Por: Paulo Ubermensch
Introdução.
Neste trabalho procurarei mostrar qual é, de acordo com Kant, o juízo certo de uma ciência e qual o método usado para conhecer o seu fundamento.
O problema da Crítica, a síntese a priori e o seu fundamento.
Kant em sua tentativa de explicitar e esclarecer a Crítica, que “não havia sido compreendida”[i] em 1781, seis anos mais tarde publica sua segunda edição. Assim, num intenso trabalho, desatando os nós da meada dos problemas que o preocupava, encontrou finalmente o fio da meada. E deste único problema fundamental, todos os outros dependiam.
Kant descobriu que a natureza do conhecimento científico (ou seja, a natureza do verdadeiro conhecimento) consiste em ser uma “síntese a priori” e que, por isso, tudo está no descobrir qual é o fundamento que torna possível a “síntese a priori”. Essa é a novidade da Crítica, à qual a sua Dissertação de 1770 não acenava. Consequentemente, conseguindo-se estabelecer qual a natureza da “síntese a priori”, pode se resolver com facilidade o problema de como e por que são possíveis as ciências matemático-geométricas e a ciência física e se poderá, por fim, resolver o problema de se é possível uma “metafísica como ciência” ou então, se isso não for possível, por que então a razão humana se sente tão irresistivelmente atraída pelas questões metafísicas.[ii]
Mas, como se trata de ponto fundamental para a compreensão da filosofia de Kant, aprofundemos brevemente com o intuito de apenas esclarecer convenientemente a questão dos juízos para prosseguir.
Um juízo consiste na conexão de dois conceitos, dos quais (A) cumpre a função de sujeito e o outro (B) cumpre a função de predicado.
- O conceito que funciona como predicado (B) pode estar contido no conceito que funciona como sujeito (A) e, portanto, pode ser extraído por pura análise do sujeito. Sendo assim, um juízo analítico.
- Mas o conceito que funciona como predicado (B) também pode não se encontrar implícito no conceito que funciona como sujeito (A) e, no entanto, ser-lhe conveniente. Sendo assim, um juízo sintético, pois o predicado (B) acrescente ao sujeito (A) algo que não é extraível dele por mera análise.
- O juízo analítico, sem necessidade de recorrer à experiência, é um juízo que formulamos a priori, dado que, com ele, expressamos diferentemente o mesmo conceito que expressamos no sujeito. Deste modo, ele é universal e necessário, mas não amplifica o conhecimento. Assim, não podendo ser o juízo da ciência.
- O juízo sintético, contrariamente, amplia sempre o conhecimento. Os juízos mais comuns formulamos nos baseando na experiência. Todavia, a ciência não pode se basear neles por não serem universais e necessários, já que são a posteriori.
Portanto, está claro que a ciência se baseia em um terceiro tipo de juízos, ou seja, naquele tipo de juízo que, a um só tempo, une a aprioridade, ou seja, universalidade e a necessidade, com a fecundidade, ou seja, a “sinteticidade”. Os juízos constitutivos da ciência são juízos “sintéticos a priori”.[iii]
Todas as operações aritméticas[iv], o juízos da geometria[v] e da física segundo o qual “em todas as mudanças do mundo corpóreo a quantidade da matéria permanece invariada”[vi] são sínteses a priori. E também a Metafísica, pelo menos em suas pretensões, opera com juízos sintéticos a priori – trata-se, porém, de ver se com fundamento ou então sem fundamento.
Os juízos sintéticos a priori não se baseiam no princípio de identidade (nem no correlato princípio de não-contradição [como os juízos analíticos]) porque aquilo que eles conectam não é um predicado igual (correspondente) ao sujeito, mas diferente; também não se baseiam na experiência , porque são a priori, ao passo que tudo aquilo que deriva da experiência é a posteriori [como os juízos sintéticos a posteriori] e, ademais, são universais e necessários, ao passo que tudo aquilo que deriva da experiência, como dissemos, nunca é universal nem necessário.[vii]
Aqui se encontra, então, o problema de Kant: “O que é a incógnita X, na qual se apóia o intelecto quando crê encontrar fora do conceito A um predicado B, estranho a ele e que, apesar disso, acredita estar conjugado a ele?”
