Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita

Primeira Proposição

O processo de desenvolvimento e progresso histórico das comunidades e em especial da comunidade humana é teleológico (caminha para um fim determinado) e inevitável:

“Todas as disposições naturais de uma criatura estão destinas a um dia se desenvolver completamente e conforme um fim”[1].

Segundo Bruno Nadai:

“A elaboração filosófica da história recorre à teleologia de modo a poder considerar a natureza como se possuísse como fim o pleno desenvolvimento das disposições racionais do homem, de modo a poder considerar os homens como se trabalhassem conforme a uma intenção da natureza, a de desenvolver completamente sua razão como fundamento da causalidade da vontade – tarefa cuja realização só pode ser pensada do ponto de vista da humanidade com idéia da razão.”[2]

Giannotti destaca:

“Este princípio é corroborado pela observação do comportamento animal, mas como princípio implica uma extrapolação, exigida pelo funcionamento reflexionante do intelecto; sua verificação fica situada no contexto geral da relação dos fins. Entre os homens, porém, na medida em que essas disposições são postas em função da razão, elas deixam de encontrar um desenvolvimento cabal no indivíduo, necessitando da espécie como  palco onde possam cumprir seu destino”.[3]

Podemos ver uma passagem muito parecida com a de Kant em Aristoteles:

“a cidade é uma criação natural e que o homem é por natureza um animal social, e um homem que por natureza, e não por mero acidente […] como costumamos dizer a natureza não faz nada sem proposito, e o homem é o único entre os animais que tem o tom da fala.”[4]

Observa-se que as sociedades de insetos e animais não racionais são sempre ordenadas pela lei natural, logo, são sempre harmônicas e organizadas. Isso não ocorre na sociedade humana, (única criatura racional sobre a terra), essa é a mais desordenada e onde se encontram possibilidades constantes de conflitos. Todavia, a teoria de kantiana apontará esse fator como fundamental para o progresso.

Segunda Proposição

Segundo a teoria kantiana, a evolução da história humana se refere à espécie e não ao indivíduo.

“No homem (única criatura racional sobre a terra) aquelas disposições naturais que estão voltadas para o uso de sua razão devem desenvolver-se completamente apenas na espécie e não no individuo”[5]

Portanto, a idéia de história nós permite organizar o conjunto das ações humanas ao longo das gerações. Como se ela progredisse em direção a seu fim, que conseguiremos chegar apenas com o uso da capacidade natural do homem, “a razão”.

“Sublinhemos a nova relação que o indivíduo trama com o universal. Cada organismo integra suas partes num todo posto como fim natural, de tal forma tecido que se repõe na medida em que ressurge num outro. A reunião de todos os indivíduos pelo elo da geração forma a espécie. Mas, além de fim natural do homem é escopo da natureza, que cria como um ser dotado de razão. Dado isso o princípio geral da teleologia, fica o indivíduo humano impossibilitado de efetuar suas disposições naturais unicamente por esse elo natural. Primeiramente porque se altera o próprio sentido de uma individualidade, que surge vinculada por uma finitude que não tinha cabimento no plano anterior. Com efeito, deixando de agir instintivamente, a criatura racional tem necessidade de ensaiar, de instruir-se, enfim, de abrir um espaço de indefinição onde possa aperfeiçoar seu próprios dispositivos. Já que isto se torna impossível para o indivíduo de vida limitada, surge a espécie como quadro infinito em relação ao qual cada um se move.Espécie, contudo, que perde a estruturação originária característica do animal “.[6]

Ao pensar em criaturas irracionais, veremos que cada indivíduo consegue realizar por completo, em si mesmo, o fim segundo a natureza. Assim seria impossível pensar em uma história de tais criaturas, uma vez que o individuo e a espécie animal não se diferem em relação ao desenvolvimento de suas disposições, sendo assim uma história planificada, não existindo passado, presente ou futuro.

