Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita

immanuelkantKant se propõe e expor o que seria essa idéia de uma história universal, mas de um ponto de vista específico que ele chama de cosmopolita. O cosmopolitismo nos diz Abbagnano é a “Doutrina que tende a negar a importância das divisões políticas e ver no homem, ou ao menos no sábio, um ‘cidadão do mundo’.[1] Disto é possível deduzir que a exposição não é partidária de quaisquer abordagens nacionalistas, ela não considera a história pela perspectiva da Prússia ou de qualquer outro Estado que compunha o Império Germânico, pois estas são instituições que têm suas verdades próprias e que integram uma sociedade muito maior: a sociedade civil mundial da qual por natureza todos os homens são cidadãos.

Kant faz distinção entre a comunidade civil e a comunidade civil mundial, indicando que a primeira integra a segunda, mas a segunda (também denominada “comunidade total”) é maior, e, é como cidadão desta comunidade, por exemplo, que o erudito pode se dirigir, “por escrito”, a um público em entendimento genuíno[2]. Portanto, para Kant o cosmopolitismo situa o indivíduo em uma posição favorável ao propósito da natureza, a formação do cidadão do mundo.

“A finalidade da humanidade, já sabemos, é “estabelecer uma constituição política”, único estado em que a humanidade pode desenvolver completamente as suas disposições. O ponto de vista que permite falar da história como se ela fosse organizada com vistas a este fim é o do propósito da natureza.”[3]

Deste ponto de vista, o filósofo é capaz de distinguir a História, enquanto ciência que se debruça sobre a sucessão dos fatos, concretos e empíricos, da História (historie), enquanto reflexão sobre o sentido da história humana (Weltgeschichte), caso esta seja realmente conduzida pela razão, e que será denominada com mais precisão de “Filosofia da história”.

“O que distinguirá a simples “história natural” da espécie humana – esboçada por Kant em Das diferentes raças humanas – e a “história natural” da espécie em seu sentido político-jurídico – apresentada por Kant na Idéia de uma história universal – é o fato de esse segundo plano de abordagem levar em conta aquelas disposições naturais humanas voltadas para o uso da razão”[4]

Nessa separação entre história natural (historie) e história humana (weltgeschichte), o homem se destaca como o “único animal racional sobre a terra”. Se o homem não fosse uma criatura Racionável[5] e agisse apenas de modo instintivo, a sua história seria uma história planificada ou se as disposições voltadas para o uso da sua razão não precisassem ser desenvolvidas, isto é, caso o homem agisse desde sempre de maneira racional – como cidadão de um mundo cosmopolita, que só a título de idéia a ser perseguida se pode admitir. Segundo Kant:

“Como em geral os homens em seus esforços não procedem apenas instintivamente, como os animais, nem tampouco como razoáveis cidadãos do mundo [vernünftige Weltbürger], segundo um plano preestabelecido, uma história planificada (como é, de alguma forma, a das abelhas e dos castores) parece ser impossível” [6]

Nessa passagem podemos perceber claramente a idéia de movimento da história humana, afinal se o homem não tivesse essa disposição ao progresso teríamos uma história planifica, porém essa disposição é mostrada em outro texto do autor, “O iluminismo é a saída do homem da sua menoridade …”[7]

No exercício desta disciplina é possível pensar que a sociedade humana caminha rumo ao progresso, e esse é o aperfeiçoamento moral, inevitável e necessário, conduzido no decorrer da história por uma “mão invisível”. Nas proposições que compõem o texto de Kant essa princípio condutor será buscado não na razão enquanto faculdade isolada de cada indivíduo, mas sim na naquela que abarca ou se manifesta universalmente, ou seja, na espécie.

“Como o filósofo não pode pressupor nos homens e seus jogos, tomados em seu conjunto, nenhum propósito racional próprio, ele não tem outra sida senão tentar descobrir, neste curso absurdo das coisas humanas, um propósito da natureza que possibilite, todavia uma história segundo determinado plano da natureza para criaturas que procedem sem um plano próprio. Nós queremos ver se conseguimos encontrar um fio condutor para tal história e deixar ao encargo da natureza gerar o homem que esteja em condição de escrevê-la segundo este fio condutor”.[8]

Ao término do artigo de Kant, poderemos constatar que sua teoria identifica esse “fio condutor” como sendo a razão, e enfim, poderemos concluir que a história universal é a história natural do progresso da razão.

1ª,  2ª e 3ª preposições

4ª,  5ª e 6ª preposições


[1] ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Editora Martins Fontes, São Paulo. 2ª. Edição 1998. Verbete. Cosmopolitismo. Pág. 217.

[2] KANT, Immanuel. Que é o Iluminismo. In: “A paz perpetua e outros opúsculos”. Edições 70. Lisboa – Portugal. s/d. Págs. 12 e 13.

[3] NADAI, Bruno, Teleologia e História em Kant: a Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, 2006, Pag. 15

[4] NADAI, Bruno, Teleologia e História em Kant: a Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita, 2006, Pag. 10

[5] Dotado de Razão – que se vincula ao alemão Verstand diferente de rationnel (que usa a razão) – (76)

[6] KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986. Pág. 10.

[7] KANT, Immanuel. Que é o Iluminismo. In: “A paz perpetua e outros opúsculos”. Edições 70. Lisboa – Portugal. s/d., Pag. 11

[8] KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986. Pág. 10.

3 comentários em “Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita

  1. Fernanda disse:

    interessante!

  2. vanessa disse:

    Realmente interessante, porém faltaram os comentários das últimas três proposições kantianas.

  3. Cristianeg disse:

    Muito bom, mas, faltaram as rês últimas proposições de Kant. Uma pena!

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