A descoberta dessa incógnita X constitui o sumo da Crítica. Portanto, Examinemos agora, como é que Kant chegou à solução dessa incógnita.
A “revolução copernicana” realizada por Kant.
A elaboração dos conhecimentos pertencentes ao domínio da razão, para Kant, não segue o caminho seguro de uma ciência, uma vez que deixa-se julgar pelo seu resultado. Mas então por onde começar?
A Lógica desde Aristóteles quase nenhum passo deu tanto para frente como para trás. Pois, “o limite da Lógica acha-se determinado de maneira bem precisa, por ser ela uma ciência que expõe circunstanciadamente e prova de modo rigoroso unicamente as regras formais de todo o pensamento.” [viii] E tal “limite” é a vantagem de seu sucesso como ciência, sendo o seu objeto si mesma. Vantagem esta que a razão não possui, já que trata, além de si mesma, dos objetos.
Kant pensava que, enquanto deve haver razão nas ciências, algo precisa ser conhecido a priori. Há duas formas para relacionar-se com o objeto. A primeira é o conhecimento teórico, ou seja, a Matemática que deve determinar os seus objetos a priori de modo inteiramente puro e a Física que a faz pelo menos em parte, mas tomando ainda como medida outras fontes fora da razão. A segunda é o conhecimento prático da razão.
Com as descobertas de Galileu, Torricelli e Stahl, compreenderam que
a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem que tomar a dianteira com princípios, que determinam os seus juízos segundo leis constantes e deve forçar a natureza a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta; de outro modo, as observações feitas ao acaso, realizadas sem plano prévio, não se ordenam segundo a lei necessária, que a razão procura e de que necessita. A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na qualidade de aluno que aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas funções, que obriga as testemunhas a responder aos requisitos que lhes apresenta. Assim, a própria física tem de agradecer a revolução, tão proveitosa, do seu modo de pensar, unicamente a ideia de procurar na natureza (e não imaginar), de acordo com o que a razão nela pôs, o que nela deverá aprender e que por si só não alcançaria saber; só assim a física enveredou pelo trilho certo da ciência, após tantos séculos em que foi apenas simples tateio.[ix]
Entretanto, a Metafísica que é um “conhecimento especulativo da razão inteiramente isolado que se eleva completamente acima do ensinamento da experiência através de simples conceitos (não como a Matemática, através de aplicação da mesma à intuição), na qual portanto a razão deve ser aluna de si própria,” [x] não teve até então um caminho seguro de uma ciência. Ela permaneceu na fase pré-científica.
Então, resta saber onde está a causa da metafísica não ter encontrado o caminho seguro para a ciência? Ou seria apenas impossível? Mas agora trata-se de, como vimos no início, não de analisar seus resultados, mas de analisar os seus argumentos, o seu método. E aqui tal resposta a esse quesito coincidirá com a da incógnita X.
Deste modo, apenas como tentativa, Kant observando que a Matemática e a Física obtiveram sucesso em encontrar o seu caminho como ciência em “uma revolução levada a efeito de uma só vez” e que em tal caminho não se poderia mais estar perdido, estando “aberto e traçado para todos os tempos e por trajeto infinito”, na medida em que permite sua analogia com a Metafísica, pretenderá imitá-los. Pois, tendo, até então, todo o conhecimento devendo regular-se pelos objetos, porém “todas as tentativas de estabelecer algo a priori sobre ele através de conceitos, por meio dos quais o nosso conhecimento seria ampliado, fracassaram sob esta pressuposição”.[xi] Assim, tenta-se um movimento contrário, uma revolução: estabelecer que os objetos devam regular-se pelo nosso conhecimento, o que concorda mais com a possibilidade de um conhecimento a priori, ou seja, que deve se estabelecer algo sobre os objetos antes de serem dados. Pois, até aqui era o objeto que focava todas as atenções, subvertendo a relação ativa do conhecimento. Mas agora “não é o sujeito que, conhecendo, descobre as leis do objeto, mas sim, ao contrário, que é o objeto, quando é conhecido, que se adapta às leis do sujeito que o recebe cognoscitivamente”[xii]. O sujeito ou as suas estruturas que se tornam o centro privilegiado da relação e, nesta nova fase, será o mundo dos objetos que tem de tomar como referência central o sujeito. Ou seja, Kant chama-nos a atenção para a importância do objetos no mundo, mas, simultaneamente, dá uma importância decisiva às intuições intelectuais, não podendo, no entanto, nenhuma das partes, por si só, fornecer-nos o conhecimento. Assim sendo, tal movimento contrário é a “revolução copernicana” realizada por Kant[xiii].
