Hume e Pascal: o cético e o místico nas veredas da justiça.

Negar que a justiça seja natural ao homem, equivale negar que todo homem tem naturalmente o senso da virtude. Isso não enquanto uma idéia inata em seu espírito, mas quanto uma percepção prática no desenvolvimento dos relacionamentos humanos de que tanto uma quanto a outra, são necessárias e úteis para que uma sociedade goze de relativa paz! Logo, não há arbitrariedade na origem e estabelecimento das regras da justiça, antes, são elas um artifício que confere certo caráter prático àquela percepção originária do teor natural da utilidade e necessidade da justiça.

Todavia, é possível conjeturar que, se houvesse um homem que por uma percepção intuitiva direta da verdade divina, ou que recebesse dos arcanos celestes um conhecimento que transcenda o mero conhecimento da esfera humana, ele compreenderia as palavras supra, mas as teria em conta de uma retórica, muito bem estruturada, que não teria outra função, senão a de convencer-nos que a justiça deste mundo é tudo o que podemos vivenciar, e, que sua verdade é a única que podemos conhecer. Certamente, não descordaria que no estado “decaído” em que se encontra a humanidade, da qual ele não exclui nem a si mesmo, pela via do conhecimento racional ou da experiência esses limites estão postos e é impossível ultrapassá-los por nossa própria capacidade.

Aquele que sustenta o ponto de vista inicialmente descrito, não admite a separação do mundo em duas dimensões estanques, para ele perguntar se há outra justiça além daquela que podemos vivenciar em sociedade, ou se há uma verdade além, é já ir além daquilo que se pode provar, é pressupor a existência daquilo que na realidade se quer provar.

O místico pode julgar estreitos os limites que o cético lhe propõe, pois acostumado a reconhecer no cosmo uma hierarquia dos seres e das coisas, para ele é natural que haja uma hierarquia no reino da verdade, nas formas de se conhecer a verdade e de se vivenciar a justiça, e que se o seu opositor chegou até o nível em que possa conhecer alguma verdade do intelecto e possa vivenciar alguma justiça do corpo, poderá ele, não sem um dispositivo supranatural, conhecer a verdade do coração e vivenciar a justiça do espírito.

2 comentários em “Hume e Pascal: o cético e o místico nas veredas da justiça.

  1. Muito bom o texto.nos faz meditar.realmente nao ha verdadeira justica em maos de homens.so Deus pode ser justo.

    • Carlos Eduardo Bernardo disse:

      Prezado, Edson Gonçalves.
      Desculpe-me a demora em responder-lhe. Agradeço a apreciação de meu texto.
      Realmente o assunto é fascinante e merece maiores desdobramentos.
      Convém refletir se aparente incapacidade humana em ser justo “justifica” o abandono de nossos esforços em construir um mundo mais justo e ainda assim mais humano!
      Um abraço afetuoso.
      Carlos Eduardo Bernardo

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