O Caminho do Meio nas Tradições do Espírito

Tornou-se lugar comum, classificar as tradições espirituais do Ocidente e do Oriente, como “via seca” e “via úmida!” Significa isso, que a espiritualidade ocidental caracteriza-se pela busca do Divino de um modo mais intelectual – simbolizado pelo órgão “mente”, no grego “nous”, enquanto que a busca da espiritualidade oriental se caracteriza por um transcurso mais “sentimental” simbolizado então pelo órgão “coração” no grego kardion. Todavia, reduzir ambas tradições espirituais à apenas uma destas vias, é ir contra a própria natureza da busca por elas empreendida. Uma bela representação da busca espiritual do Oriente é-nos dada pela tradição hindu que possui duas principais vias de busca ao Divino, a Jnâna-mârga, “a via do conhecimento” e a Bhakti-mârga, “a via da devoção”, ou seja, cérebro e coração, intelecto e sentimento, inteligência e o amor! Essas duas vias, não são contrárias, bem como não o são, as capacidades que elas representam, na realidade são complementares. O inter-relacionamento entre essas capacidades num centro unificado (o homem) encontra-se bem demonstrado na Tanách onde não encontramos uma palavra que signifique “cérebro” ou “mente”, a palavra “coração” (em hebraico, lê’b) é sua mais comum substituta, pois, o coração na tradição bíblica é considerado sede da inteligência, da vontade e das emoções, isso caracteriza a religião dos hebreus como dotada de um alto teor holístico e senso de unidade. É verdade que as grandes tradições espirituais, sempre viram o homem como um ser que é conduzido por essas duas grandes “forças”, embora, alguns sejam mais emotivos e outros mais racionais, mas, nenhum é apenas racional ou unicamente emotivo!

Todavia, quando as tradições espirituais falam do coração em contraposição ao cérebro, elas o têm como sede da inteligência, não tratasse neste caso da “razão”, mas, sim de uma inteligência pura que penetra nas profundidades da dimensão espiritual! O Apóstolo Paulo chamou-a de “inteligência espiritual” – em grego: sunesei pneumatikhè[1]. Logo, não falemos de oposição, mas, talvez de níveis diferentes e complementares na caminhada do conhecimento do Divino. E este caminho de conhecimento é estreito, requer equilíbrio, qualquer extremismo será prejudicial. Por esse motivo, a espiritualidade cristã medieval enfatizava: “In medio stat virtus” (a virtude está no meio-termo), adágio comum entre os monges beneditinos e dominicanos.

Mas, esse equilíbrio não é característica exclusiva do cristianismo, Gautama Buda proclamou:

“Um caminho do meio, ó bhikkus, evitando os dois extremos, foi descoberto pelo Tathagata – um caminho que abre os olhos, e dá compreensão, que conduz à paz interior, à alta sabedoria, ao pleno esclarecimento, ao Nirvana! [2]

Esse caminho está além dos extremos, além dos opostos, devido às restrições intrínsecas ao universo das palavras temos que dizer que ele é o “ponto central” e como centro ele transcende todas as dualidades existentes. Então chegamos à noção do Tao, considerando que essa palavra é extremamente polissêmica, nos atenhamos ao seu significado mais literal: caminho, via ou senda!

“O caminho que pode ser expresso não é o Caminho Absoluto. O nome que pode ser enunciado não é o Nome Absoluto”.[3]

Esse caminho o Tao, transcende todas as polaridades, essas são características do yin e yang, dois princípios opostos e complementares, representando respectivamente, fêmea e macho, lua e sol, passivo e ativo. Estes se encontram no plano do universo criado (ou manifesto), portanto sendo eles mesmos contingentes, não podem expressar o Caminho Absoluto, antes, necessitam de uma linguagem que se oriente no tempo e no espaço, exatamente aquilo que o Tao transcende! No capítulo vinte e cinco do Tao Te Ching, Lao-Tsé apresenta o Tao como grande legislador e regulador dos clássicos três poderes: Céu, Terra e o Homem[4].

A sujeição destes a algo acima de si e a sujeição do Tao apenas a si mesmo, demonstra que o micro e o macrocosmo lhe são sujeitos, por isso aquele que for capaz de se identificar Absolutamente com o Caminho, será necessariamente o Senhor do Universo – Kosmokrátor! Todavia, esse é um assunto que requer uma reflexão apenas dele, e sobre o qual nos debruçaremos futuramente!

Bibliografia.

GAUTAMA, Siddartha (O Buda). O sermão de Benares. s/no. de edição,Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti Editores, s/ ano. In: YUTANG, Lin. A sabedoria da China e da Índia (Volume 1º.).

GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento, Grego/Português, 1ª. Edição, São Paulo, Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1984.

LAO-TSÉ, Tao Te Ching. S/ no. de edição, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti Editores, s/ ano. In YUTANG, Lin. A sabedoria da China e da Índia (Volume 2º.).

LAO-TSÉ, Tao Te Ching (O Livro do Sentido Da Vida). S/ no. de edição, São Paulo, Hemus Editora Ltda., s/ ano.

SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento – História, método e mensagem. 1ª. Edição, 1ª. Reimpressão, São Paulo, Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 2002.


[1] Na linguagem do Novo Testamento o adjetivo espiritual geralmente significa “aquilo que pertence ao Espírito Santo”, logo, essa inteligência caracteriza-se como uma capacidade sobrenatural ao homem, enquanto, a razão seria um reflexo dessa capacidade na esfera particular de cada indivíduo!

[2] GAUTAMA, Siddartha, O Buda – O sermão de Benares.

[3] LAO-TSÉ, Tao Te Ching. Capítulo I.

[4] T’ien, T’i e Jen .

Um comentário em “O Caminho do Meio nas Tradições do Espírito

  1. […] do “projeto phronesis”, sob o título: “O Caminho do Meio nas Tradições do Espírito”. http://projetophronesis.com/2008/12/23/o-caminho-do-meio-nas-tradicoes-do-espirito/ . A versão que agora apresentamos além de levemente modificada no título, também sofreu […]

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