Pode-se, desta maneira, na Metafísica, tentar o mesmo no que diz respeito à intuição dos objetos[xiv], ou seja, à representação no espaço e tempo qual seria pela decorrência da imediata presença do objeto. Pois do contrário, ou melhor, se continuasse a pensar que a intuição devesse regular-se pela natureza dos objetos, Kant não vê aonde se poderia saber algo a priori a respeito deles. Porém, alega Kant, se, invertendo a ordem, “o objeto (como objeto dos sentidos) se regula pela natureza do nosso poder de intuição, posso então representar-me muito bem essa possibilidade.”[xv]
E, chegando a este ponto de que as intuições devam se tornar conhecimento, Kant não se detém e, assim, se propõe:
devo relacioná-las [as intuições] como representações com algo como objeto e determinar este [o objeto] através daquelas [intuições], do mesmo modo posso ou aceitar que os conceitos, pelos quais realizo esta determinação, se regulem também pelo objeto, e então me encontro de novo no mesmo embaraço de como posso eu saber algo a priori a respeito; ou [invertendo a ordem] eu suponho que os objetos ou, o que é o mesmo, a experiência, na qual eles somente são conhecidos (como objetos dados), se regulem por esses conceitos.[xvi]
Neste caso, Kant encontra uma facilidade:
porque a própria experiência é um modo de conhecimento que requer entendimento, cuja regra devo pressupor como a priori em mim ainda antes de objetos me serem dados, e que deve ser expressa por conceitos a priori, pelos quais, portanto, todos os objetos da experiência devem necessariamente regular-se e com eles concordar.[xvii]
Assim, todas as tentativas de pensar os objetos, que são pensados necessariamente pela razão sem contudo poderem ser dados na experiência, serão mais tarde “uma esplêndida pedra de toque daquilo que tomamos como o método transformado da maneira de pensar” [xviii], ou seja, o de procurar, através da experimentação, confirmar ou refutar os elementos da razão pura. Porém, uma vez que os elementos da razão pura ousam ultrapassar os limites da experiência possível, tal procura é infrutífera. Portanto, as únicas ferramentas serão os conceitos e os princípios, aceitos por nós a priori,
enquanto eles forem dispostos de tal modo que os mesmos objetos possam ser considerados de dois aspectos diversos. Por um lado como objetos dos sentidos e do entendimento para experiência. Porém, por outro lado, como objetos apenas pensados, quer dizer, como objetos da razão isolada que aspira a elevar-se acima dos limites da experiência. [xix]
Desta maneira, o duplo ponto de vista, ou seja, enxergando pelo duplo aspecto dos conceitos e princípios concorda com o princípio da razão pura. E que, agora havendo uma dialética em vez de um ponto de vista, haja um inevitável conflito da razão consigo mesma. Assim, a experimentação decide pela justeza daquela distinção.
Esta tentativa alcança o êxito desejado e promete à Metafísica, na sua primeira parte, o caminho seguro de uma ciência, visto que ela se ocupa de conceitos a priori, cujos objetos correspondentes podem ser dados a eles adequadamente na experiência. Com efeito, pode-se após esta transformação da maneira de pensar [ou seja, a inversão kantiana], esclarecer muito bem a possibilidade de um conhecimento a priori e, mais ainda, dotar as leis, que servem a priori de fundamento à natureza, considerada como conjunto dos objetos da experiência, de suas provas satisfatórias, coisas impossíveis segundo a maneira de proceder adotada até agora.[xx]
“Agora, então, está claro qual é, para Kant, o “fundamento” dos juízos sintéticos a priori: é o próprio sujeito que sente e pensa, ou melhor, é o sujeito com as leis da sua sensibilidade e do seu intelecto.”[xxi] Uma vez que o ‘transcendental’, ou seja, como diz Kant, todo o conhecimento que não se relaciona com os objetos, mas sim com o nosso modo de conhecer os objetos, enquanto for possível a priori, são próprias do Sujeito e não do objeto.