O homem, que é o único ser dotado de razão como uma de suas faculdades, estabelece uma liberdade, não atuando apenas de uma maneira instintiva. Kant virá a chamar de liberdade da vontade. Nesse momento podemos encontrar a separação entre o animal Homem dos demais animais, tal separação se estabelece pelo uso da razão sobre os instintos naturais. Como afirma Kant:

“Numa criatura, a razão é a faculdade de ampliar as regras e os propósitos do uso de todas as suas forças muito além do instinto natural.”[7]

Para o homem desenvolver plenamente suas disposições, como falamos anteriormente, não podemos focar no indivíduo, mas sim na espécie, uma vez que a natureza concedeu-lhes um tempo curto de vida. No texto o que é o iluminismo, encontramos uma passagem que diz: “um publico, só muito lentamente, pode chegar à ilustração”[8] no artigo história universal encontraremos:

“se a natureza concedeu-lhe somente um curto tempo de vida (como efetivamente aconteceu), ela necessita de uma séria talvez indefinida de gerações que transmitam umas às outras as suas luzes para finalmente conduzir, em nossa espécie, o germe da natureza àquele grau de desenvolvimento que é completamente adequado ao seu propósito.”[9]

Como podemos ver, Kant transcende o sujeito individual, dizendo que essa razão se  desenvolverá enquanto espécie.

Terceira Proposição

Na terceira preposição Kant nos apresenta a idéia de que para o homem realmente conseguir alcançar o fim de todas as suas disposições ele terá que se utilizar da própria razão, pois agora ele se encontra apenas nos instintos, dependendo apenas de si mesmo. Como Kant afirma:

“A natureza quis que o homem tirasse inteiramente de si tudo que ultrapassa a ordenação mecânica de sua existência animal e que não participasse de nenhuma felicidade ou perfeição senão daquela que ele proporciona a si mesmo, livre instinto, por meio da própria razão. A natureza não faz verdadeiramente nada supérfluo e não é perdulária no uso dos meios para atingir seus fins. Tendo dado ao homem a razão e a liberdade da vontade que nela se funda, a natureza forneceu um claro indício de seu propósito quanto à maneira de dotá-lo. Ele não deveria ser guiado pelo instinto, ou ser provido e ensinado pelo conhecimento inato; ele deveria antes, tirar tudo de si mesmo”.[10]

Segundo Bruno Nadai:

“A inscrição do homem na natureza teleologicamente organizada indica que a realização das disposições humanas voltadas para o uso de sua razão exige o esforço de se “tirar tudo de si mesmo”. Isto porque, tudo se passa na natureza como se ela se organizasse em função de exigir que o homem cultive sua razão, condição para garantir seja a sua subsistência, seja a sua participação na felicidade ou mesmo em uma possível l perfeição moral.”[11]

Os demais animais possuem instintos que garantem sua subsistência, vestimentas, a conquista da segurança externa e da defesa e de todos os prazeres que podem tornar a vida agradável, porém o homem não sendo mai comandado por seus instintos depende agora apenas da razão, faculdade que terá que desenvolver a procura de garantir todos esse “benefícios” oferecidos pelos instintos.

Mais uma vez Kant retoma seu conceito de história, sendo que as gerações passadas batalharam para que o homem possa conseguir a “emancipação” e finalmente fazer que suas disposições sejam realizadas completamente. Nessa passagem ele apresenta a idéia de espécie imortal. Segundo Kant:

“as gerações passadas parecem cumprir suas penosas tarefas somente em nome das gerações vindouras, preparando para estas um degrau a partir do qual elas possam elevar mais o edifício que a natureza tem como propósito […] quando se aceita que uma espécie se aceita que uma espécie animal deve ser dotada de razão e, como classe de seres racionais, todos mortais mas cuja espécie é imortal, deve todavia atingir a plenitude do desenvolvimento de suas disposições.”[12]

Texto introdutório

4ª,  5ª e 6ª preposições


[1] Ibid, 11

[2] NADAI, Bruno, Teleologia e História em Kant: a Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, 2006, Pag. 69

[3] GIANNOTTI, José Arthur. “Kant e o espaço da História Universal” In. KANT, Immanuel.  Idéia… Op. Cit. , Pág. 128.

[4] ARISTÓTELES,Política. 3ª ed. Tradução: Mário da Gama Kury. Brasília: UNB, 1997, I, 1253b, 15

[5] KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986. Pág. 11

[6] GIANNOTTI, José Arthur. “Kant e o espaço da História Universal” In. KANT, Immanuel.  Idéia Pág. 130

[7] KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986. Pág. 11

[8] KANT, Immanuel. Que é o Iluminismo. In: “A paz perpetua e outros opúsculos”. Edições 70. Lisboa – Portugal. s/d., Pag. 13

[9] KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986. Pág. 11

[10] Ibid. 12.

[11] NADAI, Bruno, Teleologia e História em Kant: a Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, 2006, Pag. 89

[12] KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986. Pág. 13.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s