está reflexão (da reminiscência) só é possível porque se origina nos orgãos sensoriais, mas antes de nos servirmos dos sentidos, é necessário que tenhamos adquirido o conhecimento da igualdade em si para, com ela, podermos comparar as igualdade percebidas pelos sentidos. (XIX)

P5 – Quando nascemos começamos a utilizar os orgãos sensoriais, no entanto, foi necessário ter adquirido o conhecimento do igual em si, e é forçoso concluir que tenhamos adquirido antes do nascimento. (XIX)

P6 – Se nascemos com este conhecimento, podemos admitir que toda a realidade pura nasce conosco, quer trate do belo, do bom ou do justo e de todas as essências deste gênero. (XIX)

P7 – Certamente nossas almas não adquirem o conhecimento das essências depois do nascimento, pois há identidade das nossas almas com as essências (vide argumento à natureza da alma). Significa que as almas existiam separadas dos corpos e aptas a pensarem antes de revestirem forma humana. (XIX)

C2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessária a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas. (XXII)

3 – Argumento à natureza da alma: simplicidade da alma e sua identidade com os objetos ideais.

P1 – Só perece o que é composto, o que sempre permanece isento de composição. Ora, as essências, tal como o belo em si e toda a qualidade pura, não sofrem alterações, são uniformes. Tudo que é particular e visível só pelos sentidos é apreensível, nunca permanece na identidade, está submetido à mudança. (XXV)

P2 – A alma, quando se serve do corpo para examinar alguma coisa é arrastada para a relatividade, mas quando se dirige para o que é puro, eterno e imortal, permanece sempre a mesma e igual àquilo que contempla e é a isso que se chama conhecimento. (XXVII)

P3 – A alma é semelhante ao divino, é imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel. O corpo decompõe-se porque é composto, e a alma permanece. (XXVIII)

C3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível. (XXVIII – Conclusão implícita)

4 – Argumento à imortalidade da alma e natureza da alma: desenvolvimento à teoria dos contrários.

P1 – Os contrários não podem subsistir simultaneamente, a grandeza em sí não consente ser grande e pequena ao mesmo tempo. O que agora se afirma não colide com o que se demostrou no primeito argumento dos contrários, isto é, que o maior nasce do mais pequeno e este do maior e que a verdadeira origem dos contrários são os seus contrários. (LI)

P2 – Afirmar que de uma coisa contrária nasce outra contrária é diferente de afirmar que o próprio contrário não pode ser contrário de si mesmo, quer no homem quer na natureza. O corpo humano passa da vida à morte, mas isso não significa que a vida como essência se torne no seu contrário, ou seja, na morte. (LI)

P3 – A natureza do ser quente nunca se transformou na natureza do ser frio, o dia nunca se transforma na noite, a natureza da vida na natureza da morte e a do par na do ímpar. (LII)

P4 – Cada um dos contrários permanece sempre exatamente o que é. (LIII)

P5 – Quando a morte se aproxima do homem, morre só o que nele há de mortal, o imortal permanece ileso à destruição. (LV)

C4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível. (LVI)

CONCLUSÃO GERAL ESTRUTURAL LÓGICA

PC1 –  Então, é verdade que a alma dos que morrem estão no Hades e regressam a este mundo para renascerem dos mortos, devemos pensar que as almas existem no além. Elas não poderiam renascer se não existissem. Podemos concluir que as almas dos mortos subsistem.

PC2 – Se todas as essências existêm em nós (o argumento demostra que existe), é forçoso concluir que também as nossas almas existem antes de nascermos, porque é tão necessário a existência das essências como das nossas almas. A não existência das primeiras implica a não existência das segundas.

PC3 – Pode afirmar-se que o que permanece sempre idêntico, o que é invisível, não pode ser apreendido pelos sentidos, mas só pelo pensamento. O corpo indentifica-se com o visível e a alma com o invisível.

PC4 – A essência da alma é ser vida e exclui o seu contrário que é morte. A alma identifica com as essências imortais, as idéias, é da mesma natureza, logo é imortal e indestrutível.

CGERAL- Essencialmente a alma consiste em ser vida e exclui a morte que é o contrário de vida (PC1); A alma é imortal e participa do imortal que é imperecível, portanto, a alma é imortal e imperecível (PC2); A alma é imortal porque é da mesma natureza das idéias, que são eternas (PC3); A impericibilidade da alma é deduzida  da sua essência, porque o conceito de alma exclui intrinsecamente, o atributo mortal (PC4); Portanto, a alma humana é capaz de conhecer coisas imutáveis e eternas, e para poder conhecer coisas imutáveis e eternas, ela dever possuir uma natureza dotada de afinidade com essas coisas. Caso contrário estas coisas ultrapassam as capacidades da alma. Conseqüentemente, como as coisas que a alma conhece são imutáveis e eternas, a alma também precisa ser eterna e imutável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO. Fedão, Versão eletrônica. Trad. Carlos Alberto Nunes. Créditos da digitalização: Membros do grupo Acrópolis (Filosofia). Disponível em:< http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/fedon.pdf>

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