Desta forma, graças à “revolução copernicana” realizada por Kant, não é mais possível falar de condições do objeto em si, mas somente de condições do objeto-em-relação-ao-Sujeito.
[i] REALE, Giovanni. História da Filosofia, do Humanismo a Kant. Volume 2. Editora Paullus. p. 871
[ii] Idem, pp.871-2
[iii] Idem, p.873
[iv] “O juízo 5+7=12 não é analítico, mas sintético: com efeito, nós recorremos aos dedos das mãos quando contamos (deve-se pensar também nas operações que realizamos com o ábaco” Idem, ibidem.
[v] “Escreve Kant: ‘A proposição de que a linha reta é mais breve entre dois pontos é uma proposição sintética, porque o conceito de reta não contém determinações de quantidade, mas só de qualidade.’ O conceito de linha ‘mais breve’ (qualidade), portanto, é totalmente acrescentado, não podendo ser extraído por nenhuma análise do conceito de “linha reta”. Entretanto, aqui, deve-se recorrer à ajuda da intuição, somente através da qual é possível a síntese.” Idem,ibidem.
[vi] “Porque, como diz Kant, ‘no conceito de matéria eu não penso a permanência, mas somente a sua presença no espaço, no sentido que o preenche. Por isso, eu ultrapasso realmente o conceito de matéria para acrescentar-lhe a priori algo que não pensava naquele conceito. Portanto, a proposição não é analítica, mas sintética e, no entanto, pensada a priori’. E o mesmo vale para todas as proposições fundamentais da física.”Idem, ibidem.
[vii] Idem, p.874
[viii] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Editora: Abril Cultural. São Paulo, 1974. p. 9
[ix] Prefácio à 2ª edição da Crítica da Razão Pura (1787), pp. B XIV a BXVIII
In Kant, Immanuel ([1781] 1994), Crítica da Razão Pura, Lisboa: F.C.G.
[x] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Editora: Abril Cultural. São Paulo, 1974. p. 11
[xi] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Editora: Abril Cultural. São Paulo, 1974. p. 12
[xii] REALE, Giovanni. História da Filosofia, do Humanismo a Kant. Volume 2. Editora Paullus. p. 876
[xiii] “O mesmo aconteceu com os primeiros pensamentos de Copérnico, que, depois de não ter conseguido ir adiante com a explicação dos movimentos celestes ao admitir que todo o corpo de astros girava em torno do espectador, tentou ver se não seria melhor deixar que o espectador se movesse em torno dos astros imóveis.” Idem, ibidem.
[xiv] “Duns Scot privilegiava como intuitivo (cognitio intuitiva) o conhecimento que ‘se refere àquilo que existe ou àquilo que está presente em determinada existência atual’, distinguindo-o do conhecimento abstrato (v. ABSTRATIVO), que abstrai da existência atual (Op. Ox., II, d. 3, q.9,n.6). Essa noção foi aceita por Durand de S Pourçain (In Sent., Prol., q.3F) e por Ockham, que, tal como Bacon, identificava o conheicmento intuitivo com a experiência (In Sent., Prol., q. 1 Z). A partir de então, até Kant, o significado específico desse termo é experiência (v.).” ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2007. P. 670
[xv] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Editora: Abril Cultural. São Paulo, 1974. p.12
[xvi] Idem, pp.12-3
[xvii] Idem, p.13
[xviii] Idem, ibidem.
[xix] Idem, ibidem.
[xx] Idem, ibidem.
[xxi]REALE, Giovanni. História da Filosofia, do Humanismo a Kant. Volume 2. Editora Paullus. p. 877
[...] Assim, Kant analisa a questão da metafísica como ciência ou não. [...]
para kant o que é juizo priori