O simbólico divino na natureza.

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Podemos dizer que toda criação espelha o Divino, cada qual em sua própria dimensão de ser. Tudo o que existe em certo sentido serve como um veículo de expressão do Eterno. Por esse ângulo, as criaturas podem ser encaradas como símbolos ou metáforas do Divino. Uma bela figura está no livro de Salmos onde é dito: “Porque o Senhor Deus é um sol…”[1] Significa isso, que o sol seja Deus? Ou, que como este é apenas mais um dentre os milhares, talvez milhões, de sóis existentes no Universo, Deus seja apenas mais um dentre os deuses?

É muito improvável! Há maior probabilidade que signifique ser o sol uma metáfora do Divino, este imenso astro no firmamento possui (sempre guardando as devidas proporções) atributos que espelham ao seu Criador. O sol é fonte de luz e calor para nosso planeta, assim, como o Eterno é a fonte de luz a todo o aquele que Nele crê e fonte de calor nos momentos em que a frieza espiritual assalta nossa alma. Sem o sol não haveria vida, da mesma forma sem Deus não há vida, como diz o livro de Provérbios: “O temor do Senhor é fonte de vida, para desviar dos laços da morte.”[2] O sol irradia por sobre a Terra, assim como “o Eterno dos altos céus”(expressão muito usada pelos profetas) também irradia suas bênçãos sobre nós que somos terra (Adâm quer dizer, homem e humano, que provavelmente vem de uma raiz que significa vermelho ou escuro, donde temos adamáh significando pó da terra) uma referência a cor avermelhada da terra do “Crescente Fértil”. O sol tem a lua como seu satélite natural, a lua é um símbolo do feminino e não possuí luz própria, mas, reflete a luz do sol, da mesma forma, a lua representa nação de Israel, e os cristãos crêem que represente a Igreja, ambas não possuem luz própria, mas, refletem a luz de Deus, por isso no Cântico dos Cânticos é dito:

“Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?”[3]

Temos então, a possibilidade de observar como os elementos criados podem nos ensinar grandes verdades sobre o Criador. É quase certo que a explicação dada a Arjuna pelo Senhor Krsna (Krishna) no Décimo capítulo do Bhagavad-Gita:

“…entre as luzes, sou o Sol radiante; …entre as estrelas, sou a Lua… e das massas de águas , sou o oceano…”[4]

Ou a palavras de Jesus no Evangelho de Tomé – O Dídimo:

“…Parti um (pedaço de) madeira, lá estou; levantai uma pedra, e ali me encontrareis.”[5]

Possam ser entendidas como uma afirmação deste princípio. O grande perigo é que confundamos o símbolo com o Simbolizado, o significante com o Significado. Há em Agostinho uma bela passagem onde indícios dessa possibilidade de confusão o assaltaram no início de sua busca pela resposta a pergunta :quem é Deus?

“Perguntei-o a terra e disse-me: – Eu não sou. E tudo o que nela existe, respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: – Não somos teu Deus; busca-o acima de nós. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes respondeu-me: – Anaxímenes está enganado; eu não o teu Deus. Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas e disseram-me: – Nós também não somos o Deus que procuras. Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me ao menos, alguma coisa dEle. E exclamaram com voz forte: -Foi Ele quem nos criou.” [6]

Toda criação traz em si algo de seu criador, carrega os sinais que caracterizam-na como criação deste e não daquele artista. Da mesma forma:

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.”[7]

Não necessitam das palavras para transmitir sua mensagem de exaltação ao Criador, pois, as palavras são formadas por conjuntos de símbolos gráficos e neste caso tudo é um símbolo e o conjunto total da criação a mensagem!

Por esta perspectiva, entende-se que o panteísmo e o animismo são contados entre nossos equívocos mais comuns, ao atentarmos para a beleza divinal da criação ou ao ouvirmos suas “vozes”, sem o devido preparo espiritual, tendemos a considerar que a criação fala de si própria e confundimos a criatura com o Criador! O Apostolo Paulo, diz dos que assim procedem:

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.”[8]

Essa confusão nos coloca numa situação de anômala ignorância perante Deus, e caracteriza um estado de cegueira espiritual tão acentuado que é chamado por uma palavra grega que significa “ tornar-se tolo” emwranqhsan – a tradição vedantina afirma que a causa de todos os males que nos assolam é a ignorância, “avidyã” (alguns especialistas dizem nescidade, o que nos remete ao conceito hebraico sobre a raiz do ateísmo, ou agnosticismo[9]). Portanto, uma correta apreensão espiritual do mundo e de tudo o que nele há, envolve a noção que toda perfeição, beleza, dinâmica e sabedoria, dentre outros atributos da natureza são apenas metáforas fragmentárias da Perfeição, Beleza, Dinâmica e Sabedoria do Eterno Criador e apontam na direção dos céus que anunciam a imensidão Daquele que os criou!

Temos então, a tarefa de ir além dos símbolos em direção do Verdadeiro e Único Significado de tudo que existe.


[1] Salmo. 84.11a.

[2] Provérbios.14:27.

[3] Cântico dos Cânticos. 6:10.

[4] Bhagavad-Gita. 10:21b,c; 24 b,c.

[5] Evangelho de Tomé, o Dídimo. Vs.77b.

[6] Agostinho. As Confissões. Livro 10: 6.

[7] Salmos. 19:1-3.

[8] Romanos. 1:22 e 23.

[9] Salmos. 14: 1. “Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras,…”

Bibliografia

AGOSTINHO, Santo. – Confissões. Livraria Apostolado da Imprensa. 4ª. Edição, Porto – Lisboa. 1952.

ALMEIDA, João Ferreira (Trad.) Bíblia Sagrada: Edição Revista e Corrigida. Imprensa Bíblica do Brasil. Rio de Janeiro, s/d.

MEYER, Marvin. – O Evangelho de Tomé: as sentenças ocultas de Jesus. Editora Imago, Rio de Janeiro, s/d.

PRABHUPÃDA, A.C. Bhaktivedanta Swami. – Bhagavad-Gitã como ele é. The Bhaktivedanta Book Trust. 4ª. Edição, São Paulo, 2006.

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